quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas Festas!

Desejo um Feliz Natal a todos os que me têm acompanhado nesta jornada.




Fotografia: Claude Tidd, The first Xmas Tree in Ross River 1930.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Sou miúda mas qu'importa?

Para animar o fim-de-semana, deixo mais um testemunho desta voz que considero das mais lindas, versáteis, maviosas, que o fado viu nascer e crescer. Num timbre de eterna miúda, para que disso não haja dúvida, aqui fica mais uma homenagem àquela que foi, é e será sempre a figura central deste blogue, não desfazendo a constante aprendizagem ao conhecer cada vez melhor aqueles que compõem o universo fadista. É um autêntico prazer.





Hermínia Silva canta "Sou Miúda" da autoria de Luís Ribeiro e João Fernandes
Gravação de 1958

Nasci nos dias pequenos
E quando alguém me saúda
Ao ver-me assim desta raça
Diz sempre em ar de chalaça:
Lá vai ali a miúda

Sou miúda, mas que importa
Ai, não me rala o ser franzina
Gosto até da sorte minha
Que a mulher mais a sardinha
Só se quer da pequenina

E se Deus me fez assim
Ai, tornou-me mulher benquista
Deu-me esta voz para cantar
Deu-me um coração para amar
E deu-me alma de fadista

Por isso, vivo contente
Ai, sou como os outros mortais
Sou pequena, mas em suma
Não dou a palma a nenhuma
Chego onde chegam as mais

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Para ti...

... que és mais Fadista que o Fado!... e daquelas pessoas nas quais tropeçamos na vida, por circunstância, boa ventura, ou demais bons augúrios, e que ficam, não importa o quê.





Lucília do Carmo canta "Olhos Garotos", da autoria de Linhares Barbosa e Jaime Santos.
Gravação de 1958.

domingo, 29 de novembro de 2009

VER AMÁLIA Os Filmes de Amália Rodrigues, por Tiago Baptista




Fiquei algo surpreendida por ter deparado com aquilo a que chamo um livro de divulgação por excelência, a saber, um livro que, lá por ser de divulgação, não precisa necessariamente de ser banal, descritivo e adaptado ao consumo fast food (fast reading...) de hoje em dia. Pensar Amália no cinema foi o que Tiago Baptista nos trouxe, focando a atenção da sua escrita em diversos pontos que convidam à reflexão e ao pensamento sobre a arte da nossa Diva.

Deu a conhecer essas linguagens, apanágio da estrela/mulher, as quais subentendemos na ambiguidade entre representação e realidade, entre verdades que se escondem em actuações e representações que são próximas da vida construída para os olhos do público; a vida real, que se vislumbra nas entrelinhas, decorrente de interpretações do real encenado, do real vivido, do real fabricado.

Este livro não trata de uma filmografia exaustiva, com descrição de filmes e referências à petite histoire que plasmou a vida da fadista. Trata-se de uma análise simples, de leitura fluída, mas útil, gratificante até, que visa a estrutura em vez do simples acontecimento. Ver Amália a pensar Amália. Foi assim que li este pequeno livro, que pode ser só o início de tantas outras obras.

Para além do natural enfoque na interpretação da fadista, Tiago Baptista analisou a forma que a linguagem cinematográfica utilizou para expressar e transmitir o fado, a mulher, a fadista, a actriz, que se encontra por trás dessa personagem mítica que foi Amália . Criando algumas convenções na representação de Amália a cantar (i.e. o plano picado sobre o seu rosto) o cinema português criou aquilo que se tornou um clássico e que se transmitiu na filmografia vindoura.

Na figuração dos mitos existe uma certa circularidade, ou seja, a história mítica reflecte-se e actualiza-se constantemente como forma de legitimação e constante redefinição. A linguagem cinematográfica apostou na redefinição da história da cigana e fadista Severa, que se sacrificou por amor, como tão bem expressa o conhecido fado "Tia Macheta", que versa assim: "E desde essa noite [em que a Severa esperou, em vão, o Conde de Vimioso] é que existe o fado triste da Mouraria". O próprio Júlio Dantas, na peça "A Severa" bafejou com um toque poético aquela que, na realidade (diz-se), foi uma morte por tuberculose, na mais profunda solidão. Se quem conta um conto acrescenta um ponto, quem participa na (re)criação de um mito, poetiza.

Tiago Baptista explica como a imagem de Amália Rodrigues foi sendo criada à imagem da Severa, porém actualizando-se continuamente, legitimando essa ligação da mulher (Amália, actriz, fadista) ao amor trágico, ao fado, ao passado e à saudade. Recuperando os clichés do papel da mulher como amante e como fadista, como "presença", como estética, no fado, o cinema recuperou as realidades entretecendo-as na personalidade de Amália, ao mesmo tempo que ousava explicitar a emancipação definidora da mulher, por alturas dos anos 60, mesmo ela reconhecendo o que deseja para a sua vida e reclamando para a si a sua independência.

O amor será sacrificado no que respeita à desdita da história, seja por opção, obrigação ou sentimentos não correspondidos. O fado aqui encontrará a sua presença aglutinadora no conjunto de símbolos que ajudaram a construir a imagem popular e prismática da fadista Amália Rodrigues.

Capítulos que constituem a estrutura do ensaio:
Ver Amália ser Amália
Espontaneidade
Solenidade
Intemporalidade
Ambiguidade e Individualismo

Principais referências e análises aos filmes:
Capas Negras (Armando Miranda, 1947)
Fado, História de uma Cantadeira (Perdigão Queiroga, 1947)
Vendaval Maravilhoso (Leitão de Barros, 1949)
Os Amantes do Tejo (Henri Verneuil, 1954)
Sangue Toureiro (Augusto Fraga, 1958)
Fado Corrido (Jorge Brum do Canto, 1964)
As Ilhas Encantadas (Carlos Villardebó, 1965)

Edições Tinta da China, Lisboa 2009.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Adega Machado encerrou



Bom dia! Más notícias para hoje, ou melhor, ontem.

Leia a notícia de 26 NOV. 2009, no Correio da Manhã.



A Adega Machado, espaço mítico situado no Bairro Alto, que contou com 72 anos de existência, encerrou no passado Domingo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Grande Entrevista com Eunice Muñoz


Eunice Muñoz, 1948

No seguimento do post anterior, e como acredito que alguns leitores sejam admiradores do trabalho da famigerada actriz Eunice Muñoz, não hão-de querer deixar de saber que, às 21:00h do dia 19 deste mês, estará presente na Grande Entrevista, como especial convidada de Judite de Sousa.

Leia aqui a programação da RTP e deleite-se com um dos raros momentos em que vale a pena estar à frente da TV.


Errata: Como eu, de manhã, com a minha habitual dislexia, me enganei e indiquei que a entrevista era hoje, dia 18, perdoe-me quem leu e não viu o link. A coisa já está corrigida. Sempre podem, hoje, às 21:00h, ver uma reportagem sobre quem quer ter filhos à fartazana e quem quer, apenas, sopas e descanso.

Imagem extraída do blogue Dias que Voam.

Julieta Reis edita novo álbum




Julieta Reis edita novo álbum, ainda estou para saber de que editora. A chancela é coisa de importância. A sabê-lo na altura da aquisição.

Pode ler a notícia aqui, extraída do DN, 11 NOV. 2009.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Ano do Pensamento Mágico




Resolvi abrir uma excepção à temática deste blogue, para apresentar a peça recentemente estreada no Teatro Nacional D. Maria II, "O Ano do Pensamento Mágico", interpretada por Eunice Muñoz e encenada por Diogo Infante.

Joan Didion, americana, jornalista, nascida em 1934, escreveu o livro The Year of Magical Thinking, um compêndio das suas memórias, versando sobre a morte, a perda e todo o pesado processo que envolveu o lançamento dos seus entes mais queridos, definitivamente, para o mundo dos mortos.

Publicada em 2005, a obra de Joan Didion foi recriada em forma de monólogo, no palco da Broadway e do National Theatre de Londes.

O Palco

É uma travessia no deserto da existência que "vai acontecer-vos", refere Eunice, com certeza, não num tom ameaçador mas de aviso e de inevitabilidade. Um tom que dá o mote e continua a saborear-se nas palavras que só compreendem aqueles que vivenciaram a realidade da perda. Há uma ideia de dor, de perda, de morte, de choque; em contrapartida existe a realidade, o acontecimento, e o choque que transporta todas as suas inquietações. Esta é uma das muitas situações em que a ideia de é absolutamente incompreensível e até ilusória na sua interpretação.

Falar sobre a perda, mesmo a actuar, é fazer esse exorcismo muito pessoal. O exorcismo dos nossos mortos. Creio que existiu na assistência um misto entre entendimento e/ou identificação. Para Eunice Muñoz, foi uma peça ao seu jeito (como chegou a referir), para confrontar-se com as suas dores e com os inúmeros passados que deixaram recordações.

Para mim, mera espectadora, foi um golpe e tanto confrontar-me com dores idênticas às minhas, das quais reconheci de imediato as mesmas perturbações, se não as mesmas, muito idênticas, decerto. A ilusão, o pensamento mágico que nos faz ser mais associativos do que racionais: se eu fizer x... então acontece y. "Se eu não deitar fora os seus sapatos, ele [John] conseguirá regressar a casa". Mostra-se que se "lida com a situação"; faz-se o ritual, faz-se a coisa certa. Trabalha-se no vazio preenchendo-o com subterfúgios de intenção racional.

