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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

«A grande Beatriz da Conceição e a extraordinária Berta Cardoso»

Publicado no Jornal Hardmusica
Um disco (formato CD) que vale a pena adquirir para quem tem interesse em conhecer o trabalho da única fadista do grupo que raramente é referenciada em colectâneas do género e que ainda não tem uma compilação editada com os seus fados. Estes discos valem pela possibilidade de ouvir gravações antigas e poder ouvi-las em formato digital. Finalmente vai-se falando de Berta Cardoso, vão-se publicando uns fados aqui e ali, nesta ou naquela compilação. Sente-se a falta de um bocadinho mais no que ao que esta fadista diz respeito.

«Entre as quatro gravações escolhidas de Beatriz da Conceição todas de 1973, está “A menina dos meus olhos” que Mariza retomou no seu último CD, “Fado Tradicional”.
Interpretação única, azougada, de grande valentia a que demonstra Beatriz da Conceição que canta ainda “Eu preciso de te ver”, “Lisboa é testemunha” e “Minha alma de amor sedenta”, este último numa interpretação pungente e de antologia.
Beatriz da Conceição foi distinguida há dois anos com o Prémio Amália Rodrigues Carreira, mas faltou à cerimónia de entrega.
Berta Cardoso é um dos expoentes do fado, e hoje, curiosamente, muito esquecida. Nesse sentido recomendaria a visita ao site da fadista que foi alvo há alguns anos de uma exposição e várias iniciativas (e muito justamente) sobre a sua carreira, no Museu do Fado.
José Manuel Osório não pôde fugir ao emblemático “Cruz da Guerra” que resistiu aos tempos. A data referenciada desta gravação é de 1979 pela Riso e Ritmo.

Da grande Berta Cardoso é escolhido um interessante fado Triplicado, “Noite de S. João”, uma interpretação brilhante do fado Corrido, “Meu amor fugiu do ninho” com uma engenhosa letra de Linhares Barbosa, e um magnífico fado de João Maria Rosendo (letra e música), “Testamento”.
Carlos Zel canta como poucos e num estilo muito seu, o fado dos Sonhos, de Frederico de Brito. Uma brilhante interpretação. Outro é o “Fado d’Outrora”, num ritmo excelente que dá vontade de dizer: “Ah, fadista!”. Ambos os fados são de 1996.

No Fado Vianinha, canta “Nossa Senhora do fado” que há quem aponte como uma dedicatória a Amália Rodrigues de quem o fadista era amigo e admirador, e no Dois Tons, “Mais anos de fado”.
De Carlos Macedo, que foi guitarrista de Maria da Fé e a acompanhou numa memorável digressão ao Brasil, José Manuel Osório escolheu dois temas de 1977, ambos de Vasco de Lima Couto, em que está já lá a nota baladeira do fado de Macedo.

Os dois outros temas são de 1985, um deles assinado por Maria Manuel Cid, “Rouxinol da Caneira”, e “Velho Friagem”, de Raul Ferrão e Fernando Farinha. Uma nota para o acompanhamento nestes dois fados, entre os instrumentistas está Paquito, José Fontes Rocha e Tó Moliças.»

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Morreu o fadista e estudioso de fado José Manuel Osório

Público, 11.08.2011 - 19:55 Por Lusa

De entre as poucas pessoas que se dedicava ao estudo e divulgação do Fado, que tinha acesso directo a material sonoro que resolveu estudar e difundir, encontra-se José Manuel Osório, falecido no dia 11-08-2011 aos 64 anos. Uma perda no domínio da cultura portuguesa e da tradição urbana, que não desaparecerá do panorama intelectual que ajudou a construir. Ficará sempre entre os que ficaram gratos pelo seu trabalho e entre os que com ele contactaram pessoalmente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SPA cria grupo de fado

Jornal Hardmusica

«O grupo que, entre outros, integra o poeta José Luís Gordo e o músico Pedro Campos, propõe-se reflectir sobre "o sistema de registo de novos textos criados para músicas clássicas do repertório fadista", afirma a SPA numa nota.

Na área do fado esta é uma questão sensível pois uma mesma letra pode ser cantada em músicas diferentes, assim como uma música pode servir a centenas de letras diferentes. O essencial para que melodia e letra se conjuguem é a métrica e acentuação.

Este grupo irá assim reflectir sobre a interpretação de novos poemas em melodias tradicionais como "Fado Bailado", "Fado Lopes", "Fado Vianinha", "Fado Primavera", "Fado Mayer", "Fado Santa Luzia", "Fado Franklin de Sextilhas", "Fado Isabel", "Fado Mocita dos Caracóis" ou o "Fado Vitória", entre outros.

Estima-se em cerca de 250 o número de fados considerados tradicionais, com autores conhecidos, fazendo parte da tradição fadista a interpretação de novas letras em melodias consagradas, ou a interpretação da mesma letra em melodias diferentes.

Um dos exemplos, entre muitos, é a “Toada do Desengano”, que Mariza criou na melodia do "Fado Franklin de Sextilhas", e Luísa Rocha gravou este ano, no "Fado Acácio", sendo o mesmo poema de Vasco Graça Moura.

Outro exemplo, entre muitos, é o "Fado Vitória", composto por Joaquim Pimentel, que José Profírio gravou com a letra "O Rouxinol do Choupal", enquanto Fernando Maurício gravou, de Gabriel de Oliveira, "Igreja de Santo Estevão", e Amália Rodrigues escolheu um poema de Pedro Homem de Mello, "Povo que lavas no rio".

Do grupo de fados tradicionais só três, considerados a base, não têm autor atribuído: o "Fado Menor", "Fado Corrido" e o "Fado Mouraria".

No tocante à exportação, o grupo agora formado, que inclui ainda os poetas Maria de Lourdes Carvalho e Tiago Torres da Silva, irá trabalhar “em articulação com o Gabinete de Exportação da Música Portuguesa”, diz a mesma nota.

“O apoio a novos autores desta área e a articulação da SPA com o processo de candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade, bem como a dinamização do protocolo celebrado em 2010 com o Museu do Fado” são outras das atribuições do grupo de trabalho.

Este grupo integra também os músicos e letristas Tozé Brito e o Carlos Alberto Moniz.»
(IB)


E o "Fado Dois Tons" tem autor? Ou será apenas uma subcategoria?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

«Portal do Fado constitui base de dados de letras e músicas»

É o que podemos ler na notícia publicada pelo Hardmusica - Jornal de Cultura e Lazer.
Aqui se transcreve o texto:

«"A ideia começou por termos imensos pedidos de letras e quais as músicas, nomeadamente as tradicionais”, explicou um dos proprietários do site, Sérgio Miranda.

O site www.portaldofado.net é visitado diariamente por cerca de 2.500 pessoas, com uma acentuada fatia percentual de estrangeiros, disse o responsável.

Da ideia de responder aos pedidos, a equipa do Portal do Fado, projetou uma base de dados que além das letras incluísse os autores, os intérpretes que gravaram, o ano de criação e outras observações de interesse.

Na área fadista esta é uma questão sensível pois uma mesma letra pode ser cantada em músicas diferentes, assim como uma música pode servir a centenas de letras diferentes.
O essencial para que melodia e letra conjuguem é a métrica.

Sérgio Miranda reconheceu que “é uma teia complicada” mas sublinhou a necessidade de “uma memória correcta” desta tradição, tanto mais que “muitas vezes surgem letras adulteradas” e autores incorrectos ou nem sequer mencionados.

O investigador José Manuel Osório, por exemplo, contou à Lusa, que o fado “Mãos Sujas” de Frederico de Brito, que está registado, foi durante anos atribuído a outra pessoa que “calmamente recebia os direitos de autor”.

Sendo uma tradição marcadamente oral, facilita algumas trocas e involuntários erros, disse Miranda.

