domingo, 8 de agosto de 2010

Joaquim Silveirinha n'Os Fados da Alvorada



Nesta tarde de Domingo ("passado que passei", porque se calhar vai passar e este texto fica a marinar, como de costume), carregada pelas nuvens que não vertem, e que firmam uma melancolia pelo meu espírito e uma adorável enxaqueca que se instalou desde Sábado, decidi escrever mais um verbete, à laia de mezinha, porque mais uma paixão brotou. Desta vez foi por um senhor, Deus me valha, que já vou no segundo (ou será o quarto? - talvez 1/4 de tinto venha a calhar para resolver isto), Joaquim Silveirinha.
Tenho este dom das paixões impossíveis, no geral devido aos ditos cujos já terem falecido, porém, não é isso que desarma o meu coração para, platonicamente, encenar um casório ao ouvir esta voz, que me beija, na saúde e na doença, nas doenças de Domingo. É bom assim, à distância do tempo que nos separa, este namorico inteligente, porque não cansa e até enleva. Quase perfeito, não fosse a perfeição do amor noutros aspectos. O fado encena bem essa perfeição. Este senhor a cantar é um Amador apenas de nome. Tudo o resto faz vibrar desde a primeira nota.
Claro que a minha vizinha da frente já se antecipou há muito, tendo criado um vídeo com um fado de Joaquim Silveirinha, no seu blogue Fadocravo. Ei-lo, para os demais apreciarem novamente a raridade que é ouvir este fadista. Até fiquei a saber que ele cantou n'A Tipóia, e que esse retiro era de uma fadista que muito aprecio, Adelina Ramos (recentemente falecida, em 2008). Foi daquelas fadistas que tive de aprender a gostar, não agradou logo à primeira audição, mas tal foi-se modificando, ao ouvir o fado "Achei-te tanta diferença", interpretado no paradoxo entre o apuramento que surge da tonalidade popular e robusta da sua voz.
De Joaquim Silveirinha (1925-1975) sabe-se tão pouco como de outros fadistas, e no meio desta resignação, decorrente da falta de informação, retiro o que de mais sacro pode enriquecer as minhas audições. O que não se encontra documentado, imagino-o, e disponho essas figuras, outrora tão presentes, agora vultos quase esquecidos, que acompanho como tesouros sagrados, numa dimensão onde não perderam a sua aura.
Nem o Eduardo Sucena, no seu trabalho de referência "Lisboa, o Fado e os Fadistas", seleccionou uma sucinta apresentação biográfica de Silveirinha. No entanto, acredito que existam pessoas que saibam, que testemunhem e que tenham acesso a fontes que possam enriquecer o conhecimento que se tem (ou não) sobre este fadista. Ainda se comercializa uma edição em CD da colecção "Fados do Fado" a si dedicado na totalidade.
José Manuel Osório, na magnífica colecção composta por três volumes, Os Fados da Alvorada, dá a conhecer estes vultos, estas pérolas antigas perdidas no tempo, e agora recuperadas, ainda que apenas num fado (de cada um...), mas que apresentam uma base por onde se podem iniciar investigações e encetar novas paixões. Acompanhando estes volumes temos um livrinho com imagens, letras, informações biográficas e históricas que consolidam, de uma forma tão rara, o que muitos de nós (eu incluída) apenas ouvimos recorrendo ao escasso material sonoro.

