terça-feira, 23 de março de 2010

Desgarrada

Recordem:


Joaquim Campos


Ercília Costa


António Menano


Joaquim Campos, Ercília Costa, António Menano cantam A Desgarrada (Popular - Fernando Teles)
Guitarra - Armandinho
Viola - Georgino de Sousa

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Há no coração do homem
Tanta vontade de amar
Que as penas não o consomem
Por mais que o façam penar

É engano, há na mulher
Um amor mais puro e forte
Pois quando o coração quer
Vai o amor além da morte

Duma leve simpatia
Muitas vezes sem se querer
Vai crescendo tanto e tanto
Que d'amor nos faz morrer

Quando o homem ama e quer
Com toda a força da alma
Não há nenhuma mulher
Que em amor lhe leve a palma

Quando os nossos peitos tomem
Uma paixão verdadeira
Tanto a mulher como o homem
Amam da mesma maneira

Há sempre coisas mesquinhas
No perceber de quem ama
O ninho das andorinhas
É construído de lama


É uma desgarrada de ouro de uma época não menos áurea. Puro fado, isso sim! Intemporal, na música, nos intérpretes e nas palavras. Até porque, quando por amor se sofre, a lama é sempre a mesma.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Rosa Caída

Ada de Castro canta Rosa Caída (Joaquim da Silva Borges / Joaquim Campos)

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Por trás do espelho quem está...? Uma mulher que sofreu.

Já não és a minha vida
De ti não tenho ciúme
Olha que a rosa caída
Mesmo depois de colhida
Continua a ter perfume

Julgando que me torturas
Passas com outra ao teu lado
Eu não caminha às escuras
Tenha a luz das amarguras
A iluminar meu passado

Não queiras compreender
Aquilo que já sofri
Só tenho pena de ser
Aquela a quem o sofrer
A fez mais gostar de ti

Já fui a rosa esquecida
Que esperava a Primavera
Agora tenho outra vida
Já não sou rosa caída
Voltei a ser o que era

sábado, 13 de março de 2010

Parabéns Ada!

Pelos 50 anos da sua carreira, que alguns resolveram lembrar-se.
O jornal Hardmusica publicou uma notícia, a qual volto a publicar neste blogue, para dela ter sempre registo.
Passando ao lado da comum retrospectiva da sua carreira, prefiro aqui deixar uma sincera homenagem com um fado.
O registo da voz de Ada de Castro sempre me agradou tendo sempre feito parte dos meus favoritos. Soube, através de uma fonte inesperada, que Ada de Castro, antes de se profissionalizar, cantava muitos fados da Hermínia Silva. Diziam até que as suas vozes eram parecidas. Na minha opinião, não diria tanto pela voz, mas pela forma de cantar, pelo repertório escolhido, pelo sentimento dedicado, pela garra e a raça fadista, castiça e bairrista. Sim, não me admira que isso seja idêntico e transmissível. Gostava de ver mais gente nessa sincronia. Também me disseram que era uma apaixonada pela voz de Maria Teresa de Noronha. Uma mulher de bom gosto, portanto.
Fadinhos como “Não me Atires Poeira aos Olhos” caem-me no colo em alturas que até parece que adivinham... É que é engraçado quando sentimos que alguém insiste em atirar-nos poeira aos olhos mas, por alguma intempérie momentânea, um ventinho sopra, e lá vai a areia direccionada para outro lado qualquer (ou para os olhos de outra pessoa, o que até tinha alguma piada). Para os meus olhos vão apenas as verdades que a noite encobre (onde é que já ouvi isto?:]), as realidades que se pressentem, as expressões que se vislumbram, os sentimentos cuja condição é realmente precária, como é toda uma vida no tempo presente, ainda mais do que antes.
Enfim, não deixa de ter a sua graça ver a ingenuidade com que me atiram poeira aos olhos. E eu a vê-la passar também não sou diferente...
Vai um fado e um tinto, para esquecer o dissabor.
Desejo bom resto de Sábado a todos, em especial à Dª Ada de Castro, que não merece estar envolvida nas confissões de uma fadistona chorosa.


Ada de Castro canta Não me Atires Poeira aos Olhos (António José, Nóbrega e Sousa)

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Ada de Castro fala de si e do Fado
Hardmúsica, 13 MAR, 2010 por Zita Ferreira Braga

Ada de Castro mora em Lisboa, mais exactamente em Campo de Ourique mas não é aqui que tem as suas raizes. Nasceu no Castelo, perto de Alfama, berço de muito Fado e de muitos que o cantam.