Lembro-me de uma deixa interessante, da qual aqui resolvo deixar mais uma paráfrase: "cuidado com as manhãs, são a pior altura para a auto-piedade". Manhãs? E as tardes? E o horror das noites? Mas compreendi. Foi expressa essa insustentabilidade perante o adverso. Estar calma, ter dinheiro para a viagem, essa viagem simbólica pelo limbo dos reinos. Estar no controlo da situação, em que nada do que se faz pela saúde de alguém chega, em que o "tudo" não chega. Após o tudo falta mais um pouco, pouco esse onde nos detemos e onde encontramos o abismo.

Cenário e Vida

Em palco estão uma mesa, o livro [da Joan Didion], um copo com água, lenços, uma poltrona, música para intercalar os momentos em que a escuridão nos cobre e em que o cenário, com um intrincado de formas acutilantes, se move e deixa a descoberto, após essa terrífica catarse, um final, que será o final para a vida. Atenção. Não da vida, mas para a vida. Porque a vida tem cá uma força (como um dia me disseram) que por mais amargura, medos, perdas, sofrimentos para a morte, relança sempre no sentido nesse desenlace. Para a vida.
"Amo-te mais do que apenas mais um dia". E um dia alguém dirá "talvez amasse".

Obrigada Eunice. Bravo!

Aqui vos deixo a reportagem que foi publicada na TimeOut Lisboa, 11-17 NOV. 2009, escrita por Bárbara Cruz:



Veja a autora com o seu marido e leia um excerto do livro.

Como Eunice se prepara para o palco, no Jornal I, 16 NOV. 2009, por Vanda Marques.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Pequenas Felicidades

É raro existirem fados assim. Fados positivos no que respeita ao amor. Lá que são positivos nas touradas, nas frescatas, na bebedeira, na rambóia, ou no que lhe quiserem chamar, disso não existem dúvidas. Mas fados de amor eterno, em que existem certezas na ligação entre duas almas, são caso de rara existência.

Quantas vezes não deparamos nós com os fadinhos chorados acerca da mulher abandonada, traída, humilhada e desrespeitada pelo marialva que anda a pisar em ramo verde, tendo ainda a lata de "gingar petulante, em ar de provocação" à frente da desgraçada? E depois, como "gosto de ti quando mentes", pensam elas que, ao recuperá-lo, tiveram uma grande vitória sobre a amante e assim acaba o fado! Claro que não... porque segue direitinho para a faixa seguinte onde "iludiste duas vidas, com mil palavras fingidas, que não sentiste nem sentes". E lá vai mais uma voltinha!

Só com o Chico e a Glória é que houve peixeirada da grossa que depois deu num lindo zarolho. Final feliz! Diz que na Travessa da Palha houve um cantar ao desafio entre as duas mulheres e a traída levou o marialva p'ra casa. Final feliz! E como "a mentir-me tens amor". Final feliz! "Mas eu sinto, meu amor, que escondes seja o que for, e fico preocupada". Pois claro, não se queixe!

Todavia acredito que, no meio tudo isto, deste desassossego, angústia, indignação, ainda exista espaço para pequenas felicidades, pequenos momentos que, mesmo que não durem uma eternidade, que não sejam um grande fado, são bons! Há sempre a hipótese de "alguns meses depois" voltar ao baile, "com outra blusa nova e out'xaile"... e ver o que acontece!

Por isso, enquanto o marialva foi aos toiros e sabe-se lá que mais, minha senhora, ouça este fado:

PEQUENAS FELICIDADES (Moniz Pereira)
Canta Lucília do Carmo



O nosso amor são pequenas felicidades
São sorrisos, são tristezas
Algumas leviandades
E também muitas certezas
Cresce sempre, nunca cansa
Tudo nele são verdades
A certeza não é esperança
Não tem lugar para maldades

O nosso amor são pequenas felicidades
São sorrisos, são tristezas
Algumas leviandades
E também muitas certezas
Aumenta todos os dias
Desde manhã ao sol-pôr
Aquece as noites mais frias
Enfim, é o nosso amor

O nosso amor são pequenas felicidades
São sorrisos, são tristezas
Algumas leviandades
E também muitas certezas
Um dia, tem de morrer
Muitos virão depois
Quando isto suceder
Já cá não estamos os dois


Bom fim-de-semana!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ARQUIVOS DO FADO - ERCÍLIA COSTA




Por fim, sendo os últimos sempre os primeiros, no seguimento do que se tem exposto aqui e aqui, mais uma fadista, cujos registos eram inexistentes em lojas e grandes superfícies, pôde agora integrar esses catálogos e figurar entre os melhores (e piores) que actualmente se comercializam. Não que seja figura de destaque nos escaparates, ou que alguma vez o tenha sido (no contexto desta colecção), a par de Maria Alice... É apenas mais um daqueles paraísos perdidos, mesmo perdidos, no meio da mole indefinida de discos e de destaques que não merecem sequer honras de figuração.

Continuo a focar que muito me apraz ouvir estas gravações recuperadas dos 78rpm. Significa que, hoje em dia, procura valorizar-se aquelas que são agora autênticas peças de colecção, digitalizando-as e assim preservando-as do desgaste da audição. E servirá, também, para aplacar o desejo dos amantes do que outrora foi o fado mainstream e que agora é mais underground que os esgotos de Lisboa. Os amantes fadistas e não fadistas agradecerão, por certo, a oportunidade única de fruir novamente a voz de Ercília Costa, "que no Fado foi rainha", sem terem de ser coleccionadores destes fonogramas. Claro que nada substitui o som provindo da Vitrola, mas o registo destes 20 fados trazem uma aura tão doce e antiga que se deixa apreciar na permeabilidade dos sentidos. Penso que a era da alta fidelidade deixou brechas para se apreciar este género de gravações, além de terem ascendido à justa posição de registos de culto, aos quais os apreciadores de antiguidades não serão indiferentes. É o que a tecnologia permite: o registo da Antiguidade em CD, para mais, fazendo-a soar bem, possibilitando a transmissão aos vindouros que forem dotados de uma alma vintage.

O impecável e sucinto texto de Maria de São José Côrte-Real, presente no livrinho que acompanha este lançamento, explora os caminhos do repertório de Ercília Costa, que vão desde a auto-referencialidade do fado (que aqui resolvi apresentar em "Fado do Passado") passando pelo fado sobre as ruas de Alfama; sobre a cidade de Lisboa destaca-se o "Fado Lisboa", outrora cantado na Revista "O Canto da Cigarra"; uma Desgarrada, onde António Menano se apresenta a cantar à maneira do fado de Coimbra, interpretado também por Joaquim Campos, a par de Ercília Costa, mostrando duas maneiras diferentes de cantar o fado, enaltecendo assim a diversidade e o dramatismo. Pelos fados sobre ceguinhos, sobre o amor filial e sobre desgostos e amarguras motivados pelo Amor, Ercília Costa debitou as suas palavras sentidas.

O fado que escolhi para partilhar convosco não aconteceu apenas porque é passadista ou porque é determinado pela referência a si mesmo ou porque versa sobre três fadistas basilares (Severa, Cesária, Maria Vitória), mas especialmente porque tem um intróito instrumental que constitui a primeira secção do fado. Maria de São José Côrte-Real bem nota essa distinta característica performativa, apanágio do fado dos anos 30, um "modelo musical", como ela designa, caído em desuso provavelmente por constrangimentos relacionados com os tempos de gravação. Se caíu em desuso na altura, bem se vê que actualmente as canções também apresentam uma versão vulgarmente apelidada de radio edit, para passarem nas rádios, caso os originais excedam os parâmetros temporários que uma canção supostamente deverá ter para transmissão.

Nesta época de grandes convulsões históricas enformadas pelo dealbar das ditaduras na Europa e em Portugal, Ercília Costa, juntamente com Armandinho e outros fadistas, viajava e vestia o seu fado, que se encontrava num momento flamejante, afirmando-se e definindo-se em perfeita sincronia com outras formas de arte, sejam o cinema, o teatro de revista, ou as artes plásticas.

Ercília Costa As Primeiras Gravações 1929-1930

1. Fado da Alfama (Raul Ferrão / V. Bastos)
2. Fado do Passado (M. de Lencastre / V. Bastos)
3. O Meu Filho (Popular / Henrique Rego)
4. Fado Tango (Joaquim Campos / Fernando Telles)
5. Negros Traços (João David / Fernando Telles)
6. Desilusão (Campos - Proença / Henrique Rego)
7. Fado Corrido (Popular / Mário Leitão de Sá)
8. Um Desgosto (Alfredo dos Santos / Mário Fernandes)
9. Fado Lisboa (Raul Ferrão / Álvaro Leal)
10. A Minha Vida (Popular / sem informação no disco)
11. Fado Aida (Alfredo Duarte / João da Mata)
12. Fado Dois Tons (sem informação no disco / Alberto Costa Lima)
13. Fado Ercília (Armandinho / Júlio Guimarães)
14. Fado sem Pernas (Guilherme Coração / Manuel Maria)
15. A Desgarrada (Popular / Fernando Telles)
16. Fado da Mouraria (Popular / T.L.R.)
17. Meu Tormento (sem informação no disco)
18. Saudades que Matam (sem informação no disco)
19. O Filho Ceguinho (Ercília Costa / Amadeu do Vale)
20. Duas Glórias (Popular / João da Mata)


Fado do Passado (M. de Lencastre / V. Bastos)
Lisboa, 1929



Cantado por meretrizes
Chorando sua quimera
O fado criou raízes
Na garganta da Severa

O fado em várias orgias
Descreveu a sorte vária
Entre pranto e alegrias
Cantado pela Cesária

É filho de Portugal
E tem gravado na história
A fadista divinal
Que foi Maria Vitória


Leia uma biografia de Ercília Costa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Adeus P.R. (1928-2009)


Teresa Tarouca "Saudade, Silêncio e Sombra" (Nuno Lorena / Pedro Rodrigues Santos)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Ver Amália" por Tiago Baptista


Imagem retirada de Lisboa SOS

A apresentação do livro no Soldado do Fado, brevemente... (num blogspot perto de si).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Bons Humores

É bom uma pessoa chegar a casa, completamente arrasada e cansada do dia, bem como de outras coisas, e ter a oportunidade de encontrar textos que, à primeira leitura, fazem soltar as mais sinceras gargalhadas. É que isto de brincar com o que se gosta tem muito que se lhe diga. Não é para todos, infelizmente.