O gestor do Portal do Fado citou vários exemplos de cruzamentos que “baralham”.
“O fado ‘Rosa da Madragoa’ foi criado pela Lucília do Carmo, mas a Raquel Tavares também o canta e há pequenas alterações”, disse.

“A Amália por exemplo, recuperou muitos fados que eram interpretados por outras fadistas ou até intérpretes”, acrescentou.
Entre outros, do repertório de Amália consta “Fado Faia”, uma criação de Berta Cardoso, e também “Fado do Ciúme” ao que cortou uma estrofe, este, uma criação de Maria Alice.

“Nestes casos toma-se como criador o primeiro, apesar de nem sempre se ter a certeza absoluta, e acrescenta-se os outros que também gravaram o mesmo fado”, esclareceu.

Um exemplo é “Fui ao Baile”, criado no teatro de revista por Maria José da Guia, mas que foi gravado por Fernanda Baptista que a substituiu no teatro.

Outras situações são por exemplo, referiu, o tema “Toada do Desengano” que Mariza criou na melodia do Fado Franklin de Sextilhas, e Luísa Rocha gravou no Fado Acácio, “sendo o mesmíssimo poema de Vasco Graça Moura”.

A base de dados será preenchida pelos utilizadores cabendo aos gestores do Portal fazer a confirmação e procurar as fontes seguras da autoria, o que passa por “um trabalho mais sério com a Sociedade Portuguesa de Autores, mas também instituições que estão no meio como o Museu do Fado ou a Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF)”.

A equipa do Portal constituída por Sérgio Miranda (designer gráfico) e Miguel Amaral (guitarrista de fado) reconhece que a base de dados é uma ciclópica tarefa.
(IB)»

A ideia de base de dados relacional para este assunto em concreto era gira. Necessita de indexação e vocabulário controlado :)

sábado, 28 de maio de 2011

Finalmente?

Público, 28.05.2011 - 16:27 Por Lucinda Canelas

Protocolo

Ministério e CML chegam a acordo sobre futuro do "espólio do fado"


«Dez anos e seis ministros da Cultura depois, a situação do "espólio do fado", nome por que ficou conhecida a colecção de oito mil registos fonográficos reunida pelo britânico Bruce Bastin e vendida a Portugal por 910 mil euros em 2009, vai ser resolvida formalmente. Como? Através de um protocolo entre o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal de Lisboa, que deverá ser assinado na próxima semana e que estabelecerá as condições de preservação e estudo do acervo que está há quase três anos no Museu do Fado.

"O que o protocolo vai fazer é regular a forma como a colecção vai ser gerida entre o ministério e a câmara, os dois co-proprietários", disse ao PÚBLICO Miguel Honrado, presidente da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), a empresa municipal que dividirá com o Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) a responsabilidade da colecção.

O ministério e a câmara partilharam os custos da aquisição do espólio em parte desiguais, pagando a administração central 70 por cento do montante total, quase 640 mil euros (o mecenas prometido não chegou a aparecer). Por ter pago menos, explicou Miguel Honrado, a autarquia, através da EGEAC e do seu Museu do Fado, ficará agora encarregada de garantir a fase seguinte, do estudo e digitalização dos registos.

"Não teria valido a pena comprar a colecção se ela ficasse fechada nas reservas de um museu. É preciso tratá-la e disponibilizá-la", afirmou.

Mal se assine o protocolo, uma equipa de investigadores dirigida pela directora do Museu do Fado, Sara Pereira, pelo musicólogo Rui Vieira Nery e pela etnomusicóloga Salwa Castelo-Branco, da Universidade Nova de Lisboa, darão início a um processo de inventariação, estudo e digitalização da colecção reunida por Bruce Bastin (ver caixa).

Conhecer a colecção

O acervo, que Rui Vieira Nery considera de extrema importância para a história do fado e da gravação fonográfica em Portugal, inclui cinco mil registos em 78 rotações feitos entre 1904 e 1945 pela major inglesa Gramophone e por editoras como a HMV e a Columbia. Mas há também três mil "rodelas" compradas no Brasil pelo coleccionador, que foram as últimas a chegar ao museu. São de Júlia Florista, Maria Vitória, Delfi da Cruz, António Menano e do popular Alfredo Marceneiro as principais vozes que Bastin reuniu.

"A colecção é muito importante, mas precisamos de conhecê-la melhor e de a dar a conhecer quando esse trabalho de estudo estiver feito", diz Miguel Honrado, acrescentando que ela deverá depois integrar um grande arquivo digital, uma das medidas previstas no plano de salvaguarda da candidatura do fado a património mundial, submetida à Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em Junho do ano passado.

Nesta altura faltam seis meses para saber se o fado passará a fazer parte da lista do património imaterial da humanidade. Em Novembro o comité internacional da UNESCO reúne -se em Bali e o optimismo, tal como a responsabilidade, é grande. A candidatura, explica Miguel Honrado, impõe limites precisos ao plano de salvaguarda: "Tem de se cumprir entre 2011 e 2013, o que significa que temos pouco mais de dois anos para pôr o arquivo digital a funcionar, ou grande parte dele, pelo menos."

E, depois, a colecção mantém-se no Museu do Fado ou passa para o futuro Museu Nacional da Música? É possível que venha a passar para o museu do IMC, "mas nada está ainda decidido".

Em Maio do ano passado, o secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle, anunciou que em 2014 o Museu da Música sairia das instalações que ocupa na estação de metro dos Alto dos Moinhos desde 1994, instalando-se no Convento de São Bento de Cástris, em Évora, um imóvel que está devoluto e cuja adaptação exigirá obras profundas, disse à data a directora regional de Cultura do Alentejo, Aurora Carapinha. Essas obras ainda não começaram.»

*

Mal se assine o protocolo será preciso iniciar um processo de inventariação, estudo e digitalização da colecção (Enric Vives-Rubio)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Blogue Histórias Giras do Fado por Vital d'Assunção



Histórias Giras do Fado

São giras, realmente, dispõem bem, e a última é sobre a nossa grande Berta.
Andei eu a cogitar com a minha comadre sobre o papel atribuído à Berta no musical do La Feria (ela nem quis falar-me no assunto...) e deparo-me com este texto. Não imediatamente, mas quase... continuam os fados a cair-me no colo. Eu não sei o que pensam, mas para quem não conheceu a referida fadista, fica-se com muito má impressão... No entanto, a personagem pareceu-me mais uma caricatura ou, por assim dizer, um comic relief, do que um retrato verosímil da senhora. Vá, não estou a desculpar ninguém, mas para mim o que continua a importar é a música e não o espectáculo. Espectacular é vê-lo "dobrado" enquanto "dou brado"... a rir.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

FADO: Dos eruditos populares aos eruditos cultivados

Aqui deixo a transcrição da interessantíssima querela entre estes dois senhores, as suas perspectivas face ao trabalho de investigação, tendências, metodologias, etc. Como ainda não li os três principais livros, para aos quais os textos nos remetem, remeto-me eu a um respeitável silêncio. Não deixo de notar que temos aqui pano para mangas, calças, cuecas, peúgas, resumindo-se todavia (quase) tudo a uma questão (ou várias) de teoria da história e metodologia do trabalho de investigação. Mais do que o conteúdo visa-se a forma, não deixando este de sair prejudicado quando esta lhe falha. Deixo à vossa apreciação, ou seja, à recepção destas ideias, que também engrandecem a(s) obra(s).