Joaquim Amador Silveirinha vem assim registado a cantar "Sextilhas Soltas" no Fado Cravo de Marceneiro. Nascido na Madragoa, «estreou-se aos 18 anos, como amador, no Vendedores de Jornais Futebol Clube», mas cantou desde miúdo. Calhando, até seria costume na época uma pessoa saber um fadinho ou dois desde tenra idade. Na Madragoa, então, em plena década de 30, não devia trautear-se outra coisa :)
Obteve a sua carteira profissional no Concurso de Outono, organizado pelo jornal Canção do Sul, corria o ano de 1945. Foi a partir dessa altura que começou a cantar em diversos retiros como o Retiro dos Marialvas, Café Latino, Casablanca, sem nunca abandonar as suas ocupações profissionais, a principal como mecânico de construção naval. Joaquim Silveirinha uniu-se no fado a nomes como Natércia da Conceição (com a qual gravou um disco em conjunto), Fernando Farinha, Armandinho, Júlio Gomes, entre outros constituintes dessa irrecuperável nata fadista coeva.
Da entrevista para o jornal Guitarra de Portugal (15 ABR., 1947) podemos extrair que Silveirinha gostaria de cantar como os mestres João Maria dos Anjos, Marceneiro e Joaquim Campos. Joaquim Campos, claro está (um brinde de 1/4 de tinto para este senhor). Silveirinha era homem de fado castiço, ouvia cantar o moderno, mas aquele com o qual se identificava estava-lhe no sangue e naturalmente engastado na garganta. Confesso a minha ignorância nesta parte: em 1947 qual era o "fado moderno"? Diz que não tem letras de poetas consagrados no seu repertório: deve-o a Domingos Silva, José Almeida Rodrigues, Delfim Silva e António Augusto Ferreira. «Um artista não pode brilhar sem um bom repertório» mas já na altura os poetas recusavam-se a escrever por «falta de respeito pelos autores».
Admite gostar muito da imprensa de Fado, encontrando-se esta já sob a ameaça da precariedade, apresentando muitas dificuldades a nível financeiro. Não duvido que a dita sobrevivesse a correr por gosto. Hoje em dia, nem vê-la. De Canção Nacional já nem se fala; fala-se de Fado, mas pouco. Pode comparar-se esta realidade à das publicações dedicadas a determinados tipos de música mais em voga, que padecem de dificuldades similares.
Silveirinha alfacinha, amante de Fado, Touradas e Teatro de Revista, era do Benfica a 100% mas pendia-lhe a simpatia para o Sporting. Valha-nos isso:) Pensa que no Fado não há decadência, mas deveria haver «um pouco mais de brio». No fundo isto até nem mudou muito.

Em homenagem a este fadista, eis o fado que vos apresento da colecção Os Fados da Alvorada, Volume 2 (com escolha de repertório, textos e concepção de José Manuel Osório).



Joaquim Silveirinha canta Sextilhas Soltas (Delfim da Silva / Alfredo Rodrigo Duarte, o Marceneiro)
Ano de gravação 1959



A voz do fado é tão calma
Na sua terna expressão
De amor ciúme e desdita
Que põe delícias na alma
E deixa no coração
Uma tristeza infinita

Porta-voz de singeleza
O fado que eu canto e louvo
Sempre um amigo há-de ter
No coração da pobreza
Porque ninguém como o Povo
Sabe cantar e sofrer

O fado triste e amoroso
É saudade que se canta
É pranto que ganha voz
Por um condão misterioso
Sai a cantar da garganta
Mas chora dentro de nós

Versos ao Fado são flores
De um ramo que dia a dia
Tem sempre perfume novo
São rosas que os trovadores
Atiram com alegria
Para o regaço do Povo


Fontes:
http://fadoteca.blogspot.com/2010/02/joaquim-silveirinha.html
Aqui poderão ler o artigo completo do periódico
Guitarra de Portugal de Abril, 1947. É só bater à porta com jeitinho.
José Manuel Osório, "Joaquim Silveirinha - Sextilhas Soltas", in Os Fados da Alvorada, Volume 2, editado pela Movieplay Portuguesa SA, 2009.

6 comentários:

  1. "Soldado do Fado"?! Upa! Upa! Quem produz verbete de qualidade tal é, no mínimo, General!...
    Parabéns e beijinhos, Comadre. Vou já reabrir a Fadoteca em honra deste seu artigo.

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  2. Obrigada, caríssima comadre:) Para General ainda me falta comer muita papa Maizena, como disse o outro. Porém, já comecei a babar... A Fadoteca está de portas abertas?! Aproveitem!..
    Um beijo!

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  3. Que maravilha de texto.
    Desculpe dizê-lo tardiamente.
    :)
    Cumpts.

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  4. Obrigada pela sua visita Bic, sempre apreciada em qualquer altura.
    Até à próxima!