Este jocoso verbete é dedicado aos detentores de franco sentido de humor:
Verzweiflung: Devir

Obrigada Seele! Já brindei com um "copinho de vinho branco" e nem perdi tempo a pedir todas as outras iguarias (que já nem me lembro quais são!).

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Vazio e Frio



Tema retirado do CD “Grande noite de fados : festa de homenagem a Alfredo Marceneiro”
Lisboa : EMI Valentim de Carvalho, 1998
Gravação ao vivo realizada no Teatro S. Luiz em Lisboa, a 25 de Maio de 1963



Lugar Vazio (Fernando Farinha / Alberto Correia)

É de noite que me lembro
De tudo o que eu tinha
Ao sentir-me abandonada
Deitada, sozinha
Lembro aquela felicidade
Que outrora foi minha

Chego a julgar-te a meu lado
Contigo, deitado,
Procuro na escuridão
Mas o teu lugar vazio
Está tão vazio e tão frio
Como esse teu coração

Olhando a tua moldura
Virada p’ra mim
Ambos sofremos o mesmo
Destino ruim
Falta nela o teu retrato
E faltas-me tu a mim


Cá do vazio percebo eu e não preciso de me concentrar sequer numa voltinha. Penso até que não existe concentração possível perante a voz desta senhora. Uma brincalhona de primeira com uma voz de qualidades tão únicas e intensas. Só podia ter sido uma vedeta absoluta e uma distinta fadista, esta Hermínia que trago na alma e muitas vezes na minha boca.
Poema dramático e romântico, não tivesse sido ele interpretado também por Tony de Matos (entre outros, como Eduarda Maria, Carlos Zel...); mas, deixem-me cá puxar a brasa à minha sardinha, a Hermínia fez um excelente trabalho no género. Cantar as amarguras do amor, com a contenção que lhe era única, firmou mais uma das suas absolutas qualidades, assim como quando interpretou o fado “Rosa Enjeitada”. Até parece que se sente (e não só parece!), por isso o Fado tem esta coisa da familiaridade. Quem sentiu e quem viveu (ou sente e vive) sabe reconhecer esses lugares vazios, no corpo e no coração.
A noite é mesmo diabólica. Há quem se mantenha sobejamente ocupado para, à noite, cair na cama de cansaço. A noite é macabra, como já me disseram. É na noite que se fincam as ausências na alma e no coração, até que tudo parece frio, gélido de morte, e já não bate. E não é de corações independentes que aqui se fala!
Eu conheço uma estrofe que reza e ilustra assim (adivinhem lá qual é... não vale ir ao Google):

Não passo bem a noite sem um fado
Não passo bem a noite sem beber
Não passo bem a noite abandonada
Não passo bem a noite sem te ver

O lugar vazio pode impor-se-nos, sem que assim o tenhamos escolhido. Pode fazer parte dessa nossa natureza que se abandona à solidão, ao invés de se envolver no conforto do calor humano. Onde é que acaba o medo?, essa insustentabilidade que surge pelo desespero de se estar só? Estar só, como vazio e frio, onde frio, não é o coração, mas o próprio fardo de estar a existir, de saber cuidar do dia.
Sem sentir e sem vida não existe essa fartura de lugares vazios, de buracos negros através dos quais respiramos. Contudo, não consigo deixar de vislumbrar com certo optimismo umas luzes intermitentes (intermitências de vida e não de morte) que nos abrem ao olhar uma nova paisagem. E não necessariamente boa.

Lugares vazios. Lugares comuns.



Ouça "Lugar Vazio" cantado por Tony de Matos

Fontes:
http://jorgesilva.bloguedemusica.com/8348/Lugar-vazio/
http://fonoteca.cm-lisboa.pt/cgi-bin/info3.pl?11190&CD&0
Autorias http://fonoteca.cm-lisboa.pt/cgi-bin/info3.pl?21434&CD&0

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fadistas Cantam Amália



Teatro S. Luiz

9 E 10 OUT
FADISTAS CANTAM AMÁLIA
SEXTA E SÁBADO ÀS 23H30

Joana Amendoeira Voz
Celeste Rodrigues Voz
João Ferreira Rosa Voz
Pedro Amendoeira Guitarra Portuguesa
Pedro Pinhal Viola de Fado
Paulo Paz Contrabaixo e Baixo
José Fontes Rocha Guitarra Portuguesa
Diogo Clemente Viola de Fado
Joel Pina Viola Baixo

Concepção e Autoria Hélder Moutinho

Gostei muito! Foi um prazer ter ouvido Celeste Rodrigues ao vivo, que foi, principalmente, quem me levou a assistir este espectáculo. Adicionalmente, João Ferreira Rosa cantou uns belos fados e pude ter, também, a oportunidade única de ouvir Fontes Rocha e Joel Pina numas boas guitarradas. Ou seja, tendo em conta o objectivo inicial, saí ainda mais preenchida do que pensava. Estes senhores (e a Senhora) estão cheios de força e não é por acaso que fazem parte dos melhores.

Recordo-me especialmente da Dª Celeste a cantar Fado Celeste. Adorei!

Joana Amendoeira foi uma excelente anfitriã, sempre animada do início ao fim. Ainda pensei que a rapariga tivesse tomado qualquer coisinha para não ter parado de abanar a cabeça durante todo o espectáculo. Energia invejável, a dela! Já não direi o mesmo a cantar o fado, porque realmente o seu registo de voz e atitude ondulante não condizem com as minhas preferências.

Gostava só de fazer uma pergunta, e não me levem a mal: o que é que estava a fazer um contrabaixo no conjunto de acompanhamento? Por causa do seu famigerado "bafo"? Não desfazendo o talento de Paulo Paz, penso que o som estaria com uma excelente projecção e modelação com duas guitarras portuguesas e duas violas de fado, amplificadas por microfones, como estavam.

Gostei de ouvir alguns convidados, especialmente uma menina que cantou Amor de Mel Amor de Fel. Tímida e sensível, captou e transmitiu muito bem o que lhe ia na alma (ou o que se pensa que ia) ao cantar esse fado, deixando, por vezes, escapar um certo nervosismo.

Confesso que, para mim, o momento alto da noite foi quando desligaram os microfones e se cantou uma desgarrada, que tão bem se ouviu, assim ao natural, onde as vozes sobressaíram com as suas qualidades próprias.

Há uma coisa que se anda a perder, coisa essa que não abunda muito por terras de Portugal e que se chama boa educação. Neste caso, em que se ia ouvir Fado, a assistência devia primar pelo silêncio. Não é por acaso que ele é pedido, sugerido ou ordenado, quando se canta esse ritual que é o Fado. Pois há gente que prefere tecer comentários parvos em vez de ouvir e procurar envolver-se na música ou, caso não se goste deste ou daquele fado, pelo menos deixar que os outros fruam sem barulho de fundo. É que posso não ter ouvido de tísica, mas ouço o quanto baste.

Fora estes e outros pormenores foi, no meu entender e sentir, uma noite a recordar para sempre, pelas melhores razões.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Coisas e Loisas



Tertúlia no Jardim de Inverno do São Luiz

Ocorreu uma discussão algo acesa em torno de uma eventual edição integral dos poemas que Amália cantou ao longo da sua carreira.

Leia aqui.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Apoiado!

Artigo de opinião publicado no Jornal I.
Passo a citar:

A Rosa (e os Enjeitados)
por António Pires, Publicado em 08 de Outubro de 2009

O António Variações cantava, em "Todos Temos Amália na Voz": "Dei o teu nome à minha terra/Dei o teu nome à minha arte/A tua vida é primavera/A tua voz é eternidade", antes de, no refrão, dizer "Todos nós temos Amália na voz". E Variações, nesta canção composta muitos anos antes da morte de Amália Rodrigues - ele, aliás, viria a morrer muito mais cedo que a sua musa -, resumiu na perfeição o amor, o respeito e a admiração que milhões de portugueses sentiram e sentem pelo ícone maior do fado de Lisboa.

Não são de mais, portanto, as inúmeras iniciativas que nesta e nas últimas semanas homenagearam a memória de Amália.

A edição em CD de temas inéditos dos primeiros tempos da cantora; extensas colecções de discos; concertos de tributo (de gente do fado e de fora dele); conferências; exposições; o filme "Amália" a passar na RTP... Tudo isso é mais que justo, e se calhar ainda é pouco. Mas não deixa de ser triste - como o fado - pensar que homenagear Amália é importante, mas que igualmente importante seria homenagear muitos outros. Há dois anos passaram 25 anos sobre a morte de Alfredo Marceneiro. O ano passado, 20 sobre o falecimento de Francisco José. Alguém os recordou? Neste mesmo ano de 2009 passam dez anos, tal como com Amália, sobre o desaparecimento de Lucília do Carmo. Onde estão as comemorações? Max morreu em Maio de 1980. Alguém sabe de alguma coisa que esteja a ser feita para a celebração dos 30 anos da sua morte, daqui por alguns meses?