Rui Vieira Nery: Fado Maior e Menor
20:06 Segunda feira, 2 de Ago de 2010

«No ano em que é apresentada à UNESCO a candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade não é de espantar que a tradicional escassez da bibliografia sobre o género vá sendo contrariada pela publicação de um número cada vez mais significativo de novas obras sobre esta temática. Foram-se, de facto, sucedendo, ao longo da última década, lançamentos editoriais relevantes, desde os catálogos das sucessivas exposições do Museu do Fado, da responsabilidade de Sara Pereira, às séries de livros e CDs da Corda Seca/Tugaland (incluindo o meu próprio trabalho Para uma História do Fado, de 2004), às numerosas publicações associadas aos dez anos da morte de Amália Rodrigues (o catálogo da exposição Amália: Coração Independente no Centro Cultural de Belém, e a antologia discográfica Amália Nossa, entre outras) e mais recentemente ao marco monumental da Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, coordenada por Salwa Castelo Branco, e ao ambicioso programa editorial previsto na própria candidatura.

Multiplicam-se, assim, os investigadores que nos campos da Musicologia Histórica, da Etnomusicologia, dos Estudos Culturais ou da Antropologia se vêm dedicando ao estudo das práticas e da história do Fado, legitimando de uma vez por todas a incorporação desta temática no foro universitário das Ciências Sociais e Humanas e cruzando na sua abordagem diversas competências científicas especializadas, que vão formando pouco a pouco uma rede mais apertada de saberes interdisciplinares. Muitos deles, significativamente, são jovens pesquisadores a prepararem mestrados e doutoramentos ou já em início de carreira (Rui Cidra, Pedro Félix, Ana Gonçalves, Kimberly Holton, Paulo Lima, Leonor Lousa, Sara Pereira, João Silva, António Tilly, e outros mais), constituindo uma massa crítica que augura o melhor futuro para este novo campo de estudos.

Este trabalho desenvolvido no foro académico tem sido, por outro lado, acompanhado de uma importante produção ensaística da responsabilidade de eruditos que emergem do próprio terreno do Fado, muitos deles demonstrando um enorme conhecimento vivencial direto das práticas do género, do seu repertório, das suas convenções performativas e do percurso biográfico dos seus protagonistas mais relevantes. São disso exemplos destacados os trabalhos pioneiros, recheados de dados novos de pesquisa original, de José Manuel Osório, em particular nas colecções Fados de A a Z (Corda Seca) e Os Fados da Alvorada (Movieplay) e o esforço constante de divulgação inteligente desenvolvido ao longo dos anos por José Pracana, ou até, apesar de alguns aspetos metodológicos mais frágeis, os levantamentos de informação sérios e muito úteis propostos por Vítor Duarte sobre a vida e obra do seu avô, Alfredo Marceneiro, ou por António Manuel de Moraes sobre as ligações históricas entre o Fado e a Tauromaquia. Um dos aspetos mais positivos da candidatura à UNESCO agora em curso é precisamente a preocupação de assegurar este cruzamento permanente de saberes e olhares complementares sobre o Fado, juntando ao rigor e à consistência das abordagens das várias disciplinas universitárias o contributo inestimável e cheio de sabedoria destes testemunhos do terreno. Parafraseando - com toda a distanciação ideológica, já se vê - o velho aforismo salazarista - todos não somos demais para o estudo e o conhecimento alargado do Fado.


UM GRANDE TESTEMUNHO

É neste último contexto que se enquadra o recente livro de Daniel Gouveia, Ao Fado Tudo se Canta?. O autor, com uma longa carreira na edição literária, teve simultaneamente nas últimas quatro décadas uma presença significativa no circuito fadista como intérprete, compositor, poeta e ensaísta. Conheceu, neste período, todos os grandes nomes do Fado, ouviu de uma ponta a outra o repertório do género, recolheu e registou toda a pequena história interna da comunidade fadista, acompanhou a abertura e o fecho de cada casa de Fado e a evolução do respetivo elenco, assistiu ou teve acesso indireto a acontecimentos históricos marcantes e a polémicas, amizades e desavenças (e até - o que não é irrelevante para a matéria em causa - a amores e desamores) e compilou com paixão um acervo vastíssimo de dados inéditos em publicações periódicas, programas, cartazes e folhetos. É precisamente este conhecimento alargado e amadurecido que agora nos oferece no seu livro.

Quem o conhece sabe que Daniel Gouveia é um conversador nato, cheio de histórias que se vão encadeando por associação livre, sempre com aquele brilho nos olhos de quem fala daquilo que ama, e a sua escrita reflete precisamente essa faceta de interlocutor entusiasmado que nos convida para uma tertúlia informal sobre o seu objeto de paixão. Ao Fado Tudo se Canta? é por isso mesmo uma espécie de grande testemunho, vivido por dentro, de um percurso pessoal pelo universo do Fado tal como este se foi configurando não só no tempo de vida adulta do autor como no das duas gerações anteriores com as quais conviveu. E essa postura de observador, que faz parte do objeto observado e assume sem rodeios a intersecção destes dois estatutos, permite-lhe adotar com frequência um tom normativo que traduz sem rodeios as convenções internas do circuito de que dá testemunho e de que ele próprio é agente direto. Um investigador académico, mesmo nestes tempos de triunfo ostensivo do subjetivismo pós-moderno, não poderia ter a ousadia de definir assim regras de boas práticas (ou, como o autor declara de forma inequívoca, de "bom gosto") para o género que está a descrever. Mas esse caráter interno ("émico", diriam os antropólogos) da sua perspetiva faz com que Gouveia tenha toda a legitimidade para o fazer, como um depoimento que vem de dentro do mainstream do género relativamente às regras do jogo que em sua opinião devem regê-lo.

Nas questões de natureza histórica mais remota, como a das origens do género, Gouveia é discreto e cuidadoso, procurando sintetizar com objetividade as várias leituras presentes na historiografia e no ensaísmo do Fado ao longo do século XX, definindo-as com inteligência e comentando-as com bom senso e por vezes com uma pitada de humor, que é uma das características que mais agradável tornam a leitura da obra. Nas matérias de incidência mais recente, em que naturalmente se sente mais seguro, raciocina com clareza e lucidez, mesmo abordando tópicos de algum melindre como o da fixação das autorias polémicas de alguns pilares do repertório corrente (veja-se, por todas, a sua discussão exemplar da autoria do Fado Menor com Versículo), e sem receio de assumir posições pessoais firmes nos debates de fundo em curso. Em resumo, Ao Fado Tudo se Canta? é claramente um dos grandes marcos da bibliografia recente sobre o Fado, e um exemplo perfeito do enorme mérito próprio insubstituível que pode ter o trabalho de um investigador amador - no duplo entendimento de alguém que está de fora do discurso científico académico mas sabe encontrar um registo epistemológico alternativo com normas próprias de rigor e de alguém que ama profundamente o seu tema de estudo.


AUSÊNCIA DE PERSPETIVA CRÍTICA

O mesmo não se pode dizer do volumoso trabalho de José Alberto Sardinha, A Origem do Fado (assim, perentoriamente, no singular), que não obedece nem aos requisitos científicos mínimos da produção académica em qualquer dos ramos das Ciências Sociais e Humanas que se debruçam sobre esta matéria, nem aos critérios de legitimidade própria que pode ter a abordagem "interna" dos eruditos do terreno, ficando numa terra de ninguém que não é, afinal de contas, nem uma coisa nem a outra e tende assim a acumular alguns dos piores defeitos de cada uma delas sem conseguir ter, em contrapartida, as virtudes de nenhuma.

