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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Ano do Pensamento Mágico




Resolvi abrir uma excepção à temática deste blogue, para apresentar a peça recentemente estreada no Teatro Nacional D. Maria II, "O Ano do Pensamento Mágico", interpretada por Eunice Muñoz e encenada por Diogo Infante.

Joan Didion, americana, jornalista, nascida em 1934, escreveu o livro The Year of Magical Thinking, um compêndio das suas memórias, versando sobre a morte, a perda e todo o pesado processo que envolveu o lançamento dos seus entes mais queridos, definitivamente, para o mundo dos mortos.

Publicada em 2005, a obra de Joan Didion foi recriada em forma de monólogo, no palco da Broadway e do National Theatre de Londes.

O Palco

É uma travessia no deserto da existência que "vai acontecer-vos", refere Eunice, com certeza, não num tom ameaçador mas de aviso e de inevitabilidade. Um tom que dá o mote e continua a saborear-se nas palavras que só compreendem aqueles que vivenciaram a realidade da perda. Há uma ideia de dor, de perda, de morte, de choque; em contrapartida existe a realidade, o acontecimento, e o choque que transporta todas as suas inquietações. Esta é uma das muitas situações em que a ideia de é absolutamente incompreensível e até ilusória na sua interpretação.

Falar sobre a perda, mesmo a actuar, é fazer esse exorcismo muito pessoal. O exorcismo dos nossos mortos. Creio que existiu na assistência um misto entre entendimento e/ou identificação. Para Eunice Muñoz, foi uma peça ao seu jeito (como chegou a referir), para confrontar-se com as suas dores e com os inúmeros passados que deixaram recordações.

Para mim, mera espectadora, foi um golpe e tanto confrontar-me com dores idênticas às minhas, das quais reconheci de imediato as mesmas perturbações, se não as mesmas, muito idênticas, decerto. A ilusão, o pensamento mágico que nos faz ser mais associativos do que racionais: se eu fizer x... então acontece y. "Se eu não deitar fora os seus sapatos, ele [John] conseguirá regressar a casa". Mostra-se que se "lida com a situação"; faz-se o ritual, faz-se a coisa certa. Trabalha-se no vazio preenchendo-o com subterfúgios de intenção racional.

Lembro-me de uma deixa interessante, da qual aqui resolvo deixar mais uma paráfrase: "cuidado com as manhãs, são a pior altura para a auto-piedade". Manhãs? E as tardes? E o horror das noites? Mas compreendi. Foi expressa essa insustentabilidade perante o adverso. Estar calma, ter dinheiro para a viagem, essa viagem simbólica pelo limbo dos reinos. Estar no controlo da situação, em que nada do que se faz pela saúde de alguém chega, em que o "tudo" não chega. Após o tudo falta mais um pouco, pouco esse onde nos detemos e onde encontramos o abismo.

Cenário e Vida

Em palco estão uma mesa, o livro [da Joan Didion], um copo com água, lenços, uma poltrona, música para intercalar os momentos em que a escuridão nos cobre e em que o cenário, com um intrincado de formas acutilantes, se move e deixa a descoberto, após essa terrífica catarse, um final, que será o final para a vida. Atenção. Não da vida, mas para a vida. Porque a vida tem cá uma força (como um dia me disseram) que por mais amargura, medos, perdas, sofrimentos para a morte, relança sempre no sentido nesse desenlace. Para a vida.
"Amo-te mais do que apenas mais um dia". E um dia alguém dirá "talvez amasse".

Obrigada Eunice. Bravo!

Aqui vos deixo a reportagem que foi publicada na TimeOut Lisboa, 11-17 NOV. 2009, escrita por Bárbara Cruz:



Veja a autora com o seu marido e leia um excerto do livro.

Como Eunice se prepara para o palco, no Jornal I, 16 NOV. 2009, por Vanda Marques.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Bons Humores

É bom uma pessoa chegar a casa, completamente arrasada e cansada do dia, bem como de outras coisas, e ter a oportunidade de encontrar textos que, à primeira leitura, fazem soltar as mais sinceras gargalhadas. É que isto de brincar com o que se gosta tem muito que se lhe diga. Não é para todos, infelizmente.