Opinião que vem corroborar aquilo em que tenho martelado ultimamente. Felizmente, também nos jornais, surgem opiniões favoráveis à diversidade nas homenagens aos artistas da nossa cultura, neste caso do Fado, que bem merecem.

Todavia, existem por aí questões que se abrem sobre se seria válido, nos dias de hoje, homenagear um/uma fadista, ou seja, se teria adesão por parte do público para realizar a série de eventos como a que temos vindo a assistir. Apesar de me ter parecido absurdo, de início, a mera colocação desta questão, procurei distanciar-me e pensar no quão plausível poderá ser...! Apurou-se que a Amália ainda seria apreciada neste tempo, mas a Lucília do Carmo..? Ou então imaginem lá a Berta Cardoso, com um cartaz à Andy Warhol espalhado por Lisboa, anunciando uma série de eventos que reunissem vários media. Muita "sorte" teve a Hermínia Silva em ter sido recordada pelos programas da manhã, nos diferentes canais de TV, por ocasião do centenário do seu nascimento e de ter sido homenageada na RTP1. Nada que tivesse a ver com os eventos e estudos organizados em torno de Amália.

No entanto, não posso deixar de acusar quem organiza estes eventos e orienta, de certa forma, os interesses do público, para algo que, em vez de ser sempre um mesmo dado adquirido (como a Amália ainda é no mercado), pudesse proceder-se, também, a uma recuperação (de outros fadistas), colocada em evidência no nosso tempo e aproveitada pela sua novidade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Património, Coração Independente, Rádio

Hoje, algumas notícias sobre o mundo do Fado:




Carrilho quer fado Património da Humanidade em 2011

Não tanto pela candidatura em si, mas pela divulgação do Fado que pode surgir em seu torno, considero esta notícia, que se resume ao "vira o disco e toca o mesmo", importante. Aguardarei com alguma ansiedade as edições, de livros e música, que serão lançadas no próximo ano. Espero que sejam válidas do ponto de vista informativo, quer para estudo, quer para divulgação, embora aposte mais nesta última qualidade.


Joana Vasconcelos, Coração Independente Vermelho, 2005

Exposição sobre Amália abre na véspera dos 10 anos da morte

Uma exposição que pretende repensar Amália Rodrigues (1920-1999) como símbolo da cultura portuguesa, com mais de 500 peças, entre objectos pessoais e obras de artistas plásticos contemporâneos inspiradas na fadista, é hoje inaugurada em dois museus de Lisboa, no Museu Berardo e Museu da Electricidade.



Emissora só de fado nasce em Lisboa no aniversário da morte de Amália

A emissora 92.0 correspondia à RNA (Rádio Nova Antena) e já transmitia exclusivamente Fado (e ocasionalmente outras canções portuguesas) há algum tempo. Agora tem nova roupagem e uma programação mais dinâmica. Chama-se Rádio Amália e poderá ouvi-la em http://www.amalia.fm/. O sítio online ainda se encontra em construção.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

CANSAÇO



Cansaço (Joaquim Campos / Luís Macedo)

Por trás do espelho quem está
De olhos fixados nos meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao Deus-dará
Deixando os olhos nos meus.
Quem dorme na minha cama,
E tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama,
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos.
Tudo o que faço ou não faço,
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim.


Juntamente com esta súbita mudança de tempo, sobretudo (mas não só) por este tempo cinzento, chuvoso, húmido, veio-me à memória o único fado que não consigo ouvir até ao fim. Quer dizer, não é o único, existe outro que, um dia, partilharei convosco, mas direi que foi este o primeiro a brindar-me com o seu inefável arrepio. Até poderia dizer, aqui pelas minhas determinações pessoais, que este poema tem tudo. Perdoem-me o cliché, que também se aplica a alguns poemas escritos pela Amália, mas realmente temos o prazer, ocasionalmente, de nos depararmos com obras de arte como esta, que nos trazem tudo. E isso não é bom. Nisso mesmo reside o seu encanto. Portanto, fazendo apelo a este masoquismo muito pessoal, partilho com todos vós este fado, que todos já conhecerão, em parte, por partilharem essa experiência que acredito que também vos seja intensa, por outro lado, acompanhando estas recordações de Amália Rodrigues por ocasião dos 10 anos da sua morte.

Agradeço a quem trouxe Amália aos meus sentidos e a quem me trouxe ao Fado, conseguindo também trazer-me a mim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Fado Tradicional HOJE

Li um tópico sobre o fado tradicional, no Portal do Fado, e deu-me a súbita vontade de escrever um verbete sobre o assunto, que este blogue vive muito dessa deliciosa espontaneidade. Não é que já não tenha tratado a situação noutros "posts", mesmo em comentários, neste e noutros blogues, mas sinto necessidade de discorrer (a bem escorrer!) um pouco mais sobre o fado tradicional, o genuíno, aquele que, na minha opinião e gosto pessoal é O Tal.

Só queria dizer que aquilo que acontece com o Fado é o mesmo que acontece com outras formas de arte, em especial, de música. Existem as origens do estilo, seja ele qual for (e o do Fado, que belo e lendário é...), a sua consumação, e todas as variantes e recriações que possam fazer-se ao longo dos tempos. Se um estilo não for apelativo e apaixonante o suficiente para ser recriado pelos seus amantes (que muitas vezes são confundidos com os seus detractores; a bem ou a mal, quem ama também destrói), então provavelmente não assistiríamos a uma projecção e constante actualização no Tempo. É assim que surge uma Amália em peso, neste ano de 2009, com vários acontecimentos artísticos que se julgariam insólitos no Fado, como por exemplo a criação de uma Banda Desenhada! É assim que vai surgindo um renovado interesse na Obra deste Fado. Mas, coisa interessante de se notar, é que esses novos amantes da Canção Nacional (utilizo esta designação mais por amor do que por sentido nos dias que correm) não me parece que tenham muito interesse em ir jantar ao Faia, ou ao Mesa de Frades, ou ao Luso, assim de repente, para "curtir" essa nova onda, com muita Portugalidade e muita actualidade. Parece-me mais que apostarão num rali pelos concertos dos Hoje, dos Deolinda, dos Oquestrada, entre outros, a saber, Ana Moura, Mariza, e afins.

Portanto, actualizações de importâncias e preponderâncias na Arte existem sempre. Não se espere é que também não existam actualizações nas atitudes, nos gostos, nas vontades e naquilo que se faz com essa Arte. E quem fica para trás tem de aceitar a condição a que o seu gosto e vontade se propõe. Aqui este soldado, por ser soldado, fosse ele de qualquer outra patente dentro desta militância, sempre apreciou o lado purista de qualquer género. Porém há que entender que existam aqueles que prefiram estar na vanguarda.

Não confundir tudo isto, que ao desvirtuamento da boa arte da fadistagem diz respeito, com a falta de informação e divulgação de fados, fadistas, compositores, acompanhantes, com os factos históricos pouco precisos e obscuros, com as autorias trocadas... É que o Fado, assim como a cidade de Lisboa, é também um palimpsesto. No fundo, é isso que lhe dá encanto, ou seja, essa despreocupação de registo. Bem notou o Marceneiro (o Alfredo), que tinha sessões (as chamadas "jam sessions" de agora) de improvisação com o Armandinho, que muito se perdeu, para além do que se ganhou com essa parceria, pois não existiam as actuais possibilidades de gravação dessas experiências. Agora as pessoas gravam tudo, registam, posterizam, personalizam, mas também efemerizam e mostram o lado perene, sustido apenas pelas breves recordações de alguns. Muitas vezes intencionalmente. É assim que surgem objectos e gravações de culto (e lá estou eu a "bater" no mesmo), que se tornam autênticos objectos de coleccionador apenas conhecidos por quem nutre um interesse que persegue com minúcia. Mas não é por acaso que chamo a atenção para aquilo que é "culto" fabricado e "culto" como raridade strictu sensu.

Para finalizar, o fado tradicional ou histórico, hoje, não perdeu as suas qualidades. Perdeu o interesse do público. É na recepção que está o "problema" e não na mera existência de um fado lavado e desvirtuado. Como o 'bosco' (o autor do tópico a que fiz referência) fez notar, e muito bem, as pessoas sabem ver a diferença e tudo assenta na escolha do que engolem. Talvez, quando a moda do fado a que actualmente assistimos, virar o disco, mas não tocar o mesmo, possa começar a surgir interesse noutro espectro de fadistas, os históricos e essenciais.

Como ilustração nada melhor do que ouvir este fado que veio tão a propósito.

Hermínia Silva - Fado Pirim-Pirim (Aníbal Nazaré / Frederico Valério)

Se me dão a solidão

Celeste Rodrigues, com a sua voz bem temperada, fina, mas portentosa no que a falar sentimentos diz respeito. Amargura, solidão, caros a este fado em especial... bem especial, com uma mística e um enlevo que consomem.