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    1. Mas que lindo texto,principalmente por alguem que conviveu com ele naquela linda Madragoa onde se trocavam olhares amorosos,por vezes traiçoeiros. Chapeau...e foi graças ao caro Bic que tive o enorme prazer de a conheçêr.Parabens cara Ti Maria Benta

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  5. Bom dia, algumas informaçoes sobre Joaquim Silveirinha, que tive o prazer de conhecer no fim da sua vida quando era emigrante em Paris

    Le Ribatejo à Paris

    Dans les premiers temps (milieu des années soixante), le lieu a tout de la taverne populaire des vieux quartiers de Lisbonne, odeurs de sciure et de vin inclus. Le fado aura droit de cité au Ribatejo jusqu’à la deuxième moitié des années 1970. Le Ribatejo bénéficie alors de la présence d’un grand chanteur de fado : Joaquim Silveirinha.

    Joaquim Silveirinha est le fils d’un patron pêcheur de Costa de Lavos, un village proche de Figueira da Foz, au centre du Portugal. Au grand dam de son père, il vit sa vie à Lisbonne et entre dans le milieu du fado. Joaquim Silveirinha se fait vite remarquer, on lui attribue le sobriquet de « rossignol de Madragoa » (quartier de Lisbonne). En ce temps là, il y a encore une mode fadiste : les cheveux sont gominés, certains, tel Filipe Pinto, rougissent leurs lèvres. Le père Silveirinha ne décolère pas de savoir son fils hanter les nuits lisboètes, au milieu, selon lui, de « femmes de mauvaise vie », où l’alcool coule à flots. Plusieurs fois, il menace de déshériter celui qu’il considère comme un fils indigne. Joaquim fait un serment lorsque la santé de son père s’altère : à la mort de celui-ci, il quittera le milieu du fado.

    Il tient parole, ou presque. Il émigre loin de Madragoa, à Paris, avec sa compagne qui deviendra sa femme. Ouvrier chez Renault, puis dans un laboratoire pharmaceutique, il resterait loin du fado, s’il n’y avait pas le Ribatejo. Il y chantera chaque fin de semaine jusqu’à ce que sa santé ne lui permette plus de le faire. Au soir de sa vie, il espérait, retraite venue, repartir au Portugal, dans la magnifique maison de famille de Costa de Lavos, où à l’époque la seule rue goudronnée est la rue Silveirinha, que son père a créée. La maladie ne le permettra pas et c’est à Paris que Joaquim Silveirinha décède. « Essa historia é tão fadista ».

    Fadiste exigeant, scrupuleusement dans la tradition, ennemi des effets de voix ou de gestes, bien que doté d’un puissance vocale étonnante, calé derrière ses guitaristes, Joaquim Silveirinha est un maître du fado « castiço », le fado typique. Ses manières simples, son goût des soirées entre amis, l’ont fait apprécier de nombreux amis. Aujourd’hui, rares sont ceux qui s’y réfèrent : Nuno de Aguiar s’en est beaucoup inspiré, revendiquant même le surnom de « Silveirinha Junior ». Chez les chanteurs amateurs, le français Jean-Luc Gonneau a repris deux fados du répertoire de Joaquim Silverinha. Il laisse une discographie peu abondante : quatre 45 tours enregistrés au Portugal, introuvables, mais dont trois ont été réédités en CD dans une collection dédiée aux fadistes des années 1950 à 1980. Deux enregistrés en France sont introuvables eux aussi.

    Au Ribatejo, Joaquim Silveirinha est accompagné par deux musiciens talentueux. A la guitare portugaise, Robles Monteiro, musicien autodidacte et sensible. A la viol, Antonio Pires, « o To Moliças ».Robles, à la ville, travaille à l’agence de voyages Wasteels, To Moliças est carrossier chez Matra. To Moliças décidera de rentrer au Portugal peu après le 25 avril 1974. Il accompagnera régulièrement le fadiste Rodrigo, et surtout la grande Amalia Rodrigues à la fin de la carrière de celle-ci, se spécialisant dans la viola baixa. On le vit lors du dernier concert donné par Amalia à l’Olympia à Paris. Il continue à accompagner des fadistes (Nuno de Aguiar, la jeune Ana Sofia Varela…)

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