quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ARQUIVOS DO FADO - MARIA ALICE




Maria Alice, “As Primeiras Gravações 1929-1931”, constitui a segunda selecção de fados organizada no âmbito da colecção Arquivos do Fado, que se espera ser longa e próspera, como acredito que esteja a ser no espectro da fadistagem.
Maria Alice foi, em tempos, uma referência na projecção desse fado que registou nas gravações que agora nos são dadas a conhecer. Pela observação de diversas formas de arte ligadas à (por vezes terrível e injusta) condição de ser-se mulher, percebemos que estes fados servem (não só mas também) o propósito de desvelar as tensões desses percursos.
Fados absolutamente intensos, explorando retratos das mulheres que passaram pelas mais atormentadas torturas, por experiências amargurantes e humilhantes a nível psicológico, físico e emocional, deixando a grandeza do seu espírito surgir das cinzas por via dessa imolação. Na voz de Maria Alice tudo isso é Fado. Voz doce, melosa, que arrasta amargura pelas guitarras solenes. Voz que canta o desamor, a paixão não correspondida, a injustiça social, o sacrifício e a morte, um retrato dessa nossa Canção Nacional, essa “Voz de Portugal”, cantada com a dimensão merecida.
O texto introdutório, da autoria de Maria de São José Côrte-Real, define a importância deste trabalho de investigação e recuperação, assim como de conservação daquilo que afinal faz parte do nosso Património. Passo a citar: “A disponibilização do som como fonte primária documental assim beneficia não só o conhecimento em geral, como produz material didáctico de interesse educativo, fundamental para o desenvolvimento da investigação científica em domínios tais como a música tradicional, a literatura oral, a tecnologia de registo e restauro fonográficos, entre outros”. Expressando a minha total concordância, volto a frisar que esta colecção deverá ser entendida também como documento, para além dos firmados créditos como objecto de fruição.
Da selecção de vinte fados, só o último, “A Azenha”, foi gravado em 1931, tendo sido gravados, os restantes, no ano de 1929. Embora, na maior parte dos fados, seja desconhecido quem acompanha à guitarra e à viola, excepto em “Esse Olhar dá-me Tristeza”, Maria de São José Côrte-Real declara existirem indicações de que Carlos da Maia (guitarra) e Abel Negrão (viola) serão os executantes dos dezanove primeiros fados. Foge a esta regra o fado “Tango da Morte”, apresentado na revista “O Ricocó” e acompanhado pela Orquestra de Tango, com letra de Armando Freire, expressando intenso dramatismo.
A apresentação de cada fado segue a mesma estrutura que já havia apresentado no texto Arquivos do Fado – Amália Secreta, ou seja, título, local, data, música, letra, editora, matriz, acompanhamento.

Maria Alice (1904-1997), nome artístico de Glória Mendes Leal de Carvalho nasceu na Figueira da Foz a 1-09-1904 e cantou, pela primeira vez, no retiro Ferro de Engomar, a convite da fadista Maria do Carmo, corria o ano de 1928. Revelou aos demais as qualidades doces e suaves da sua voz.
Com o apoio dos seus contemporâneos, onde se contavam a cantadeira Maria Emília Ferreira e aquele com quem viria a casar-se, o editor Valentim de Carvalho, Maria Alice gravou diversos discos e cantou nos mais variados contextos, nomeadamente no teatro de revista e em esperas de toiros. Seguiu-se, em 1934, uma oportunidade de viajar para o Brasil, onde permaneceu cinco meses e manifestou a consagração do seu talento além fronteiras.

O fado aqui apresentado, “Vida Triste”, é, na opinião deste Soldado, de uma beleza única e significante. Em jeito de homenagem à fadista e a esta colecção:





VIDA TRISTE
(Júlio de Sousa / J.F. Brito)

Vida triste de quem ama
E o coração não resiste
Ao grande amor que o inflama
Sinto o peito querer abrir-se
E o coração contrafeito
Como a tentar evadir-se

Sofrer, penar, levar ao calvário a cruz
Até que se apague a luz
Da derradeira ilusão
Se tudo acaba às mãos do tempo que corre
Porque será que não morre
Esta maldita paixão

Se é pecado olvidar
Eu pequei por ter amado
Alguém que não sabe amar
E um afago nem terei
Que possa servir de pago
A tanto amor que lhe dei


A nossa Fadista já havia homenageado Maria Alice com o belíssimo fado, “Fado Menor”, que podem ouvir aqui.

Fontes:
Sucena, E., Lisboa, o Fado e os Fadistas, Nova Vega e Autor, 2008
Biografia de Maria Alice
Notícia da colecção
Tradisom

15 comentários:

  1. Em primeiro lugar, obrigada pelas referências aos meus blog e vídeo.
    Em segundo lugar, apenas confessar que este verbete foi motivo de inspiração destoutro com que a brindo, cara Comadre
    http://fadistascomoeusou.blogspot.com/2009/08/maria-alice-fado-loucura.html
    Saudações fadistas!

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  2. Cara Fadista, muito obrigada pelo seu comentário e, claro, fico contente que este verbete sobre a Maria Alice lhe tenha servido de inspiração.
    Bem haja!

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  3. Ola, Ti Maria Benta!

    Volto aos blogs fadistas depois do meu casamento, que teve lugar em julho ca em Nashville. Estou muito contente de ver que afinal editaram um CD com as velhas gravacoes da Maria Alice. Tenho de o comprar quando puder, mas nao vai ser facil ca nos Estados Unidos... Uma perguntinha: a melodia deste fado, nao e' a mesma que a do fado "Belos Tempos", do Fernando Farinha? E' essa uma das minhas gravacoes favoritas do Farinha, e nao sabia que a Maria Alice ja tinha gravado um fadinho com a mesma melodia antes do que o Farinha.