Celeste Rodrigues - Se me dão a solidão (Fezas Vital / A. Marceneiro)



"Deixa perceber esse sofrimento?
Não. Tudo faço para que ninguém perceba o que se passa no meu íntimo."
http://www.celesterodrigues.pt/

domingo, 27 de setembro de 2009

Uma imagem de Berta Cardoso



Uma imagem icónica denuncia directamente uma representação estruturada pela majestade hierática. Será icónica para o que é domínio do simbólico, como hierática para símbolo de poder, de sagrado. Simbólica porque denuncia o contexto da personalidade nela inscrita e poderosa porque anuncia a sua influência por quem se deixa enlevar. Não só para quem deixa, como para quem não se liga; imagens assim não são catalisadoras de indiferença, muito pelo contrário. São cenários. Tanto para quem percebe do que ali se conta, naqueles traços, nas roupas, no penteado, esse retrato de época que choca pela presença, como para quem também conheceu a voz, a influência e a personalidade.
Imagens que são Fado, que são Símbolo, que são esse gozo espelhado no olhar, são imagens assim. Puras, estreitas, contidas, mas em estado de ebulição. Imagens de quem personifica e actua sobre a história: uma actriz fiel, uma mundana jocosa, uma fabricante de ilusões, uma dominadora do sensível e assoberbada pelo espírito (espirituosa!). Tantas foram, estas e outras, as qualificações latentes que vislumbrei neste irrecusável convite à interpretação.

Porque quando a fotografia deixa esse sentido do presente, atingindo um patamar do significante, aparente (ou Aparição), possui essa magia para deixar de ser retrato ou situação, para passar a
significar, a deslocar o estatuto. Se este fenómeno acontece com a larga maioria destes obturadores do quotidiano, esta foi a imagem que me trouxe outras viagens e outros sentidos. Para mim, uma imagem icónica do Fado, na figura de quem, sabemos nós, despertou paixões para durar uma vida inteira. Aparentemente retrato de silêncio, ensimesmado, quase autista, transformou-se nessa catarse do sentido e manutenção do sagrado que dura até aos dias de hoje, não para todos, infelizmente. Esta é culto e classe.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sabe-se lá quando a sorte é boa ou má

O fado Sabe-se Lá, cantado por Amália Rodrigues, foi uma das minhas primeiras paixões à primeira audição. Talvez por causa das súbitas alterações de tonalidade, do belíssimo início que expele, de imediato, a força da palavra... (nessa desventura!); a profundidade da sua voz capturou-me até à costumeira obsessão inicial de ouvir este fado vezes sem conta. Hoje ainda me arrepia.

Amália interpreta Sabe-se Lá no contexto de um concerto no Olympia de Paris (1957), cuja gravação correu mundo (e ainda corre!). Disponho desta versão em CD recuperada do vinil (da colecção particular Encanto do Vinil de D. Vasconcelos) e convosco partilho este Fado!



«... Este lamento, vindo da noite dos tempos, é o fado português, (...) canto popular que a grande Amália Rodrigues transforma numa liturgia, capaz de acompanhar tanto uma boda como um funeral...»
Rafael Valensi in L'Aurore Abril de 1956




Amália Rodrigues - Sabe-se Lá (Silva Tavares / Frederico Valério)
Acompanham à guitarra portuguesa e à viola, respectivamente, Domingos Camarinha e Santos Moreira.




Sabe-se Lá

Lá porque ando em baixo agora
Não me neguem vossa estima
E os alcatruzes da nora
Quando chora
Não andam sempre por cima
Rir da gente ninguém pode
Se o azar nos amofina
Pois se Deus não nos acode
Não há roda que mais rode
Do que a roda da má sina.

Sabe-se lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá
Amanhã o que virá
Breve desfaz - se
Uma vida honrada e boa
Ninguém sabe, quando nasce
Pr'ó que nasce uma pessoa.

O preciso é ser-se forte
Ser-se forte e não ter medo
Eis porque às vezes a sorte
Como a morte
Chega sempre tarde ou cedo
Ninguém foge ao seu destino
Nem para o que está guardado
Pois por um condão divino
Há quem nasça pequenino
Pr'a cumprir um grande fado.


Amália, por algum motivo que desconheço, não cantou o poema na íntegra.
Pode ouvi-lo neste vídeo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Preciosidade!!



Lado 1

1. Meu Amor Fugiu do Ninho
(Linhares Barbosa - Fado Corrido)

2. Cruz de Guerra
(Armando Neves - Miguel Ramos)

Lado 2

1. Noite de S. João
(Linhares Barbosa - José Marques)

2. Testamento
(João Redondo)

Editora Riso e Ritmo Discos, LDA.


Espero que este, da Berta Cardoso, seja o primeiro de muitos, mesmo sabendo que não é fácil!:)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Amália 2009





Ao consultar este panfleto terá acesso ao programa de eventos associados aos dez anos que marcaram o desaparecimento de Amália Rodrigues. Vão ocorrer espectáculos, exposições, projecção de filmes e debates que versarão sobre a importância e projecção do trabalho da Diva, bem como sobre a divulgação do Fado e da alma lusa por esse mundo fora.
Trata-se, também, de uma óptima oportunidade para ouvir Celeste Rodrigues ao vivo. É de aproveitar enquanto ainda podemos enlaçar-nos em vozes que emanam puro Fado. Será nos dias 9 e 10 de Outubro às 23h30 no Teatro São Luiz.
Alimento esperanças e uma crescente curiosidade em relação à exposição no Museu Berardo, que não deixarei de visitar.

"Mulher de uma intuição e inteligência sublimes, foi por natureza uma cantora à frente do seu tempo, alterando regras, tradições e costumes, elevando assim a música urbana a que chamamos fado a uma arte maior" Bruno de Almeida
Verdadeiro, no meu ponto de vista, se considerarmos que elevou, como fez, o fado a uma arte maior, mesmo o fado que nasceu antes de si. Foi o que Amália fez, estamos todos gratos, excepto por aqueles que teimam em pensar que Amália só elevou Amália a uma arte maior.

Notícia relacionada no Jornal I, 17 de Setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Fados com aditivos


Time Out Lisboa, 2-8 Set., 2009

Em Alfama estão a decorrer, nas últimas Sextas-Feiras de cada mês, sessões de fado vadio, curiosas frescatas modernas, que não se contentam apenas com fado, pois não. Temos mesmo de admitir que fado, nos tempos que correm, não é garantia de rambóia para ninguém, e que outros acontecimentos artísticos e sociais se impõem, não fôssemos nós actores nesta praça que engloba a diversidade do Milénio. É assim, fado vadio num dos bairros mais castiços de Lisboa, mas de braço dado com a contemporaneidade, não vá o Diabo tecê-las (vá lá, não lhe chamemos modernice, embora apeteça). Confesso que deve haver espectáculo, se ao Fado aprouver a devida Apelação. Comes e bebes garantidos, como diz a notícia, esses, pelo menos à antiga portuguesa acredito serem.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Maria da Conceição (1958): Fados




O álbum da criadora do fado "Mãe Preta" já chegou ao Soldado!
À semelhança do que foi indicado na notícia e comentários anteriores, reforço que foi de louvar a iniciativa desta reedição em formato digital dos 12 fados seleccionados do repertório da fadista Maria da Conceição.

Como tem sido hábito comentar sobre o "pacote", devo frisar que este lançamento da Estoril desilude um pouco pela ausência de livrinho, nem que seja com os poemas impressos, constituindo assim um dos pontos menos positivos desta edição. Compreende-se, porém, que seja inevitável construir edições simples, gastando o mínimo possível de recursos e vendendo a um preço que denuncia o escasso número de vendas. Vale pela música e pela divulgação.

O conjunto de temas é constituído por fados tradicionais, sobretudo fados-canção, alguns com belíssimos poemas da autoria do Príncipe dos Poetas. Fica o registo da excelência da guitarra portuguesa de Casimiro Ramos, da viola de Miguel Ramos e da melodiosa voz de Maria da Conceição. Fica na capa do CD a indicação de que, quem adquirir este álbum, irá encontrar a versão original de "Mãe Preta", não censurada, diga-se, versão essa que ganhou popularidade meteórica na voz de Amália Rodrigues, pelas palavras de David Mourão-Ferreira, a que se deu o título de "Barco Negro".

Alinhamento:

Menina Tagarela (Acácio Gomes/ Belo Marques)
Amor Filial (Acácio Gomes/ M. José Figueiredo)
Triste Viuvinha (R. Ferreira/ Artur Fonseca)
Janelas de Namorar (João Linhares Barbosa/ Alfredo Mendes)
Disse-me, Disse-me (Pedro Caetano/ Claudionar)
*Mentira (Dr. Guilherme Pereira/ A. Machado)
Mãe Preta (Piratini/ Caco Velho)
Canção de Sempre (Belo Marques)
Sempre Noivo (João Linhares Barbosa/ Jaime Santos)
Pequena que já Namoras (João Linhares Barbosa/ Jaime Santos)
Luz Dourada (João Linhares Barbosa)
Baião da Saudade (Fernando Jaques)



Mãe Preta

Para ouvir/ver o vídeo "Mãe Preta" criado pela Tia Macheta clique aqui.