"Sou uma mulher simples que ama o Fado e que tudo tem feito para o cantar bem. Sou das fadistas castiças que cantam com voz velada e um cheirinho de rua".
E Ada continua a descrição do que tem sido a sua vida de fadista:"Cantei a primeira vez como profissional no Faia, que era do pai do Carlos do Carmo, um homem muito simpático. Gostaram muito de mim e fui continuando a cantar. Só canto fados meus. Também apadrinhei muitas marchas sempre diferentes e foi sempre uma coisa de que gostei muito".

E Ada continua a falar embalada pelas recordações mas sem qualquer laivo de melancolia: " sabe para mim há uma figura máxima no Fado, a Maria Severa, e a partir daí vem Amália e depois vêm mais umas outras. Por exemplo fala-se pouco de Hermínia Silva uma pessoa que fez parte da minha vida porque a minha avó foi sua contemporânea e falava-se muito dela. Mas este país esquece os grandes artistas. Veja a Laura Alves. Ninguém fala dela e foi uma das melhores actrizes portuguesas".

Aqui o Hardmusica decidiu perguntar-lhe se se considera uma Diva uma vez que está incluida no rol das divas agora editado pela Fonoteca: " de modo nenhum. E penso que não há divas no Fado. Diva para mim é talvez a Maria Callas na ópera, a Piaff na canção. Diva é uma nome que não se aplica ao Fado e a haver seria a Severa."
Perguntámos a Ada de Castro como via ela o papel do Museu do Fado no panorama artístico actual mas a fadista não quiz adiantar muito sobre esta questão embora seja um local onde vai sempre que é solicitada.

"Ada de Castro, acha que lhe vão fazer uma festa como têm feito a outras colegas?"
Resposta imediata " Não". Com mais calma elucidou: "Mas se me quiserem fazer eu vou com toda a certeza. Mas ser eu a pagar para ter uma festa isso não!"
Mas esta fadista tem um talento em que a voz não entra: gosta de pintar. Autodidacta, recusa-se a ter lições porque "gosto de pintar o que quero, como quero e quando quero e se tivesse lições perdia a espontaneidade que ponho nas minhas pinturas"

Ada de Castro faz neste sábado, 13 de Março, 50 anos de actividade artística como fadista.
Cantou em várias casa de fado e actuou em inúmeras casas de espectáculo do país.
Visitou profissionalmente vários países, tendo actuado quer ao vivo quer nas televisões dos mesmos: Espanha, Dinamarca, Suécia, Bélgica, Holanda, Japão, China, França, Itália, Brasil, Argentina, Uruguai, EUA, Canadá e toda a antiga África Portuguesa, foram locais onde deixou a sua voz e o seu Fado.

No Mónaco actuou nos jardins do palácio Grimaldi para toda a família do príncipe Reinier incluindo a princesa Grace.
No Brasil actuou em todos os Estados da Federação a convite do Governo Brasileiro, isto em 1968.

Gravou para várias editoras, não só em Portugal mas também no Brasil e Holanda, detendo entre fados e marchas um total de 550 números gravados.

São inúmeros os prémios recebidos como em 1962, o óscar pela melhor fadista, prémio RTP, outro óscar em 1968 como melhor fadista do ano, em 1964 um elefante de ouro,em 1982 mais um óscar como melhor fadista do ano e por aí adiante.

Um pormenor que Ada conta com muita graça: "Veja só. Sou do Benfica e tenho uma placa de agradecimento do Sporting". E lá estava ela!



Links:
http://www.hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=4620

Biografia:
http://jsilva.bloguedemusica.com/r296/Ada-de-Castro/
http://www.portaldofado.net/content/view/1363/67/

Fados:
http://fadocravo.blogspot.com/2008/11/ada-de-castro-cigano-ou-troca-por-troca.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/76350.html

sábado, 6 de março de 2010

ARGENTINA SANTOS Não sei se canto se rezo




I do not know whether I’m singing or praying, é aquele mote entendido em qualquer língua, onde se isola uma ligeira nuance entre o cantar, rezar ou, até mesmo, pregar. Argentina Santos, do alto da sua dignidade de mulher e fadista, assim expressa, na doçura dos seus pianinhos, na riqueza melódica da sua voz, na verdade do seu cantar, a solidez do seu papel, onde se encontra, desde há algumas décadas, amplamente reconhecida. Sem qualquer pretensão a vedetismos, na sua entrega intimista, muitos testemunharam, naquela que é a sua Casa, a "Parreirinha de Alfama", a envolvência do seu cantar e a sedução dos seus dotes gastronómicos.