    Saudacoes fadistas dos Estados Unidos,

    Anton Garcia-Fernandez.

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  4. Bem vindo de volta Anton!
    Parabéns e felicidades pelo seu casamento!:)
    Quanto à edição da Maria Alice, sendo difícil encontrar em solo nacional, imagino nos EUA... Calculo que não deva haver problema ao solicitar o CD através do site da Tradisom.
    Em resposta à sua pergunta, a melodia deste fado, "Vida Triste", é a mesma que a do fado "Belos Tempos", este último com música de Júlio de Sousa (a principal referência é o "Fado Loucura") e letra do próprio Fernando Farinha.
    Caso queira saber mais sobre este fado, aconselho-o a consultar o verbete que consta no comentário da nossa Fadista, no blogue Fadistas Como Eu Sou (que vi mesmo agora que já consultou e fez muito bem!).
    Até breve!

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  5. Amiga Ti Maria Benta:

    Muito obrigado por ter-me sugerido comprar o CD da Maria Alice atraves do site da Tradisom. Nao tinha pensado nessa possibilidade, mas ja me pus em contacto com a editora, e espero receber a resposta pronto.

    Consultei o verbete no blog da Ofelia, que como sempre, e' excelente. E o mesmo posso dizer dos seus posts. Estou a trabalhar em dois posts para o meu Guitarras de Lisboa, que espero publicar a semana proxima.

    Saudacoes fadistas,

    Anton Garcia-Fernandez.

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  6. Muito obrigada Anton.

    Ficarei então a aguardar pelos futuros posts no seu blogue!

    Até breve!

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  7. Bonsoir, je ne parle ni n'écris le portugais, malheureusement. Je recherche les paroles en portugais de Soldado desconhecido (Ercilia Costa). Hi everyone, I'm looking for the lyrics of 'Soldado desconhecido' (Ercilia Costa). Any help will be useful.
    David Mastin
    dmastin@hotmail.fr

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  8. Andava a pesquisar na internet sobre a Maria Alice e descobri o v/ blog com as informações que procurava.
    A fadista Maria Alice era minha tia avó, com quem não tive nenhum contacto, daí a curiosidade em saber mais sobre ela.
    Julgo que existe um livro sobre a sua vida. É verdade? Como se chama?
    Filomena Glória Costa

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    1. Filomena, eu penso que tenho esse livrinho. E, tinha um disco da sua tia avó que dei a D. Graciete, filha da Maria Alice com o Valentim de Carvalho.Esse disco herdei do meu sogro à sua morte e como era amigo da Graciete dei-lho q tb me disse nada ter da mãe.cristinavcarvalho@sapo.pt

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  9. Olá Filomena. Em primeiro lugar muito obrigada pela visita a este blogue e fico contente que a informação tenha sido útil.
    Quanto à sua questão, eu procuro estar sempre atenta a edições literárias (antigas ou recentes) sobre fado e nunca me deparei com algum livro exclusivamente sobre a vida e obra da fadista Maria Alice. A única cópia que pode adquirir, com relativa facilidade, é a edição a que este verbete se refere. Vem incluído um livrinho com algumas notas biográficas.
    No entanto, assim que tiver alguma informação relevante eu coloco aqui no blogue.
    Obrigada

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  10. Quero dizer-vos que a filha da Maria Alice ainda é viva, é a D.Graciete que é a responsável pelo coro da terceira idade da associação da Junta de freguesia de S. João de Brito de Alvalade,Lisboa.

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  11. Bom dia. Infelizmente a D. Graciete faleceu na semana passada. Que a sua alma descanse em paz.

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  12. Uma verdadeira raridade! Finalmente, depois de tantos anos, Maria Alice é editada em CD com raros registos dos anos 30, da "Valentim de Carvalho", que um dia foram um grande sucesso na rádio.
    Aproveito o momento para felicitar o seu trabalho pela divulgação que tem feito do espólio musical fadista português.
    E também venho por este meio perguntar o seguinte.
    Pelo que vi, no blog "Soldado do Fado", da sua autoria, existe um CD intitulado "Maria Alice - As Primeiras Gravações 1929-1931", com gravações inéditas e raras da cantadeira Maria Alice, CD esse que gostaria de ter, e nunca consegui comprar, e agora muito menos, pois a minha vida financeira está em ruínas.
    Acredite, cara amiga, gostaria imenso de ter os registos desse CD, para divulgar com frequência estas canções na minha conta do Youtube, pois considero que estas raridades não devem ficar para sempre perdidas na Internet, pois já houve um tempo em que estas gravações se tinham perdido no tempo, e já se consideravam desaparecidas.
    Caso tenha o CD em questão, não peço o CD, pois tal seria excessivo. Sòmente pergunto se seria possível enviar-me os registos MP3 do mesmo CD para o email "miguelvaquinhas.milu7@gmail.com".
    Assim, teria a oportunidade de recordar aos mais velhos o que era, para muita gente da época, o banho de fados de Maria Alice que a Emissora Nacional dava aos seus ouvintes! Hehehehehe.
    Brincadeira!
    Atenciosamente, parabéns e continue assim.

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  13. Bom dia Miguel,
    Em jeito de resposta muito rápida eu posso fazer o que me solicita mas vai demorar algum tempo porque de momento não tenho o CD comigo. Envio por "we transfer" para o seu endereço de e-mail, que depois basta descarregar. Obrigada pelo seu interesse e caso entretanto consiga comprar o CD tente ver na Fnac ou na loja do Museu do Fado. Saudações fadistas!

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