Em fóruns de música onde cheguei a participar costumava discutir-se, sempre que saía um álbum, a necessidade generalizada em encontrar aquela música basilar que o marcava indelevelmente e de onde parece que tudo o resto se projectava. Pois, para este Soldado, aquela música que valeu a pena, que marcou as sucessivas audições, que justificou a aquisição, nem que viesse apenas embrulhada em película aderente, foi o fado "Mentira". É esse que aqui apresento:

Maria da Conceição - Mentira




Desenho da autoria de TiMariaBenta

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ARQUIVOS DO FADO - MARIA ALICE




Maria Alice, “As Primeiras Gravações 1929-1931”, constitui a segunda selecção de fados organizada no âmbito da colecção Arquivos do Fado, que se espera ser longa e próspera, como acredito que esteja a ser no espectro da fadistagem.
Maria Alice foi, em tempos, uma referência na projecção desse fado que registou nas gravações que agora nos são dadas a conhecer. Pela observação de diversas formas de arte ligadas à (por vezes terrível e injusta) condição de ser-se mulher, percebemos que estes fados servem (não só mas também) o propósito de desvelar as tensões desses percursos.
Fados absolutamente intensos, explorando retratos das mulheres que passaram pelas mais atormentadas torturas, por experiências amargurantes e humilhantes a nível psicológico, físico e emocional, deixando a grandeza do seu espírito surgir das cinzas por via dessa imolação. Na voz de Maria Alice tudo isso é Fado. Voz doce, melosa, que arrasta amargura pelas guitarras solenes. Voz que canta o desamor, a paixão não correspondida, a injustiça social, o sacrifício e a morte, um retrato dessa nossa Canção Nacional, essa “Voz de Portugal”, cantada com a dimensão merecida.
O texto introdutório, da autoria de Maria de São José Côrte-Real, define a importância deste trabalho de investigação e recuperação, assim como de conservação daquilo que afinal faz parte do nosso Património. Passo a citar: “A disponibilização do som como fonte primária documental assim beneficia não só o conhecimento em geral, como produz material didáctico de interesse educativo, fundamental para o desenvolvimento da investigação científica em domínios tais como a música tradicional, a literatura oral, a tecnologia de registo e restauro fonográficos, entre outros”. Expressando a minha total concordância, volto a frisar que esta colecção deverá ser entendida também como documento, para além dos firmados créditos como objecto de fruição.
Da selecção de vinte fados, só o último, “A Azenha”, foi gravado em 1931, tendo sido gravados, os restantes, no ano de 1929. Embora, na maior parte dos fados, seja desconhecido quem acompanha à guitarra e à viola, excepto em “Esse Olhar dá-me Tristeza”, Maria de São José Côrte-Real declara existirem indicações de que Carlos da Maia (guitarra) e Abel Negrão (viola) serão os executantes dos dezanove primeiros fados. Foge a esta regra o fado “Tango da Morte”, apresentado na revista “O Ricocó” e acompanhado pela Orquestra de Tango, com letra de Armando Freire, expressando intenso dramatismo.
A apresentação de cada fado segue a mesma estrutura que já havia apresentado no texto Arquivos do Fado – Amália Secreta, ou seja, título, local, data, música, letra, editora, matriz, acompanhamento.

Maria Alice (1904-1997), nome artístico de Glória Mendes Leal de Carvalho nasceu na Figueira da Foz a 1-09-1904 e cantou, pela primeira vez, no retiro Ferro de Engomar, a convite da fadista Maria do Carmo, corria o ano de 1928. Revelou aos demais as qualidades doces e suaves da sua voz.
Com o apoio dos seus contemporâneos, onde se contavam a cantadeira Maria Emília Ferreira e aquele com quem viria a casar-se, o editor Valentim de Carvalho, Maria Alice gravou diversos discos e cantou nos mais variados contextos, nomeadamente no teatro de revista e em esperas de toiros. Seguiu-se, em 1934, uma oportunidade de viajar para o Brasil, onde permaneceu cinco meses e manifestou a consagração do seu talento além fronteiras.

O fado aqui apresentado, “Vida Triste”, é, na opinião deste Soldado, de uma beleza única e significante. Em jeito de homenagem à fadista e a esta colecção:





VIDA TRISTE
(Júlio de Sousa / J.F. Brito)

Vida triste de quem ama
E o coração não resiste
Ao grande amor que o inflama
Sinto o peito querer abrir-se
E o coração contrafeito
Como a tentar evadir-se

Sofrer, penar, levar ao calvário a cruz
Até que se apague a luz
Da derradeira ilusão
Se tudo acaba às mãos do tempo que corre
Porque será que não morre
Esta maldita paixão

Se é pecado olvidar
Eu pequei por ter amado
Alguém que não sabe amar
E um afago nem terei
Que possa servir de pago
A tanto amor que lhe dei


A nossa Fadista já havia homenageado Maria Alice com o belíssimo fado, “Fado Menor”, que podem ouvir aqui.

Fontes:
Sucena, E., Lisboa, o Fado e os Fadistas, Nova Vega e Autor, 2008
Biografia de Maria Alice
Notícia da colecção
Tradisom

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Reedição de 12 fados de Maria da Conceição em formato digital

Boas notícias, com excelente sentido de oportunidade.
Sempre ajudam a esclarecer.
O lançamento ficou a cargo da etiqueta Estoril que, juntamente com outros, dedica-se habilmente a fazer-nos recordar grandes vozes do passado. Veja-se o caso de Berta Cardoso.
Agora, também a maravilhosa voz de Maria da Conceição estará disponibilizada em formato digital, de grande utilidade para a divulgação mais "mainstream" do fado... porque toda a gente sabe que o vinil não é para todos, ora bem. "Mainstream´" é que a voz de Maria da Conceição não é... apenas o formato digital; no entanto, deseja-se fervorosamente que isto ajude a esclarecer algumas mentes, no que respeita à boa arte de designar autorias, recorrendo a factos, preferencialmente, e não à criatividade.
É ponto assente que não existem muitos ouvintes que tenham interesse nesta coisa das autorias. Se ouvem Amália Rodrigues, porque são os fados que estão mais à mão e, fazendo eles todo o sentido na sua voz, não têm tendência para procurar quais foram as primeiras vozes a difundi-los, nem que o tenham sido apenas ("apenas" e, também, "não só") em solo nacional. Nem vozes e nem autores!
No conjunto de 12 fados apresentados nesta reedição, segundo o jornal Sol, constam "Mãe Preta" e o conhecido "Casa Portuguesa", cantados pela voz que lhes deu corpo em primeiro lugar. Outras gravações de 1958 são recuperadas daquele que foi um repertório de "fado tradicional" e "fado com refrão".
O fado "Mãe Preta", da autoria de Caco Velho e Piratini, tornou-se conhecido por "Barco Negro", a mesma música mas com outro poema, da autoria de David Mourão-Ferreira, que se corporizou na profunda voz de Amália Rodrigues, atravessando o Mundo com ele, materializa-se agora na voz de Maria da Conceição (e sem censura...). O fado "Casa portuguesa", da autoria de Reinaldo Ferreira e Artur Fonseca, trouxe-o Maria da Conceição aquando do seu regresso de Angola e marca também presença neste conjunto de 12 fados.
Fados para recordar, cuja voz que os eleva (ou enleva) caiu no esquecimento geral, como o Fado, 'tá visto, que perdeu a abrangência que outrora teve, resumido como está, na memória colectiva, em menos de meia dúzia de nomes. É lá isto a Canção Nacional...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Espólio do fado comprado por 910 mil euros pelo Estado e Câmara de Lisboa



Jornal Público, 12.08.2009, 21h07


Pode ler-se a última notícia aqui, acerca da saga que rodeia a aquisição da colecção de cerca de 8000 discos do coleccionador Bruce Bastin. Aqui no Soldado do Fado, espera-se ardentemente divulgação, estudos, monografias, divulgação, publicação e mais estudos. Muito trabalho e muita vontade de criar Arquivos preciosos para o nosso património e para a História do país. O Museu do Fado, p.ex. ainda não apresentou uma colecção online e detalhada. Talvez este seja um bom pretexto para fazer bom trabalhinho no âmbito da conservação, certo? E para abrir horizontes...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Fado candidato à UNESCO em 2010

Jornal Sol, 2a-feira, 10 Agosto 2009




A candidatura do fado à convenção da UNESCO para a salvaguarda do Património Cultural Imaterial «deverá ser apresentada durante o primeiro semestre de 2010», disse hoje à Lusa a gestora do Museu do Fado, Sara Pereira.
«Desde 2005 que estamos a trabalhar na preparação da candidatura, aguardando agora a publicação pelo Governo da portaria que regulamenta a apresentação e formalização do processo. Saída esta portaria apresentaremos a candidatura à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura)», explicou.
Em declarações à Lusa, a gestora do Museu do Fado afirmou que a partir de Outubro inicia-se um plano editorial que inclui a reedição «de algumas das fontes fundamentais para a história do fado».
Entre essas fontes documentais, Sara Pereira referiu a edição facsimilada de O fado, canção de vencidos de Luís Moita (1937) «e a resposta de Vítor Machado».
Tanto a edição da obra de Luís Moita, como a «resposta» de A. Vítor Machado, Ídolos do fado (1937), terão estudos prévios do musicólogo Rui Vieira Nery.
O fado e os censores de Avelino de Sousa, com estudo prévio do antropólogo Paulo Lima, é outro título facsimilado que sairá em Dezembro, adiantou Sara Pereira.
No plano editorial está ainda prevista a publicação do Catálogo da Discografia de Fado entre 1902 e 1926, um estudo da equipa de investigadores do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, coordenada por Salwa el-Shwan Castelo-Branco, com um estudo prévio de Pedro Félix.
Uma selecção das várias entrevistas feitas a «figuras marcantes» da história do fado será editada em Dezembro de 2010.
Estas entrevistas foram iniciadas em 2005 pela equipa coordenada por Salwa Castelo-Branco, e a publicação contará com «notas de apresentação do Conselho Consultivo do Fado».
Este conselho, adstrito ao Museu do Fado, é composto por Julieta Estrela de Castro e Luís de Castro, da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF), Luís Penedo, da Academia do Fado e da Guitarra Portuguesa, pelo guitarrista António Chaínho, os fadistas Carlos do Carmo e Vicente da Câmara, a instrumentista e compositora Luísa Amaro, o estudioso Daniel Gouveia, e o construtor de guitarras Gilberto Grácio.
«O fado no ensaio e na ficção. Antologia das abordagens ao fado por escritores e pensadores relevantes da Cultura portuguesa (1850-1950)», com estudo prévio de Rui Vieira Nery, é outro título previsto.
A linha editorial agendada inclui ainda a edição de fontes musicais facsimiladas de partituras impressas e de transcrições de partituras manuscritas de fado, fontes poéticas, iconográficas e sonoras.
Entre as fontes poéticas incluem-se três antologias, uma delas, inteiramente dedicada aos poemas interpretados por Amália Rodrigues.
Na área da iconografia, conta-se a edição de uma antologia de capas ilustradas de fados, uma selecção e estudo prévio de Sara Pereira.
Quanto a fontes sonoras está prevista a reedição de CD de gravações históricas de 1940 a 1960 «sob a chancela da candidatura».
Além de Sara Pereira, Rui Vieira Nery, Paulo Lima, Salwa Castelo-Branco e os conselheiros do museu, nestas reedições estão também envolvidos a equipa de investigação do Museu do Fado, o músico e historiador Manuel Morais, o estudioso José Manuel Osório, e a Fundação Amália Rodrigues.
Sara Pereira adiantou à Lusa que foram identificados «os espólios relevantes do fado» e estão a ser preparadas bases de dados de temática fadista que serão disponibilizadas na Internet.

