Os Anos de Ouro do Cinema Português
Duração aproximada: 82 mn. P/B Ano de produção: 1938

O papel de Maria da Luz (Hermínia Silva) vive muito através do universo dos outros personagens. Era por ela que o Chico andava desvairado (vulgo apaixonado) e o único motivo pelo qual ainda não havia deixado Lisboa (aparte dos carros, outra das suas paixões). Gracinda via em Maria da Luz uma ameaça e uma das causas para as inquietações do seu coração, devido aos sentimentos que desenvolvia por Chico. Ficaria ele com ela ou com a fadista? Trocaria ele uma vida simples, e um amor puro, por uma estabilidade duvidosa, rodeada pelos ambientes luxuriosos das cidades e retiros? Aquele fado, personalizado pela Maria da Luz, era um Fado da tentação. O Fado de Gracinda era outro, quase oposto, da luta, pobreza, candura, trabalho, vida simples e vivida em comunidade.
FADO DO RETIRO
(José Galhardo/Raul Ferrão)
É tão fresca a melancia
Como a boca da mulher;
Nas tardes de romaria
Rapazes é que é beber,
Chega a gente ao fim do dia
Sem dar p’lo amanhecer
É para esquecer
É para esquecer
Que assim beber
Tu me vês a vida inteira
Com este copo na mão
Que tem de sofrer
Mais vale beber até poder ter
O sangue de uma videira
Cá dentro do coração.
Ó tristeza vai-te embora
Que a vida passa a correr
Se não te alegras agora
Quando é que o hás-de fazer?
Bota o vinho a toda a hora
Canta, canta até poder
Se calhar haver zaragata
Com um freguês que tem mau vinho
Pr’a não estragar a frescata
É dizer-lhe com jeitinho
- Bebe lá mais meia lata,
Vá lá mais um pastelinho!
FADO DA FADISTA
(D.R.)
Nasci num dia de chuva,
Eu chorava, o céu chorava.
Minha mãe cantava o fado
A ver se me consolava.
Depois palrei,
Depois falei,
Depois cantei,
Como quem sente um segredo
Represado na garganta
Vivi, sofri
E no que vi,
Compreendi
Que a fadista de nascença
Só é mulher quando canta.
Num dia de sol ardente
Passou pela minha rua,
Olhámos um para o outro,
E eu senti que ia ser sua.
Ainda hesitei,
Mas o que eu sei
É que cantei
Como quem canta, sentindo
Que a própria alma é que canta
E a fulgurar
A suplicar
O seu olhar,
Tinha a mesma labareda
Que me queimava a garganta.
Numa noite fria e escura
Não voltou à nossa casa.
Pus os olhos no meu filho
Sentindo os olhos em brasa.
E só então,
Meu coração,
Nessa traição
Entendeu a dor profunda
Que há na alma de quem canta.
Se me deixou,
Me abandonou,
Fez-me o que sou...
- Agonia da saudade
Que enrouquece uma garganta.
O âmbito do poema do "Fado do Retiro", assim como a cena em que ele decorre, fez-me concluir que se trata efectivamente da sua designação no filme. Todavia, também pode ser associado aos nomes "Fado da Melancia" ou "É tão Fresca a Melancia". Os resultados das minhas pesquisas sobre o nome deste fado foram um tanto ambíguos e por isso deixo ao critério de quem possui mais/melhores fontes sobre o assunto. O mesmo acontece com o Fado do Fadista, no que concerne à autoria.
Fontes:
Cartaz da Partitura Musical
Marceneiro, V.D., Recordar Hermínia Silva, Edição de Autor, 2004
Agradecimentos
Ofélia Pereira
Vítor Marceneiro
Paulo Borges Almeida
Pela paciência demonstrada, obrigada.


