domingo, 27 de setembro de 2009

Uma imagem de Berta Cardoso



Uma imagem icónica denuncia directamente uma representação estruturada pela majestade hierática. Será icónica para o que é domínio do simbólico, como hierática para símbolo de poder, de sagrado. Simbólica porque denuncia o contexto da personalidade nela inscrita e poderosa porque anuncia a sua influência por quem se deixa enlevar. Não só para quem deixa, como para quem não se liga; imagens assim não são catalisadoras de indiferença, muito pelo contrário. São cenários. Tanto para quem percebe do que ali se conta, naqueles traços, nas roupas, no penteado, esse retrato de época que choca pela presença, como para quem também conheceu a voz, a influência e a personalidade.
Imagens que são Fado, que são Símbolo, que são esse gozo espelhado no olhar, são imagens assim. Puras, estreitas, contidas, mas em estado de ebulição. Imagens de quem personifica e actua sobre a história: uma actriz fiel, uma mundana jocosa, uma fabricante de ilusões, uma dominadora do sensível e assoberbada pelo espírito (espirituosa!). Tantas foram, estas e outras, as qualificações latentes que vislumbrei neste irrecusável convite à interpretação.

Porque quando a fotografia deixa esse sentido do presente, atingindo um patamar do significante, aparente (ou Aparição), possui essa magia para deixar de ser retrato ou situação, para passar a
significar, a deslocar o estatuto. Se este fenómeno acontece com a larga maioria destes obturadores do quotidiano, esta foi a imagem que me trouxe outras viagens e outros sentidos. Para mim, uma imagem icónica do Fado, na figura de quem, sabemos nós, despertou paixões para durar uma vida inteira. Aparentemente retrato de silêncio, ensimesmado, quase autista, transformou-se nessa catarse do sentido e manutenção do sagrado que dura até aos dias de hoje, não para todos, infelizmente. Esta é culto e classe.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sabe-se lá quando a sorte é boa ou má

O fado Sabe-se Lá, cantado por Amália Rodrigues, foi uma das minhas primeiras paixões à primeira audição. Talvez por causa das súbitas alterações de tonalidade, do belíssimo início que expele, de imediato, a força da palavra... (nessa desventura!); a profundidade da sua voz capturou-me até à costumeira obsessão inicial de ouvir este fado vezes sem conta. Hoje ainda me arrepia.

Amália interpreta Sabe-se Lá no contexto de um concerto no Olympia de Paris (1957), cuja gravação correu mundo (e ainda corre!). Disponho desta versão em CD recuperada do vinil (da colecção particular Encanto do Vinil de D. Vasconcelos) e convosco partilho este Fado!



«... Este lamento, vindo da noite dos tempos, é o fado português, (...) canto popular que a grande Amália Rodrigues transforma numa liturgia, capaz de acompanhar tanto uma boda como um funeral...»
Rafael Valensi in L'Aurore Abril de 1956




Amália Rodrigues - Sabe-se Lá (Silva Tavares / Frederico Valério)
Acompanham à guitarra portuguesa e à viola, respectivamente, Domingos Camarinha e Santos Moreira.

video


Sabe-se Lá

Lá porque ando em baixo agora
Não me neguem vossa estima
E os alcatruzes da nora
Quando chora
Não andam sempre por cima
Rir da gente ninguém pode
Se o azar nos amofina
Pois se Deus não nos acode
Não há roda que mais rode
Do que a roda da má sina.

Sabe-se lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá
Amanhã o que virá
Breve desfaz - se
Uma vida honrada e boa
Ninguém sabe, quando nasce
Pr'ó que nasce uma pessoa.

O preciso é ser-se forte
Ser-se forte e não ter medo
Eis porque às vezes a sorte
Como a morte
Chega sempre tarde ou cedo
Ninguém foge ao seu destino
Nem para o que está guardado
Pois por um condão divino
Há quem nasça pequenino
Pr'a cumprir um grande fado.


Amália, por algum motivo que desconheço, não cantou o poema na íntegra.
Pode ouvi-lo neste vídeo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Preciosidade!!



Lado 1

1. Meu Amor Fugiu do Ninho
(Linhares Barbosa - Fado Corrido)

2. Cruz de Guerra
(Armando Neves - Miguel Ramos)

Lado 2

1. Noite de S. João
(Linhares Barbosa - José Marques)

2. Testamento
(João Redondo)

Editora Riso e Ritmo Discos, LDA.


Espero que este, da Berta Cardoso, seja o primeiro de muitos, mesmo sabendo que não é fácil!:)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Amália 2009





Ao consultar este panfleto terá acesso ao programa de eventos associados aos dez anos que marcaram o desaparecimento de Amália Rodrigues. Vão ocorrer espectáculos, exposições, projecção de filmes e debates que versarão sobre a importância e projecção do trabalho da Diva, bem como sobre a divulgação do Fado e da alma lusa por esse mundo fora.
Trata-se, também, de uma óptima oportunidade para ouvir Celeste Rodrigues ao vivo. É de aproveitar enquanto ainda podemos enlaçar-nos em vozes que emanam puro Fado. Será nos dias 9 e 10 de Outubro às 23h30 no Teatro São Luiz.
Alimento esperanças e uma crescente curiosidade em relação à exposição no Museu Berardo, que não deixarei de visitar.

"Mulher de uma intuição e inteligência sublimes, foi por natureza uma cantora à frente do seu tempo, alterando regras, tradições e costumes, elevando assim a música urbana a que chamamos fado a uma arte maior" Bruno de Almeida
Verdadeiro, no meu ponto de vista, se considerarmos que elevou, como fez, o fado a uma arte maior, mesmo o fado que nasceu antes de si. Foi o que Amália fez, estamos todos gratos, excepto por aqueles que teimam em pensar que Amália só elevou Amália a uma arte maior.

Notícia relacionada no Jornal I, 17 de Setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Fados com aditivos


Time Out Lisboa, 2-8 Set., 2009

Em Alfama estão a decorrer, nas últimas Sextas-Feiras de cada mês, sessões de fado vadio, curiosas frescatas modernas, que não se contentam apenas com fado, pois não. Temos mesmo de admitir que fado, nos tempos que correm, não é garantia de rambóia para ninguém, e que outros acontecimentos artísticos e sociais se impõem, não fôssemos nós actores nesta praça que engloba a diversidade do Milénio. É assim, fado vadio num dos bairros mais castiços de Lisboa, mas de braço dado com a contemporaneidade, não vá o Diabo tecê-las (vá lá, não lhe chamemos modernice, embora apeteça). Confesso que deve haver espectáculo, se ao Fado aprouver a devida Apelação. Comes e bebes garantidos, como diz a notícia, esses, pelo menos à antiga portuguesa acredito serem.