Lusa/SOL

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Cá esperamos pela entusiasmante onda de publicações sobre fado e que, pelo menos, sejam fruto de investigações aturadas e fiáveis. "Menos é mais", neste caso e em todo o caso...
Que ganhe o Fado e assim ganharemos todos nós.

sábado, 8 de agosto de 2009

Amália no Mundo - O Mundo de Amália

Com objectivo de divulgar a exposição que ocorre por ocasião dos dez anos da morte de Amália Rodrigues, aqui coloco uma notícia, extraída da revista Time Out Lisboa, 5-11 Agosto 2009, Nº97.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Deus nos livre

"Deus nos livre do amor e da morte"... Foi um diz-que-disse. O meu ex-professor de Filosofia disse que a Natália Correia o disse (ou escreveu), salvo erro.
Não confiando na minha memória para a situação anterior, recordo-me muito bem destes versos, "Mas não há nada mais triste/Que andar-se uma vida à espera /Do dia que nunca chega". Há lá coisa mais triste?! Penso que estes versos escondem muita e profunda filosofia. Assim como esse dizer quase comum, "Deus nos livre do Amor e da Morte", esperar por um dia que nunca chega pode ser apanágio do Amor, porém a Morte sempre chega, já sabemos. Contudo, só alguns percebem que esperar um dia que nunca chega, no Amor, faz desejar esse dia para a Morte. Daí encontrarem-se tão ligados por esse fio de prata que une ambos como reverberações do mesmo. O amor perde-se para a morte e a morte pode acontecer por amor. Que fadinho! Deus me livre!
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Aqui deixo um fado a ilustrar essa tristeza da saudade, que traz o amor, talvez a morte, senão a amargura. "Ando morrendo na vida (...) depois da tua partida". Há sempre espaço para ouvirmos esse "Fadinho a soluçar/[que] Faz de nós afugentar/A ideia da própria morte". "Fim de citação!"

Canta Lucília do Carmo:



VERDADES QUE A NOITE ENCOBRE
(Matos Maia/ Armandinho)

Madrugada sem luar
Onde o meu pobre cantar
É uma estrela escondida
Noites perdidas de fado
Onde canto o meu passado
Onde me sinto perdida

Ando assim em penitência
Recordando a tua ausência
Sofrendo a cada momento
Ando morrendo na vida
Pois a tua imagem querida
É o meu maior tormento

Verdades que a noite encobre
Neste soluço tão pobre
Que finge toda uma vida
Riso, pranto, agonia
Pois é assim o meu dia
Depois da tua partida


Referências:
Despedida (Carlos Conde/Alfredo Duarte)
Maldito Fado (Pedro Bandeira / Raul Ferrão)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Da Paixão

A paixão é cá um Fado! Objecto dos mais variados arrebatamentos, é responsável por sintomas, físicos e psicológicos, como se de uma doença se tratasse, muitas e muitas vezes, transformando-se mesmo numa! É puro impulso perceptivo, que gera puro impulso cerebral, que gera puro impulso físico. É pura e instintiva, tão humana que pode conduzir ao seu perigoso oposto.
A paixão serve de palco aos mais contraditórios sentimentos. Felicidade e libertação com amargura e prisão. Pois é! A paixão não é só alegria e não termina apenas no amor e uma cabana. Paixão é destino, é fatum, é sofrer a bem sofrer! Mesmo quando é correspondida, é um aperto na garganta. Nada aconselhável mesmo. Acrescento, para quem estará a pensar "mas a paixão que sinto é linda e só tem coisas boas", que não é, vai perceber mais cedo ou mais tarde (se não for uma paixoneta, ou uma pancadinha) que tem de penar na mais profunda das solidões. Sim, porque a paixão não acontece só quando o apaixonado está ao lado, também acontece ao longe. É insuportável, traz saudade que arranha devagarinho e arranca pedacinhos de pele. Traz-nos o desespero e a inquietação. É absolutamente finalista! É um proto-apocalipse prestes a rebentar, quase no limite, quase sem haver ar para respirar mas havendo, aqui um bocadinho, ali outro. Cá vamos havendo, é assim na paixão. Egoísmo e solidão, sofrimento, luz e esperança. É assim esse Fado!
E quando a paixão não é correspondida?
É que, notemos, se quando é correspondida paira sempre o receio que não seja, imaginemos quando efectivamente não o é, quando essa obsessão conduz ao inquebrantável abandono? Algumas condições existenciais vêm-me à cabeça: desespero, angústia, solidão, humilhação, raiva, frustração, entre muitos outros, que ascendem nessa escadaria iniciática para o abismo. Há quem vá de escadote e depois, quando cai, olhe-se e pense-se "mete o escadote no c...!". Tal não é a paixão, a mais pura das ilusões.


Aqui vos deixo um fado que acho lindo, muito conhecido do repertório de Deolinda Maria, desta vez interpretado por Fernanda Maria. Há muita paixão que tem muito amor contido mas há muitos amores que vivem com muito pouca paixão. Complicado!


Fernanda Maria - GOSTO DE TI (Maria Lavínia, Alberto Simões Costa)




Irresistível este Desejo Louco, assim o é também na paixão, como brasão da entropia que conduz aos mais variados esgotamentos.
Ada de Castro canta com um acompanhamento de guitarras que é um estrondo, bem corrido e ritmado, que é para acabar em alegria.


Ada de Castro - DESEJO LOUCO
(J. M. Nóbrega, L. Fidalgo)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

MARIA TERESA DE NORONHA

Aqui apresenta-se a voz de Maria Teresa do Carmo de Noronha Guimarães Serôdio (1918-1993), cantando três fados, escolhidos a meu gosto, de entre um repertório riquíssimo, onde se destaca o fado Rosa Enjeitada, Fado das Horas, Alexandrino, Fado Anadia, entre outros. A voz de Maria Teresa de Noronha pode considerar-se inevitavelmente cativante, despertando paixões e reunindo consenso por parte de uma crítica que reconheceu o seu talento.
Voz soprano, cuja característica maior será o excelente alcance que atinge quando canta as notas agudas, perdendo a força quando a voz escoa pelas tonalidades mais graves, edificando uma escala dotada de intrínseco dramatismo. Esse dramatismo soube ela construir pela escolha do seu repertório (musical e lírico, constituído maioritariamente por poemas sobre amor/tristeza/saudade); pela modelação da sua voz, na utilização exímia dos pianinhos, que definem uma das suas principais qualidades enquanto fadista, assim como das ornamentações musicais, enquadradas e condizentes com a sua particular arte de expressar o fado.
Maria Teresa de Noronha não foi mulher do povo ou cantadeira das vielas de Alfama. Tal entende-se pela nobreza da sua voz, que parece contar a sua própria história. Mulher de linhagem aristocrática, foi filha de D. António Maria de Sales do Carmo de Noronha e de D. Maria Carlota Appleton de Noronha Cordeiro Feio. Casou com o 3º conde de Sabrosa, de sua graça José António Barbosa de Guimarães Serôdio, também ele rendido ao fado como guitarrista amador de profunda sensibilidade artística, e privou com os demais fadistas nos conceituados retiros de Lisboa.


Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha e José António Barbosa de Guimarães Serôdio n'O Faia.


Pessoa de fino trato, Maria Teresa de Noronha foi, segundo testemunham, uma mulher de grande coração, porém não muito calorosa. Visualize-se o oposto de Hermínia Silva, no que a ser calorosa diz respeito! Tem piada como o fado congrega os mais variados tipos sociais.
Maria Teresa de Noronha foi, e continua a ser, uma referência fortíssima (senão paradigmática) do chamado Fado Aristocrático, mesmo quando aristocrática era apenas ela, bem como os outros fadistas de nobre linhagem que abraçaram a Canção Nacional. O fado que cantou foi, pois, do povo e bem castiço, tanto que não era necessário, ou lógico, banhar-se em sangue azul, em termos estilísticos e musicais, para acontecer a uma bela voz que tão bem o soube cantar!


- Desengano, a cantar o amor e desamor, cheia de graciosidade.