José Alberto Sardinha é jurista de formação e profissão, mas consagra desde há longos anos os seus tempos livres à recolha etnográfica de músicas tradicionais um pouco por todo o País, tendo assim acumulado nas últimas três décadas algumas centenas de horas de registos, gravados quer por si próprio quer pelo extinto grupo de recolhas Almanaque, de cujo espólio é detentor legal. Não podem ser postas em causa a dedicação e a persistência admiráveis deste trabalho, que, no entanto, foi sempre marcado pela debilidade das suas bases teóricas, consistindo desde o primeiro momento numa etnografia empírica descontextualizada, onde os dados do terreno se acumulam, por assim dizer, no "estado puro", sem interpretação, sem leituras críticas, sem cruzamentos, sem hierarquias internas. E é assim que ao debruçar-se agora sobre o Fado o contributo de Sardinha consiste, essencialmente, numa enorme coleção de gravações de campo (algumas, diga-se de passagem, lindíssimas) efetuadas à escala nacional, do Minho ao Algarve e às Ilhas, ao longo do último quarto do século XX - pelo menos metade das quais, por sinal, não são sequer de fados mas representam antes uma espécie de pot pourri sortido de músicas tradicionais diversas, na maior parte dos casos exemplos do Romance, mas saltando também do Malhão ao Corridinho, da Chula à Rusga e por aí fora.

Este levantamento poderia ser, em si mesmo, um contributo muito útil, desde que lido numa perspetiva crítica e problematizante, ausente por completo da obra, procurando enquadrar as práticas assim documentadas no contexto mais geral da História da Cultura Popular portuguesa do século XX e em particular nos seus processos internos de mudança, entre as suas raízes históricas mais remotas e a construção gradual de uma modernidade a que o mundo rural de modo nenhum escapou imune. Mas Sardinha parte, pelo contrário, de uma conceção de Música Tradicional herdada do folclorismo romântico oitocentista, que vê nas tradições musicais não um conjunto de práticas dinâmicas em permanente transformação e interação (a "reinvenção da tradição" de que falava Hobsbawm), mas objetos imutáveis, aparentemente nascidos por geração espontânea e perpetuados depois ao longo dos séculos por simples transmissão mimética, geração após geração, século após século. Tendo assim reunido no quarto de século final do século XX um volumoso corpus de depoimentos que considera atestar a prática do Fado por largas dezenas de velhinhos de Norte a Sul do País, Sardinha automaticamente conclui daí que esse fenómeno contemporâneo generalizado se deve considerar, à partida, como uma evidência de uma prática contínua e imutável, suscetível de ser projetada retroativamente ao longo dos séculos e remontando, se possível, à própria fundação da nacionalidade ou pelo menos ao romanceiro medieval. O Fado seria deste modo - como de resto, para o autor, todos os demais géneros musicais tradicionais - um fenómeno supra-histórico, sem princípio, nem meio, nem fim, desprovido de realidade histórica concreta, pairando sobre o conjunto da Cultura Popular portuguesa como uma espécie de determinante genética inerte, indivisa e intemporal. Sardinha propõe que nesse ADN fadista ideal terão convergido - não se sabe se em algum momento determinado, numa espécie de big bang inicial, ou se de forma mais gradual ao longo dos séculos - as várias tradições musicais rurais de todo o País (o que poderá explicar a dispersão dos exemplos gravados em anexo), e propõe até um intermediário histórico preferencial para essa partilha supostamente multissecular, os cantores cegos itinerantes, que assegurariam nas suas digressões essa comunhão musical permanente à escala nacional. Esta última tese é, evidentemente, de um simplismo ingénuo, porque atribui a um grupo social restrito, sem uma identidade cultural específica e sem relevo quantitativo minimamente determinante, um protagonismo de mediação que nunca poderia ter assegurado por si só num processo de semelhante dimensão e de âmbito geográfico tão amplo. Mas sobretudo contraria toda a informação histórica documentada sobre as práticas musicais tradicionais no País, que regista a prática do Fado até finais do século XIX apenas na região da Grande Lisboa, no polo estudantil de Coimbra e nas disseminações esporádicas que a partir deste último se foram verificando na segunda metade do século, sobretudo em zonas urbanas da faixa litoral (veja-se, por todos, Ernesto Vieira, no seu Dicionário Musical, de 1890).


UM MODELO IMAGINÁRIO

Refira-se, de resto, que os exemplos efetivos de Fado que Sardinha, apesar da mistura de géneros já mencionada, recolhe na sua antologia de gravações são Corridos, Mourarias e Menores de uso corrente no repertório fadista do século XX, acrescidos, ironicamente, de vários fados escritos já nas décadas de 1930 a 50 por compositores bem identificados, que por simples desconhecimento do repertório fadista lisboeta o autor não soube reconhecer. Só para dar alguns exemplos: "A Rosinha Cantadeira" (recolhida em Vinhais, em 1996) é um dos grandes êxitos de Amália Rodrigues, a "Carmencita" de Pedro Rodrigues e Frederico de Brito; a "Talha do Fazendeiro" (Sertã, 1989) é o "Fado Latino" de Jaime Santos; a "Quadra do Amante da Mãe" (Guarda, 1990) é a "Marcha" de Manuel Maria Rodrigues; a "Cantiga do Saltimbanco" (Proença-a-Nova, 1989) é o "Fado Bailarico" de Alfredo Marceneiro; e até o "Romance de D. Melindro" (Monchique, 1981) é a primeira secção do "Fado Menor do Porto", de Joaquim José Cavalheiro Jr. - nada mais nada menos do que o celebérrimo "Não é desgraça ser pobre" de Amália. Sobre o testemunho supostamente multissecular do repertório assim recolhido estamos conversados.

Se Sardinha propõe este modelo imaginário de difusão histórica do Fado no conjunto do território continental português, em nome de uma conceção romântica implícita de Volksgeist nacional que não passa de um pressuposto ideológico oitocentista e que ignora a pluralidade e a diversidade dos contextos e dinâmicas culturais locais, faz questão de rejeitar a todo o custo, por outro lado, igualmente com base num mero preconceito ideológico, qualquer ligação à única manifestação do Fado antes de 1830 que se encontra inequivocamente descrita no espaço lusófono, a do Fado afro-brasileiro amplamente referido pelas fontes das primeiras décadas do século XIX. E para argumentar de forma mais eficaz, isola antes de mais cada uma dessas fontes do respetivo contexto, fragmentando a sua leitura de cada texto em observações pontuais irrelevantes que ofuscam a dimensão global de cada testemunho e a respetiva inserção num quadro de conjunto com as demais descrições congéneres. Ao mesmo tempo, lê de uma forma extremamente imprecisa toda a historiografia do Fado que refere e documenta essa ligação ao espaço afro-brasileiro, adulterando e misturando as posturas teóricas e as leituras, por vezes muito distintas entre si, dos vários autores assim agrupados. Atribui-lhes, por exemplo, a afirmação bizarra de que o Fado teria sido importado para o Brasil vindo do Congo, coisa que nenhum deles alguma vez afirmou, ou uma filiação direta do Fado no Lundum, ideia que a mim, por exemplo, nunca me passou pela cabeça e que o desafio a encontrar em qualquer passagem dos meus trabalhos sobre o assunto.

Em primeiro lugar, Sardinha ignora o contexto mais geral da profunda interpenetração que ao longo dos séculos XVII e XVIII se verifica em todos os aspetos da vida cultural, quer erudita quer popular, do espaço ibero-americano no seu todo. Desconhece que já nos vilancicos religiosos de autores seiscentistas portugueses e espanhóis que nunca saíram da Península encontramos ritmos, melodias e usos linguísticos de matriz inequivocamente africana (designados de forma explícita como "Negros" ou "Guinéus"), absorvida não tanto em primeira mão no próprio continente africano mas já no âmbito da interação cultural daquela com os modelos europeus ocorrida quer nas Metrópoles peninsulares quer na América Latina. Esquece a influência profunda dos poetas brasileiros ou radicados no Brasil, como Gonzaga, Cruz e Silva ou Caldas Barbosa, no conjunto da Literatura portuguesa setecentista, e omite a presença amplamente documentada em Lisboa de múltiplos géneros musicais de raiz afro-brasileira incontestada, desde meados do século XVIII, como a Fofa ou o próprio Lundum. E por tudo isso não percebe que neste contexto de práticas culturais partilhadas e entrecruzadas no contexto luso-afro-brasileiro essa chegada do Fado à Metrópole nas décadas de 1820 e 30 faz todo o sentido. Não compreender esta dinâmica transcultural de um relevo histórico fundamental não é, como Sardinha sugere, evitar um"multiculturalismo chique", é cair num monoculturalismo simplório.

