sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fados cantados por Hermínia Silva no filme Aldeia da Roupa Branca (1938)

«Em 1938, Chianca de Garcia decide realizar um filme genuinamente português, sonho que acalentava desde 1933. Aliás foi por pouco que o filme "Aldeia da Roupa Branca" não foi o primeiro filme da Tobis Portuguesa. Na altura, os responsáveis da Tobis optaram pelo filme de Cottinelli Telmo "A Canção de Lisboa". Agora em 1938, Chianca de Garcia recebe luz verde para o seu filme, e assim nasce "Aldeia da Roupa Branca". O filme é ambientado numa aldeia próxima de Lisboa, onde as mulheres locais lavavam a roupa dos habitantes da capital. O filme centra a sua história na rivalidade de duas dessas empresas, a do Tio Jacinto, papel magistralmente interpretado pelo actor Manuel dos Santos Carvalho, e a da viúva Quitéria, outro papel memorável que marca a estreia no cinema de uma grande actriz de teatro, Elvira Velez. No papel principal surge mais uma vez Beatriz Costa, onde tem neste filme outro desempenho memorável no papel de Gracinda. Curioso será que após a estreia deste filme já no início de 1939 no cinema Tivoli, tanto Chianca de Garcia como Beatriz Costa partem rumo ao Brasil, para tentar aí uma carreia artística.»
Os Anos de Ouro do Cinema Português
Duração aproximada: 82 mn. P/B Ano de produção: 1938




O papel de Maria da Luz (Hermínia Silva) vive muito através do universo dos outros personagens. Era por ela que o Chico andava desvairado (vulgo apaixonado) e o único motivo pelo qual ainda não havia deixado Lisboa (aparte dos carros, outra das suas paixões). Gracinda via em Maria da Luz uma ameaça e uma das causas para as inquietações do seu coração, devido aos sentimentos que desenvolvia por Chico. Ficaria ele com ela ou com a fadista? Trocaria ele uma vida simples, e um amor puro, por uma estabilidade duvidosa, rodeada pelos ambientes luxuriosos das cidades e retiros? Aquele fado, personalizado pela Maria da Luz, era um Fado da tentação. O Fado de Gracinda era outro, quase oposto, da luta, pobreza, candura, trabalho, vida simples e vivida em comunidade.



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FADO DO RETIRO
(José Galhardo/Raul Ferrão)

É tão fresca a melancia
Como a boca da mulher;
Nas tardes de romaria
Rapazes é que é beber,
Chega a gente ao fim do dia
Sem dar p’lo amanhecer

É para esquecer
É para esquecer
Que assim beber
Tu me vês a vida inteira
Com este copo na mão
Que tem de sofrer
Mais vale beber até poder ter
O sangue de uma videira
Cá dentro do coração.

Ó tristeza vai-te embora
Que a vida passa a correr
Se não te alegras agora
Quando é que o hás-de fazer?
Bota o vinho a toda a hora
Canta, canta até poder

Se calhar haver zaragata
Com um freguês que tem mau vinho
Pr’a não estragar a frescata
É dizer-lhe com jeitinho
- Bebe lá mais meia lata,
Vá lá mais um pastelinho!



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FADO DA FADISTA

(D.R.)

Nasci num dia de chuva,
Eu chorava, o céu chorava.
Minha mãe cantava o fado
A ver se me consolava.
Depois palrei,
Depois falei,
Depois cantei,
Como quem sente um segredo
Represado na garganta
Vivi, sofri
E no que vi,
Compreendi
Que a fadista de nascença
Só é mulher quando canta.

Num dia de sol ardente
Passou pela minha rua,
Olhámos um para o outro,
E eu senti que ia ser sua.
Ainda hesitei,
Mas o que eu sei
É que cantei
Como quem canta, sentindo
Que a própria alma é que canta
E a fulgurar
A suplicar
O seu olhar,
Tinha a mesma labareda
Que me queimava a garganta.

Numa noite fria e escura
Não voltou à nossa casa.
Pus os olhos no meu filho
Sentindo os olhos em brasa.
E só então,
Meu coração,
Nessa traição
Entendeu a dor profunda
Que há na alma de quem canta.
Se me deixou,
Me abandonou,
Fez-me o que sou...
- Agonia da saudade
Que enrouquece uma garganta.


O âmbito do poema do "Fado do Retiro", assim como a cena em que ele decorre, fez-me concluir que se trata efectivamente da sua designação no filme. Todavia, também pode ser associado aos nomes "Fado da Melancia" ou "É tão Fresca a Melancia". Os resultados das minhas pesquisas sobre o nome deste fado foram um tanto ambíguos e por isso deixo ao critério de quem possui mais/melhores fontes sobre o assunto. O mesmo acontece com o Fado do Fadista, no que concerne à autoria.

Fontes:
Cartaz da Partitura Musical
Marceneiro, V.D., Recordar Hermínia Silva, Edição de Autor, 2004
Agradecimentos
Ofélia Pereira
Vítor Marceneiro
Paulo Borges Almeida
Pela paciência demonstrada, obrigada.

3 comentários:

  1. Excelente artigo sobre uma das nossas maiores fadistas de sempre.
    Beijos.

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  2. Agradeço o seu comentário Paulo. Felicidades!

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  3. E não esquecer que este filme marca a estreia de Milu no cinema.

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