DESENGANO
(Mário Pissarra /José Marques)

E adorei-te, acreditei
No bem que eu ambicionei
Dum amor sinceridade
As tuas promessas puras
E o calor das duas juras
Tinham a luz da verdade

Mas um dia te esqueceste
De tudo o que me disseste
Em confissões tão ardentes
Iludiste duas vidas
Com mil palavras fingidas
Que não sentiste nem sentes

Ao contemplar o passado
Como um golpe já fechado
Que ainda sinto doer
Vejo em teus falsos carinhos
Que as rosas têm espinhos
E também fazem sofrer.


- Na sua peculiar interpretação do Fado Hilário, destacam-se as potencialidades operáticas da sua voz.



FADO HILÁRIO
(Augusto Hilário)

Para cantar procurei
As minhas mágoas sem fim
Eram tantas que acabei
Por chorar com dó de mim

Passarinho, mesmo preso
És mais livre do que eu
Tu vives num cativeiro
E eu na dor que Deus me deu

Já não posso mais sofrer
Com tão amarga saudade
Dai-me a esmola de o esquecer
Minha mãe, por caridade


- De temática saudosista, o seguinte fado demonstra a expressividade e sensibilidade no domínio da expressão e da palavra.



FADO DA IDANHA
(Ricardo Borges de Sousa)

Quem me dera que voltasse
O doce tempo de além
Sentada junto à lareira
A ouvir cantar minha mãe

Ó tempo, tempo ditoso
Da vida eterno sorriso
Que terras em paraíso
Um mundo tão enganoso
Quanto à minha mãe, choroso
Lhe pôs um beijo na face
Lhe pedia que cantasse
Uma trova de bonança
E esse tempo de criança
Quem me dera que voltasse

Tempos que não voltam mais
Da nossa infância ridente
Em que eu vivia contente
Correndo atrás dos pardais
Das paredes dos casais
Que a nossa aldeia contém
Branquinhas como a cecem
Mudas como a gratidão
E recordam com paixão
O doce tempo de além


Fontes:
Sucena, E., Lisboa, o Fado e os Fadistas, Nova Vega e Autor, 2008
N'O Faia
Wiki PT
Wiki EN
Lisboa no Guiness
Fadistas Como Eu Sou

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fados cantados por Hermínia Silva no filme Aldeia da Roupa Branca (1938)

«Em 1938, Chianca de Garcia decide realizar um filme genuinamente português, sonho que acalentava desde 1933. Aliás foi por pouco que o filme "Aldeia da Roupa Branca" não foi o primeiro filme da Tobis Portuguesa. Na altura, os responsáveis da Tobis optaram pelo filme de Cottinelli Telmo "A Canção de Lisboa". Agora em 1938, Chianca de Garcia recebe luz verde para o seu filme, e assim nasce "Aldeia da Roupa Branca". O filme é ambientado numa aldeia próxima de Lisboa, onde as mulheres locais lavavam a roupa dos habitantes da capital. O filme centra a sua história na rivalidade de duas dessas empresas, a do Tio Jacinto, papel magistralmente interpretado pelo actor Manuel dos Santos Carvalho, e a da viúva Quitéria, outro papel memorável que marca a estreia no cinema de uma grande actriz de teatro, Elvira Velez. No papel principal surge mais uma vez Beatriz Costa, onde tem neste filme outro desempenho memorável no papel de Gracinda. Curioso será que após a estreia deste filme já no início de 1939 no cinema Tivoli, tanto Chianca de Garcia como Beatriz Costa partem rumo ao Brasil, para tentar aí uma carreia artística.»
Os Anos de Ouro do Cinema Português
Duração aproximada: 82 mn. P/B Ano de produção: 1938




O papel de Maria da Luz (Hermínia Silva) vive muito através do universo dos outros personagens. Era por ela que o Chico andava desvairado (vulgo apaixonado) e o único motivo pelo qual ainda não havia deixado Lisboa (aparte dos carros, outra das suas paixões). Gracinda via em Maria da Luz uma ameaça e uma das causas para as inquietações do seu coração, devido aos sentimentos que desenvolvia por Chico. Ficaria ele com ela ou com a fadista? Trocaria ele uma vida simples, e um amor puro, por uma estabilidade duvidosa, rodeada pelos ambientes luxuriosos das cidades e retiros? Aquele fado, personalizado pela Maria da Luz, era um Fado da tentação. O Fado de Gracinda era outro, quase oposto, da luta, pobreza, candura, trabalho, vida simples e vivida em comunidade.






FADO DO RETIRO
(José Galhardo/Raul Ferrão)

É tão fresca a melancia
Como a boca da mulher;
Nas tardes de romaria
Rapazes é que é beber,
Chega a gente ao fim do dia
Sem dar p’lo amanhecer

É para esquecer
É para esquecer
Que assim beber
Tu me vês a vida inteira
Com este copo na mão
Que tem de sofrer
Mais vale beber até poder ter
O sangue de uma videira
Cá dentro do coração.

Ó tristeza vai-te embora
Que a vida passa a correr
Se não te alegras agora
Quando é que o hás-de fazer?
Bota o vinho a toda a hora
Canta, canta até poder

Se calhar haver zaragata
Com um freguês que tem mau vinho
Pr’a não estragar a frescata
É dizer-lhe com jeitinho
- Bebe lá mais meia lata,
Vá lá mais um pastelinho!






FADO DA FADISTA

(D.R.)

Nasci num dia de chuva,
Eu chorava, o céu chorava.
Minha mãe cantava o fado
A ver se me consolava.
Depois palrei,
Depois falei,
Depois cantei,
Como quem sente um segredo
Represado na garganta
Vivi, sofri
E no que vi,
Compreendi
Que a fadista de nascença
Só é mulher quando canta.

Num dia de sol ardente
Passou pela minha rua,
Olhámos um para o outro,
E eu senti que ia ser sua.
Ainda hesitei,
Mas o que eu sei
É que cantei
Como quem canta, sentindo
Que a própria alma é que canta
E a fulgurar
A suplicar
O seu olhar,
Tinha a mesma labareda
Que me queimava a garganta.

Numa noite fria e escura
Não voltou à nossa casa.
Pus os olhos no meu filho
Sentindo os olhos em brasa.
E só então,
Meu coração,
Nessa traição
Entendeu a dor profunda
Que há na alma de quem canta.
Se me deixou,
Me abandonou,
Fez-me o que sou...
- Agonia da saudade
Que enrouquece uma garganta.


O âmbito do poema do "Fado do Retiro", assim como a cena em que ele decorre, fez-me concluir que se trata efectivamente da sua designação no filme. Todavia, também pode ser associado aos nomes "Fado da Melancia" ou "É tão Fresca a Melancia". Os resultados das minhas pesquisas sobre o nome deste fado foram um tanto ambíguos e por isso deixo ao critério de quem possui mais/melhores fontes sobre o assunto. O mesmo acontece com o Fado do Fadista, no que concerne à autoria.

Fontes:
Cartaz da Partitura Musical
Marceneiro, V.D., Recordar Hermínia Silva, Edição de Autor, 2004
Agradecimentos
Ofélia Pereira
Vítor Marceneiro
Paulo Borges Almeida
Pela paciência demonstrada, obrigada.

sábado, 11 de julho de 2009

Fracasso...

Música Fado Menor com Versículo da autoria de Alfredo Marceneiro; Poesia de Linhares Barbosa, interpretada pela áurea voz de Berta Cardoso.



FADO FRACASSO
(Linhares Barbosa/Alfredo Marceneiro)

Quando há bocado me viste reparaste,
Que eu trazia um ar cansado, um ar doente,
Eu ando cansada e triste e arrependida
De ter andado a teu lado ultimamente.

Jurei aos pés do altar, piedosamente,
E jurei a uma Virgem de olhos doces,
Em sempre te acompanhar como uma sombra
Fosses tu ao fim do mundo, aonde fosses.

Mas um dia, um dia veio, um dia não,
Reparei que o teu amor era aparente
E fiquei abandonada, desprezada,
porque tu sem reparar seguiste em frente.

Eu cansei de ser sombra, de ser crente
E por isso tu me viste com cansaço,
Arrastando tristemente e arrependida
A falência do meu sonho, o meu fracasso.

Polémicas...
Este fado fez-me lembrar a polémica que li sobre o Versículo de Alfredo Marceneiro ter sido apropriado como criação original por Carlos do Carmo. Não me choca o silêncio que se gerou sobre esta matéria pois, nos dias que correm, questões de autoria são complicadas e chegam a ser muito ténues. Também o são as questões da originalidade, tendo em conta que ser-se original é raro, todos nós apropriamos e recriamos, uns mais do que outros, e umas vezes mais do que outras.
Dizer que o "Fado da Saudade" não tem relação directa com o Versículo do Marceneiro é um disparate, embora as respostas nesse sentido tenham sido ambíguas. No entanto acredito que Carlos do Carmo tenha levado a sua ideia avante porque criaram-se linhas de guitarra novas numa mesma matriz (fado menor) e um poema novo como base. As notas musicais para as linhas de voz mantêm-se as mesmas e a componente do versículo ficou, infelizmente, diluída no conjunto. Tratou-se de uma semi-criação.
O mundo do fado, como algo tão elástico que é, onde até é costume utilizar temas musicais para servir de suporte a diferentes poemas, não entendo qual seria o problema em usar um pouco de bom senso e ter reconhecido de início o tão proclamado autor. No fundo andamos todos aqui por amor ao mesmo, digo eu... aqui no Soldado é garantido.
No final, o que permanece é o mais importante. O Fado.


Fontes:
Lisboa no Guiness
Polémicas
fadocravo