Sardinha centra o essencial da sua contestação à ligação do Fado de Lisboa às práticas afro-brasileiras no isolamento artificial de cada uma das vertentes por mim apontadas como indicadores desta filiação (entre outras a carga sensual predominante, a estrutura melódica improvisatória assente em padrões harmónicos repetitivos e o uso predominante dos ritmos sincopados) e na tentativa de as rebater uma a uma, separadamente: músicas sensuais há muitas, improvisos melódicos sobre alternâncias simples de tónica e dominante também e ritmos sincopados ainda mais.

O argumento é, claro está, inteiramente falacioso em termos epistemológicos, porque não se podem discutir isoladamente as componentes de um modelo interpretativo como se fossem categorias autónomas e absolutas. É pela sua conjugação e pela sua presença simultânea no objeto em estudo que elas adquirem força demonstrativa coerente.

No que respeita à questão essencial do uso sistemático dos ritmos sincopados no repertório fadista, desde as suas primeiras fontes escritas, Sardinha começa, de resto, por fazer uma confusão primária em torno da própria noção de síncopa, misturando o conceito medieval e renascentista de síncopa como processo da notação mensural para permitir o registo de estruturas polimétricas na escrita polifónica com a prática posterior do retardo da acentuação métrica numa linha melódica, a contrariar as acentuações-padrão de uma pulsação rítmica regular. E depois ignora a evidência que a esse respeito apresentam as inúmeras partituras de Fado do século XIX e o próprio repertório oral posterior e subavalia apressadamente a constatação já feita nesse sentido, com o conhecimento ímpar das tradições musicais da cultura urbana lisboeta que lhe era próprio, por um Frederico de Freitas, por exemplo.


EXPANSÃO DA BIBLIOGRAFIA

O argumento de que seria impossível a uma dança converter-se numa canção é, claro está, igualmente improcedente, porque o Fado é desde as suas primeiras descrições documentadas identificado sempre como uma canção, dançada ou não, e porque até muito tarde no século XIX são inúmeras as referências ao "bater" do Fado lisboeta (vejam-se, mais uma vez por todas, as descrições e Camilo no Eusébio Macário e a célebre caricatura de Bordalo Pinheiro que representa Fontes Pereira de Melo e Mariano de Carvalho em pleno "Fado batido" numa taberna, de braços erguidos e ancas a gingar).

Num contexto florescente de expansão da bibliografia de referência sobre o género, Ao Fado tudo se Canta ? de Daniel Gouveia constitui um contributo precioso de um investigador exterior ao meio académico mas de mérito inequívoco - é aquilo a que metaforicamente poderíamos chamar um "fado maior". A Origem do Fado de José Alberto Sardinha, com a sua marginalidade em relação aos princípios metodológicos, teóricos e epistemológicos elementares da investigação contemporânea em Ciências Sociais e Humanas, a sua confusão permanente entre fontes primárias, bibliografia secundária e recolhas de campo, o caos do seu ziguezague constante entre contextos cronológicos e geográficos desconexos, e o seu desconhecimento evidente da produção científica de referência das últimas décadas sobre a História da Cultura portuguesa na transição do Antigo Regime para a Época Contemporânea, representa, pelo contrário, um grave retrocesso neste contexto. Trata-se, de facto, de um fado francamente menor.»






José Alberto Sardinha: Triste Fado
19:46 Terça feira, 10 de Ago de 2010

«Sob o título Fado maior e menor, Rui Vieira Nery fez publicar no JL não uma crítica, mas um virulento e descomposto ataque à minha pessoa, à minha idoneidade, à minha obra de investigação da música de tradição oral e particularmente ao meu último livro A Origem do Fado. Depois de elogiar todas as obras que se têm debruçado sobre o Fado, diz, em suma, que a minha é a única - a única - imprestável. Não admira: o meu livro é o primeiro a desmontar e reduzir a um cisco a sua mirabolante teoria da origem afro-brasileira do Fado. Tal como Espinoza, esforço-me por não rir nem chorar dos atos humanos, nem odiá-los, mas simplesmente compreendê-los. E a explicação do destempero está à vista: os bonzos da cultura dominante não aceitam desvios ao dogma, nem admitem estranhos ao couto, que pensem pela própria cabeça, critiquem e incomodem.

A mais interessante constatação a retirar do texto de Nery é que admite a improcedência, quando vistos isoladamente, dos três alicerces em que baseia a sua teoria da origem afro-brasileira do Fado (sensualidade da dança, melodias improvisatórias sobre estruturas harmónicas repetitivas e ritmos sincopados). Só que - adianta - esses três elementos devem ser perspetivados em conjunto e uma vez reunidos no mesmo fenómeno nas mesmas circunstâncias de tempo e lugar, passam a ser inteiramente corretos. Ou seja, segundo Nery, a Epistemologia consegue transformar em válidos três argumentos inválidos, desde que estes se conjuguem. Eu, que sou um simplório e um ingénuo, confesso não atingir tão altas esferas de raciocínio. Por este andar, as Ciências Sociais transmutar-se-ão em assunto de fé. Acredite, pois, quem quiser...

Em verdadeiro estado de desorientação pela esmagadora prova que carreei no meu livro em refutação da sua tese, Nery nada mais faz do que recorrer à violência verbal na proporção inversa da razão que lhe (não) assiste. E é assim que afirma que eu me situo fora dos requisitos mínimos da produção académica, que não tenho bases teóricas, que pratico "uma etnografia empírica descontextualizada, sem perspetivas críticas e problematizantes". Ou seja, que não pertenço ao grémio. Pois não - e ainda bem! Não teorizo sobre coisas que desconheço, nem cultivo o género da "temática da problemática da super-estrutura do registo epistemológico", nem faço enquadramentos balofos sobre a "criação de sinergias dinâmicas e progressivas", ou sobre "contextos sócio-culturais da modernidade no espaço e no tempo".

Assim sendo, só tenho de estar feliz por não integrar o rebanho do pensamento único, nem a confraria do elogio mútuo. Sou um investigador livre e independente em toda a aceção. Não pertenço a capelinhas, nem tenho de trilhar o caminho dos "mestres" ou repetir-lhes as asneiras com medo de deixar de ter os "requisitos científicos mínimos", aqui sinónimo de carreira académica.

Voltando ao texto em análise, verifica-se que Nery não leu, verdadeiramente não leu, o livro que pretendeu criticar. Quando muito, leu algumas passagens, o que porém lhe não chegou para compreender o cerne do que eu escrevi.

Só assim se explica que não tenha entendido a razão por que incluí nos discos exemplares de chula, malhão, corridinho, rusga e outras danças populares (trata-se de uma comparação, e não uma identidade, com o corrido, como está perfeitamente explicado ao longo do livro, particularmente no capítulo 9, onde analiso e descrevo cada uma das faixas dos discos). Daí também que afirme que eu defendo que a origem do Fado se situa na mistura de muitos géneros musicais rurais, um absurdo que nunca me passou pela cabeça e que o desafio a situar no meu livro (só por esta afirmação se vê que Nery não percebeu nada do que eu escrevi, nem qual é, na minha opinião, a origem do Fado). Daí ainda que se surpreenda pelo facto de os discos conterem essencialmente romances tradicionais (pois claro: é aí que eu situo a génese do Fado, como lá está sobejamente explicado). Daí, por fim, que exulte com a descoberta, entre esses cerca de 40 romances, de cinco melodias de fados registados (sem falar dos que eu próprio assinalei), o que significa que não leu o capítulo intitulado "Problemas de autoria". Também não leu o capítulo 2 do livro, onde rejeito a teoria romântica da Volksgeist, de que tão acintosamente me diz seguidor - v. também, a este respeito, a parte final do Capítulo 3, bem como os pontos seis e 16 do capítulo 13. Quando falamos do que não lemos, nem a Epistemologia nos salva.