O Museu do Fado, pela segunda vez, homenageia a fadista, com uma exposição que exibe o seu espólio artístico, cuja reprodução podemos trazer connosco, por via do catálogo belissimamente ilustrado, com uma concepção gráfica notável. De destacar a possibilidade de podermos apreciar os projectos de António Viana para a concretização da exposição, que são, a meu ver, autênticas obras de arte, por si só. É ainda apresentada a discografia da fadista, incluindo as gravações de espectáculos, que ocorreram na casa de fados "Parreirinha de Alfama", congregando muitas figuras do nosso fado, que ali encantaram os seus admiradores e cultores.

O fadista Carlos do Carmo foi impulsionador da carreira além-fronteiras de Argentina Santos, juntamente com a imprensa especializada, que sempre a acompanhou e legitimou no seu papel incontornável, mesmo fora de um círculo mais ou menos fechado de apreciadores. De Argentina Santos, hoje com 86 anos, reconhecemos, para além do seu imenso dote nas vocalizações da alma, aquilo que as palavras podem definir como a uma inabalável Verdade.

A mim ninguém me diz nada. Nem a maneira de cantar. Eu nunca canto igual, nem repertório nem nada. Eu estou muito acostumada a mandar em mim, gosto muito de mandar em mim, de maneira que aquilo que gosto é aquilo que canto, é aquilo que sinto.
Argentina Santos

E disse alguém que o fado era canção de vencidos...


Argentina Santos canta Reza (Clemente Pereira/Miguel Ramos)
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Visite a exposição no Museu do Fado de 28 de Fevereiro a 30 de Abril de 2010.

Links:
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/200798.html
http://fadocravo.blogspot.com/search/label/Argentina%20Santos
http://www.museudofado.egeac.pt/
http://jsilva.bloguedemusica.com/r299/Argentina-Santos/

segunda-feira, 1 de março de 2010

CONTRASTES

Após um breve interregno, tão duradouro quanto a publicidade da TVI, cá me apresento novamente, provinda da caserna onde descansei e ouvi a Berta Cardoso a cantar só para mim; lembrei-me que dantes até escrevia sobre fado... Recordei-me que o fado tem destas coisas engraçadas de pertencer a todos os tempos e não pertencer a nenhum.

Há aqueles fados que são intemporais e aqueles que se vê que pertencem bem a estes tempos, seja pela produção sonora, pelas soluções instrumentais, pela actualidade das letras, ou pela irreverência na interpretação. Penso ser interessante contrastarmos (e constatarmos) essa substancial diferença entre o “original” e a “versão”, o novo e o velho, o actual (de agora) e o intemporal (de outrora e por aí fora...); o recente que amplifica o passado e o passado que justifica a novidade, legitimando-se assim...

São duas interpretações de que gosto, que me agradam pelas suas diferenças e por aquilo que carregam em comum. Quero agradecer à minha vizinha da frente [N. do A., da frente, sendo assim mais fácil gritar “bom dia” e ela ouvir-me e ver-me, assim como pedir-lhe aqueles distintos raminhos de violeta que ela semeia à janela da cozinha] por ter-me enviado esta versão da Hermínia Silva ao vivo a cantar o fado que conheço como “A Rua Mais Lisboeta”. Da Aldina Duarte, a gravação que possuo é a que consta no CD “Mulheres ao Espelho”. Ainda da nossa Hermínia Silva podem encontrar uma gravação de muito boa qualidade no CD “O melhor de Hermínia Silva” editado pela iPLAY, 2008.


Hermínia Silva canta A Rua Mais Lisboeta (José Lourenço Rodrigues / Vasco de Macedo)

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Aldina Duarte canta A Rua Mais Lisboeta (José Lourenço Rodrigues / Vasco de Macedo)

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Cá p'ra mim a minha rua
É um risonho canteiro
Tem gatos miando à lua
Nos telhados em Janeiro

Tudo ali é português
Ai, tudo lá vive contente
Vive o pobre e o burguês
É pequenina talvez
Mas cabe lá toda a gente

Melhor nunca vi
Que a rua onde eu nasci
A rua é pobrezinha
Mas tem uma graça infinda
É humilde qual aldeia
Embora digam que é feia
Cá p'ra mim é mais linda

Não há ódios nem maldades
E tudo ali é singeleza
Não pode haver na cidade
Rua assim mais portuguesa

Ai, nada tem que seja novo
Essa rua da gentalha
E assim canto e me comovo
Pois é a rua do povo
Que labuta e que trabalha