Sempre gostei daqueles fados-tributo que carregam o nome de um artista, ou de vários, como é o caso da “Evocação” de Fernando Farinha. São fados que dedicam um poema ao respectivo fadista que o vai cantar, que constituem o elogio ao próprio, descrevendo e contando um pouco da sua história. Por um lado, afiguram-se excepcionais no que diz respeito ao reconhecimento; por outro, estruturam-se músicas e letras feitas “à medida” de quem as canta. Apresento aqui três fados-tributo, ou três tributos do Fado àqueles que contribuíram com as suas carreiras para a definição dos valores paradigmáticos desta arte. Três fados que adoro, tão diferentes entre si, que transmitem um pouco do Ser destes artistas. Sabemos que não podiam ter sido criados para mais ninguém.
AMÁLIA
(José Galhardo/Frederico Valério)
Amália
Quis Deus que fosse o meu nome
Amália
Acho-lhe um jeito engraçado
Bem nosso e popular
Quando ouço alguém gritar
Amália
Canta-me o fado!
Amália
Esta palavra ensinou-me
Amália
Tu tens na vida que amar
São ordens do Senhor
Amália sem amor
Não liga, tens de gostar
E como até morrer
Amar é padecer
Amália chora a cantar!
Amália
Disse-me alguém com ternura
Amália
Da mais bonita maneira
E eu toda coração
Julguei ouvir então
Amália p’la vez primeira
Amália
Andas agora à procura
Amália
Daquele amor mas sem fé
Alguém já mo tirou
Alguém o encontrou
Na rua com a outra ao pé
E a quem lhe fala em mim
Já só responde assim
Amália? Não sei quem é!
FADO HERMÍNIA
(José Galhardo/A. Barbosa)
Ó tu, que és feia e bairrista
Prezas pela tua vez
E canta o fado, ó fadista
Que o fado é que é português
O Zeca vai à revista
Não se cansa o rafiné
Canta ao vivo com uma guitarra ao pé
Sem ser a presumir ao Chevalier
Hermínia, ele ama o teu fado mavioso
Que é como a flor da glicínia
Que deixa um perfume saudoso
Hermínia, volta a cantar o fado
Que a cidade tem saudade
Da Tendida e do Soldado
Se queres armar em vedete
Eu cá por mim, faz-se bem
Mas só quando a Miss Arlete
Cantar o fado também
Estás a ver a Janete
A correr de Verão
Também tu, estás a pedir então
Um pontapé no blue que é que nem pão
Hermínia, ele ama o teu fado mavioso
Que é como a flor da glicínia
Que deixa um perfume...
Hermínia, volta a cantar o fado
Que a cidade tem saudade
Da Tendinha e do Soldado
O MARCENEIRO
(Armando Neves/Alfredo Marceneiro)
Com lídima expressão e voz sentida
Hei-de cumprir no Mundo a minha sorte
Alfredo Marceneiro toda a vida
Para cantar o fado até à morte.
Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro.
Este apelido em mim, que pouco valho,
Da minha honestidade é forte indício.
Sou Marceneiro, sim, porque trabalho,
Marceneiro no fado e no ofício.
Ao fado consagrei a vida inteira
E há muito, por direito de conquista.
Sou fadista, mas à minha maneira,
Há maneira melhor de ser fadista?
E se alguém duvidar crave uma espada
Sem dó numa guitarra para crer,
A alma da guitarra mutilada
Dentro da minha alma há-de gemer.