Rui Vieira Nery remete-me para as notícias escritas de fado brasileiro antes de 1830. É surpreendente que o faça, pois contradiz-se a si próprio: em primeiro lugar, a p.50 do seu livro Para uma História do Fado, afirma que mesmo que surjam notícias portuguesas anteriores a essas, as outras provas (rectius os três referidos argumentos) são tão fortes que dificilmente os dados da questão poderão vir a ser alterados, dando assim mais importância a tais argumentos do que às ditas fontes; em segundo, porque num texto intitulado Entre mitos e enigmas, que publicou na revista do jornal Expresso, Nery explica assim a dificuldade do estudo do Fado: "(...) Como qualquer género de música tradicional, surgiu num contexto eminentemente popular e, por isso, constituiu-se, evoluiu e transmitiu-se, durante muito tempo quase exclusivamente por via oral, longe de qualquer registo escrito que nos permita hoje identificar e descrever com alguma precisão as sucessivas fases, pelo menos as mais remotas, da sua génese". Depois disto, ainda tem o arrojo de contraditar a minha teoria com as sacrossantas notícias escritas...

Dois pontos finais: o primeiro para dizer que em nenhum lado assaquei à tese brasileira a origem congolesa do Fado, depois transportado para o Brasil, nem atribuí a Nery a procedência do Fado diretamente do lundum (a sua posição está, aliás, desenvolvidamente exposta, com extensas citações da sua obra, o que confirma mais uma vez que não leu corretamente o que eu escrevi); a segunda para esclarecer que eu não sou o "detentor legal do espólio do Almanaque" por esta razão simples: esse grupo nunca teve nenhum espólio de gravações, na justa medida em que as recolhas eram por mim preparadas com viagens prévias, com contactos e escolha dos informantes e mais tarde gravadas num aparelho Nagra IV-S de minha propriedade, apenas nessa altura sendo acompanhado por alguns elementos do referido agrupamento. Tais recolhas são, por isso, naturalmente minha propriedade material e autoral, como está devidamente definido em documento legal. De resto, estranha-se esta referência sibilina, pois na verdade as expedições de recolha que realizei na época do Almanaque foram cinco ou seis, o que é ridículo se lembrarmos as largas centenas que já efetuei ao longo de 35 anos de pesquisas de campo por todo o país.

A grandiloquência do discurso de Nery esconde, muito simplesmente, a debilidade e a ligeireza da sua tese sobre as origens do Fado e continua a não explicar estas duas coisas elementares: como se justifica a transformação do fado-dança brasileiro (mesmo que cantado, como veio agora precisar) em fado-canção de Lisboa, verdadeiro milagre indecifrado, uma espécie de little bang em caldeirada cultural; e a origem da palavra "Fado" para designar o género poético-musical que nos ocupa, coisa que não explica nem jamais conseguirá explicar.

Verifica-se, em suma, que o conteúdo do meu livro está, no texto de Nery, frequentemente deturpado, outras vezes distorcido. O leitor minimamente atento chegará com facilidade a esta evidência e apreciará, sem peias nem preconceitos, o que aí deixei escrito, fruto das minhas investigações. Esta polémica não versa, por todo o exposto, fados maiores ou menores. Reflecte simplesmente o triste fado português de ter de aturar a pequenez e a pesporrência dos que se julgam donos do Saber em Portugal.

Anuncio desde já não vir a apresentar tréplica a uma eventual réplica de Rui Vieira Nery. As limitações do espaço jornalístico não permitem dissecar argumentos ponto por ponto, matéria que terá de ficar para outro texto. Além disso, onde me sobra a vontade, falece-me a paciência e o tempo, que me obriga a tratar de coisas mais importantes.»

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Fados à Conversa no CCB



Encontrava-me a pesquisar sobre os Dias da Música no CCB, quando me deparei com estes Fados à Conversa.
Esta predisposição natural para o Fado faz com que o encontre em qualquer sítio, ou melhor, faz com que seja encontrada, porque neste âmbito, e ao que ao Fado diz respeito, não existe muita possibilidade de escolha.
Voilá, o ciclo Fados à Conversa inaugura com Carminho, no dia 16 Maio 2010, pelas 17:00. Óptima ocasião para conhecer como nasce uma fadista de tão singular quilate.
Trata-se do segundo ciclo de Concertos à Conversa que parte de um conjunto de convidados por sessão, desta feita, dedicada ao Fado. Durante os dias 16, 23 e 30 de Maio, terminando no dia 6 de Junho, podemos conhecer e ouvir Carminho, José Fontes Rocha, Joana Amendoeira, Ricardo Parreira, Fernando Alvim, Rodrigo, entre outros. A direcção artística fica a cargo de Hélder Moutinho.

Se a história do fado conta com pouco mais de um século, as histórias do fado contam-se às centenas. E algumas ficam para a história. Helder Moutinho conhece-as bem. Nasceu numa família de fadistas e, ao longo dos seus quarenta anos, entre palcos e casas de fado, conviveu de perto com várias gerações de vozes, poetas, músicos e compositores. E porque um dos maiores prazeres da música reside no dá-la a conhecer aos outros, Helder Moutinho propõe-nos ouvir, ao longo de quatro concertos e quatro conversas, alguns dos mais destacados representantes das várias gerações que conhece do fado.

Consulte a programação em:
Fados à Conversa

sábado, 13 de março de 2010

Parabéns Ada!

Pelos 50 anos da sua carreira, que alguns resolveram lembrar-se.
O jornal Hardmusica publicou uma notícia, a qual volto a publicar neste blogue, para dela ter sempre registo.
Passando ao lado da comum retrospectiva da sua carreira, prefiro aqui deixar uma sincera homenagem com um fado.
O registo da voz de Ada de Castro sempre me agradou tendo sempre feito parte dos meus favoritos. Soube, através de uma fonte inesperada, que Ada de Castro, antes de se profissionalizar, cantava muitos fados da Hermínia Silva. Diziam até que as suas vozes eram parecidas. Na minha opinião, não diria tanto pela voz, mas pela forma de cantar, pelo repertório escolhido, pelo sentimento dedicado, pela garra e a raça fadista, castiça e bairrista. Sim, não me admira que isso seja idêntico e transmissível. Gostava de ver mais gente nessa sincronia. Também me disseram que era uma apaixonada pela voz de Maria Teresa de Noronha. Uma mulher de bom gosto, portanto.
Fadinhos como “Não me Atires Poeira aos Olhos” caem-me no colo em alturas que até parece que adivinham... É que é engraçado quando sentimos que alguém insiste em atirar-nos poeira aos olhos mas, por alguma intempérie momentânea, um ventinho sopra, e lá vai a areia direccionada para outro lado qualquer (ou para os olhos de outra pessoa, o que até tinha alguma piada). Para os meus olhos vão apenas as verdades que a noite encobre (onde é que já ouvi isto?:]), as realidades que se pressentem, as expressões que se vislumbram, os sentimentos cuja condição é realmente precária, como é toda uma vida no tempo presente, ainda mais do que antes.
Enfim, não deixa de ter a sua graça ver a ingenuidade com que me atiram poeira aos olhos. E eu a vê-la passar também não sou diferente...
Vai um fado e um tinto, para esquecer o dissabor.
Desejo bom resto de Sábado a todos, em especial à Dª Ada de Castro, que não merece estar envolvida nas confissões de uma fadistona chorosa.


Ada de Castro canta Não me Atires Poeira aos Olhos (António José, Nóbrega e Sousa)



Ada de Castro fala de si e do Fado
Hardmúsica, 13 MAR, 2010 por Zita Ferreira Braga

Ada de Castro mora em Lisboa, mais exactamente em Campo de Ourique mas não é aqui que tem as suas raizes. Nasceu no Castelo, perto de Alfama, berço de muito Fado e de muitos que o cantam.

"Sou uma mulher simples que ama o Fado e que tudo tem feito para o cantar bem. Sou das fadistas castiças que cantam com voz velada e um cheirinho de rua".
E Ada continua a descrição do que tem sido a sua vida de fadista:"Cantei a primeira vez como profissional no Faia, que era do pai do Carlos do Carmo, um homem muito simpático. Gostaram muito de mim e fui continuando a cantar. Só canto fados meus. Também apadrinhei muitas marchas sempre diferentes e foi sempre uma coisa de que gostei muito".

E Ada continua a falar embalada pelas recordações mas sem qualquer laivo de melancolia: " sabe para mim há uma figura máxima no Fado, a Maria Severa, e a partir daí vem Amália e depois vêm mais umas outras. Por exemplo fala-se pouco de Hermínia Silva uma pessoa que fez parte da minha vida porque a minha avó foi sua contemporânea e falava-se muito dela. Mas este país esquece os grandes artistas. Veja a Laura Alves. Ninguém fala dela e foi uma das melhores actrizes portuguesas".

Aqui o Hardmusica decidiu perguntar-lhe se se considera uma Diva uma vez que está incluida no rol das divas agora editado pela Fonoteca: " de modo nenhum. E penso que não há divas no Fado. Diva para mim é talvez a Maria Callas na ópera, a Piaff na canção. Diva é uma nome que não se aplica ao Fado e a haver seria a Severa."
Perguntámos a Ada de Castro como via ela o papel do Museu do Fado no panorama artístico actual mas a fadista não quiz adiantar muito sobre esta questão embora seja um local onde vai sempre que é solicitada.

"Ada de Castro, acha que lhe vão fazer uma festa como têm feito a outras colegas?"
Resposta imediata " Não". Com mais calma elucidou: "Mas se me quiserem fazer eu vou com toda a certeza. Mas ser eu a pagar para ter uma festa isso não!"
Mas esta fadista tem um talento em que a voz não entra: gosta de pintar. Autodidacta, recusa-se a ter lições porque "gosto de pintar o que quero, como quero e quando quero e se tivesse lições perdia a espontaneidade que ponho nas minhas pinturas"

Ada de Castro faz neste sábado, 13 de Março, 50 anos de actividade artística como fadista.
Cantou em várias casa de fado e actuou em inúmeras casas de espectáculo do país.
Visitou profissionalmente vários países, tendo actuado quer ao vivo quer nas televisões dos mesmos: Espanha, Dinamarca, Suécia, Bélgica, Holanda, Japão, China, França, Itália, Brasil, Argentina, Uruguai, EUA, Canadá e toda a antiga África Portuguesa, foram locais onde deixou a sua voz e o seu Fado.

No Mónaco actuou nos jardins do palácio Grimaldi para toda a família do príncipe Reinier incluindo a princesa Grace.
No Brasil actuou em todos os Estados da Federação a convite do Governo Brasileiro, isto em 1968.

Gravou para várias editoras, não só em Portugal mas também no Brasil e Holanda, detendo entre fados e marchas um total de 550 números gravados.

São inúmeros os prémios recebidos como em 1962, o óscar pela melhor fadista, prémio RTP, outro óscar em 1968 como melhor fadista do ano, em 1964 um elefante de ouro,em 1982 mais um óscar como melhor fadista do ano e por aí adiante.

Um pormenor que Ada conta com muita graça: "Veja só. Sou do Benfica e tenho uma placa de agradecimento do Sporting". E lá estava ela!



Links:
http://www.hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=4620

Biografia:
http://jsilva.bloguedemusica.com/r296/Ada-de-Castro/
http://www.portaldofado.net/content/view/1363/67/

Fados:
http://fadocravo.blogspot.com/2008/11/ada-de-castro-cigano-ou-troca-por-troca.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/76350.html

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Faleceu o guitarrista Jorge Fontes

Notícia extraída do jornal Público 26 JAN 2010

O guitarrista Jorge Fontes, 75 anos, morreu hoje de manhã à saída da sua residência na Damaia (Amadora), disse à Lusa uma familiar do músico.

Jorge Fontes acompanhou vários fadistas, como Amália Rodrigues e Fernando Farinha, e colaborou ainda com José Afonso, no EP “Cantares” (1964), Quim Barreiros, no seu primeiro disco, em 1971, e António Variações, no álbum “Dar e receber”. Editou ainda vários discos com o seu conjunto de guitarras.

O estudioso de fado José Manuel Osório disse à Lusa que Jorge Fontes “foi um dos campeões de gravações de discos, juntamente com António Chaínho”, outro guitarrista da sua geração. “Praticamente todos os grandes nomes do fado foram acompanhados por ele, além de ter incentivado muitos fadistas, alguns já retirados, a gravar discos, e nesse sentido é importantíssimo para a história da discografia fadista”, salientou José Manuel Osório.

O seu último álbum foi editado em 2007, pela Metro-Som, e inclui, entre outras temas, “As minha variações em Lá” e “o que me disse a guitarra”, ambos da sua autoria, e “Picadinho do Minho” e “Ó Malhão”, para o quais fez os arranjos.

Tristão da Silva, Ada de Castro, Maria da Fé, Fernanda Maria, Fernanda Pinto, Frederico Vinagre e Lenita Gentil foram outros dos nomes que acompanhou. Como músico integrou o elenco de várias casas de fado de Lisboa, designadamente Arcadas do Faia e Restaurante Típico O Forcado, onde actuou durante 29 anos, no Bairro Alto.

Actuou por diversas vezes em programas recreativos da RTP e no estrangeiro, designadamente em Espanha, França, Bélgica, Itália, Holanda e Suécia. O corpo do guitarrista encontra-se na igreja de N.ª Sr.ª de Fátima em Lisboa, onde é hoje rezada missa de corpo presente pelas 19h00. O funeral do músico realiza-se quarta-feira pelas 09h00 para o cemitério de Carvalhos (Vila Nova de Gaia).

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Adega Machado encerrou



Bom dia! Más notícias para hoje, ou melhor, ontem.

Leia a notícia de 26 NOV. 2009, no Correio da Manhã.



A Adega Machado, espaço mítico situado no Bairro Alto, que contou com 72 anos de existência, encerrou no passado Domingo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Grande Entrevista com Eunice Muñoz


Eunice Muñoz, 1948

No seguimento do post anterior, e como acredito que alguns leitores sejam admiradores do trabalho da famigerada actriz Eunice Muñoz, não hão-de querer deixar de saber que, às 21:00h do dia 19 deste mês, estará presente na Grande Entrevista, como especial convidada de Judite de Sousa.

Leia aqui a programação da RTP e deleite-se com um dos raros momentos em que vale a pena estar à frente da TV.


Errata: Como eu, de manhã, com a minha habitual dislexia, me enganei e indiquei que a entrevista era hoje, dia 18, perdoe-me quem leu e não viu o link. A coisa já está corrigida. Sempre podem, hoje, às 21:00h, ver uma reportagem sobre quem quer ter filhos à fartazana e quem quer, apenas, sopas e descanso.

Imagem extraída do blogue Dias que Voam.

Julieta Reis edita novo álbum




Julieta Reis edita novo álbum, ainda estou para saber de que editora. A chancela é coisa de importância. A sabê-lo na altura da aquisição.

Pode ler a notícia aqui, extraída do DN, 11 NOV. 2009.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Ano do Pensamento Mágico




Resolvi abrir uma excepção à temática deste blogue, para apresentar a peça recentemente estreada no Teatro Nacional D. Maria II, "O Ano do Pensamento Mágico", interpretada por Eunice Muñoz e encenada por Diogo Infante.

Joan Didion, americana, jornalista, nascida em 1934, escreveu o livro The Year of Magical Thinking, um compêndio das suas memórias, versando sobre a morte, a perda e todo o pesado processo que envolveu o lançamento dos seus entes mais queridos, definitivamente, para o mundo dos mortos.

Publicada em 2005, a obra de Joan Didion foi recriada em forma de monólogo, no palco da Broadway e do National Theatre de Londes.

O Palco

É uma travessia no deserto da existência que "vai acontecer-vos", refere Eunice, com certeza, não num tom ameaçador mas de aviso e de inevitabilidade. Um tom que dá o mote e continua a saborear-se nas palavras que só compreendem aqueles que vivenciaram a realidade da perda. Há uma ideia de dor, de perda, de morte, de choque; em contrapartida existe a realidade, o acontecimento, e o choque que transporta todas as suas inquietações. Esta é uma das muitas situações em que a ideia de é absolutamente incompreensível e até ilusória na sua interpretação.

Falar sobre a perda, mesmo a actuar, é fazer esse exorcismo muito pessoal. O exorcismo dos nossos mortos. Creio que existiu na assistência um misto entre entendimento e/ou identificação. Para Eunice Muñoz, foi uma peça ao seu jeito (como chegou a referir), para confrontar-se com as suas dores e com os inúmeros passados que deixaram recordações.

Para mim, mera espectadora, foi um golpe e tanto confrontar-me com dores idênticas às minhas, das quais reconheci de imediato as mesmas perturbações, se não as mesmas, muito idênticas, decerto. A ilusão, o pensamento mágico que nos faz ser mais associativos do que racionais: se eu fizer x... então acontece y. "Se eu não deitar fora os seus sapatos, ele [John] conseguirá regressar a casa". Mostra-se que se "lida com a situação"; faz-se o ritual, faz-se a coisa certa. Trabalha-se no vazio preenchendo-o com subterfúgios de intenção racional.

Lembro-me de uma deixa interessante, da qual aqui resolvo deixar mais uma paráfrase: "cuidado com as manhãs, são a pior altura para a auto-piedade". Manhãs? E as tardes? E o horror das noites? Mas compreendi. Foi expressa essa insustentabilidade perante o adverso. Estar calma, ter dinheiro para a viagem, essa viagem simbólica pelo limbo dos reinos. Estar no controlo da situação, em que nada do que se faz pela saúde de alguém chega, em que o "tudo" não chega. Após o tudo falta mais um pouco, pouco esse onde nos detemos e onde encontramos o abismo.

Cenário e Vida

Em palco estão uma mesa, o livro [da Joan Didion], um copo com água, lenços, uma poltrona, música para intercalar os momentos em que a escuridão nos cobre e em que o cenário, com um intrincado de formas acutilantes, se move e deixa a descoberto, após essa terrífica catarse, um final, que será o final para a vida. Atenção. Não da vida, mas para a vida. Porque a vida tem cá uma força (como um dia me disseram) que por mais amargura, medos, perdas, sofrimentos para a morte, relança sempre no sentido nesse desenlace. Para a vida.
"Amo-te mais do que apenas mais um dia". E um dia alguém dirá "talvez amasse".

Obrigada Eunice. Bravo!

Aqui vos deixo a reportagem que foi publicada na TimeOut Lisboa, 11-17 NOV. 2009, escrita por Bárbara Cruz:



Veja a autora com o seu marido e leia um excerto do livro.

Como Eunice se prepara para o palco, no Jornal I, 16 NOV. 2009, por Vanda Marques.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Ver Amália" por Tiago Baptista


Imagem retirada de Lisboa SOS

A apresentação do livro no Soldado do Fado, brevemente... (num blogspot perto de si).

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Coisas e Loisas



Tertúlia no Jardim de Inverno do São Luiz

Ocorreu uma discussão algo acesa em torno de uma eventual edição integral dos poemas que Amália cantou ao longo da sua carreira.

Leia aqui.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Património, Coração Independente, Rádio

Hoje, algumas notícias sobre o mundo do Fado:




Carrilho quer fado Património da Humanidade em 2011

Não tanto pela candidatura em si, mas pela divulgação do Fado que pode surgir em seu torno, considero esta notícia, que se resume ao "vira o disco e toca o mesmo", importante. Aguardarei com alguma ansiedade as edições, de livros e música, que serão lançadas no próximo ano. Espero que sejam válidas do ponto de vista informativo, quer para estudo, quer para divulgação, embora aposte mais nesta última qualidade.


Joana Vasconcelos, Coração Independente Vermelho, 2005

Exposição sobre Amália abre na véspera dos 10 anos da morte

Uma exposição que pretende repensar Amália Rodrigues (1920-1999) como símbolo da cultura portuguesa, com mais de 500 peças, entre objectos pessoais e obras de artistas plásticos contemporâneos inspiradas na fadista, é hoje inaugurada em dois museus de Lisboa, no Museu Berardo e Museu da Electricidade.



Emissora só de fado nasce em Lisboa no aniversário da morte de Amália

A emissora 92.0 correspondia à RNA (Rádio Nova Antena) e já transmitia exclusivamente Fado (e ocasionalmente outras canções portuguesas) há algum tempo. Agora tem nova roupagem e uma programação mais dinâmica. Chama-se Rádio Amália e poderá ouvi-la em http://www.amalia.fm/. O sítio online ainda se encontra em construção.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Amália 2009





Ao consultar este panfleto terá acesso ao programa de eventos associados aos dez anos que marcaram o desaparecimento de Amália Rodrigues. Vão ocorrer espectáculos, exposições, projecção de filmes e debates que versarão sobre a importância e projecção do trabalho da Diva, bem como sobre a divulgação do Fado e da alma lusa por esse mundo fora.
Trata-se, também, de uma óptima oportunidade para ouvir Celeste Rodrigues ao vivo. É de aproveitar enquanto ainda podemos enlaçar-nos em vozes que emanam puro Fado. Será nos dias 9 e 10 de Outubro às 23h30 no Teatro São Luiz.
Alimento esperanças e uma crescente curiosidade em relação à exposição no Museu Berardo, que não deixarei de visitar.

"Mulher de uma intuição e inteligência sublimes, foi por natureza uma cantora à frente do seu tempo, alterando regras, tradições e costumes, elevando assim a música urbana a que chamamos fado a uma arte maior" Bruno de Almeida
Verdadeiro, no meu ponto de vista, se considerarmos que elevou, como fez, o fado a uma arte maior, mesmo o fado que nasceu antes de si. Foi o que Amália fez, estamos todos gratos, excepto por aqueles que teimam em pensar que Amália só elevou Amália a uma arte maior.

Notícia relacionada no Jornal I, 17 de Setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Fados com aditivos


Time Out Lisboa, 2-8 Set., 2009

Em Alfama estão a decorrer, nas últimas Sextas-Feiras de cada mês, sessões de fado vadio, curiosas frescatas modernas, que não se contentam apenas com fado, pois não. Temos mesmo de admitir que fado, nos tempos que correm, não é garantia de rambóia para ninguém, e que outros acontecimentos artísticos e sociais se impõem, não fôssemos nós actores nesta praça que engloba a diversidade do Milénio. É assim, fado vadio num dos bairros mais castiços de Lisboa, mas de braço dado com a contemporaneidade, não vá o Diabo tecê-las (vá lá, não lhe chamemos modernice, embora apeteça). Confesso que deve haver espectáculo, se ao Fado aprouver a devida Apelação. Comes e bebes garantidos, como diz a notícia, esses, pelo menos à antiga portuguesa acredito serem.