Este jocoso verbete é dedicado aos detentores de franco sentido de humor:
Verzweiflung: Devir

Obrigada Seele! Já brindei com um "copinho de vinho branco" e nem perdi tempo a pedir todas as outras iguarias (que já nem me lembro quais são!).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fadistas Cantam Amália



Teatro S. Luiz

9 E 10 OUT
FADISTAS CANTAM AMÁLIA
SEXTA E SÁBADO ÀS 23H30

Joana Amendoeira Voz
Celeste Rodrigues Voz
João Ferreira Rosa Voz
Pedro Amendoeira Guitarra Portuguesa
Pedro Pinhal Viola de Fado
Paulo Paz Contrabaixo e Baixo
José Fontes Rocha Guitarra Portuguesa
Diogo Clemente Viola de Fado
Joel Pina Viola Baixo

Concepção e Autoria Hélder Moutinho

Gostei muito! Foi um prazer ter ouvido Celeste Rodrigues ao vivo, que foi, principalmente, quem me levou a assistir este espectáculo. Adicionalmente, João Ferreira Rosa cantou uns belos fados e pude ter, também, a oportunidade única de ouvir Fontes Rocha e Joel Pina numas boas guitarradas. Ou seja, tendo em conta o objectivo inicial, saí ainda mais preenchida do que pensava. Estes senhores (e a Senhora) estão cheios de força e não é por acaso que fazem parte dos melhores.

Recordo-me especialmente da Dª Celeste a cantar Fado Celeste. Adorei!

Joana Amendoeira foi uma excelente anfitriã, sempre animada do início ao fim. Ainda pensei que a rapariga tivesse tomado qualquer coisinha para não ter parado de abanar a cabeça durante todo o espectáculo. Energia invejável, a dela! Já não direi o mesmo a cantar o fado, porque realmente o seu registo de voz e atitude ondulante não condizem com as minhas preferências.

Gostava só de fazer uma pergunta, e não me levem a mal: o que é que estava a fazer um contrabaixo no conjunto de acompanhamento? Por causa do seu famigerado "bafo"? Não desfazendo o talento de Paulo Paz, penso que o som estaria com uma excelente projecção e modelação com duas guitarras portuguesas e duas violas de fado, amplificadas por microfones, como estavam.

Gostei de ouvir alguns convidados, especialmente uma menina que cantou Amor de Mel Amor de Fel. Tímida e sensível, captou e transmitiu muito bem o que lhe ia na alma (ou o que se pensa que ia) ao cantar esse fado, deixando, por vezes, escapar um certo nervosismo.

Confesso que, para mim, o momento alto da noite foi quando desligaram os microfones e se cantou uma desgarrada, que tão bem se ouviu, assim ao natural, onde as vozes sobressaíram com as suas qualidades próprias.

Há uma coisa que se anda a perder, coisa essa que não abunda muito por terras de Portugal e que se chama boa educação. Neste caso, em que se ia ouvir Fado, a assistência devia primar pelo silêncio. Não é por acaso que ele é pedido, sugerido ou ordenado, quando se canta esse ritual que é o Fado. Pois há gente que prefere tecer comentários parvos em vez de ouvir e procurar envolver-se na música ou, caso não se goste deste ou daquele fado, pelo menos deixar que os outros fruam sem barulho de fundo. É que posso não ter ouvido de tísica, mas ouço o quanto baste.

Fora estes e outros pormenores foi, no meu entender e sentir, uma noite a recordar para sempre, pelas melhores razões.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Apoiado!

Artigo de opinião publicado no Jornal I.
Passo a citar:

A Rosa (e os Enjeitados)
por António Pires, Publicado em 08 de Outubro de 2009

O António Variações cantava, em "Todos Temos Amália na Voz": "Dei o teu nome à minha terra/Dei o teu nome à minha arte/A tua vida é primavera/A tua voz é eternidade", antes de, no refrão, dizer "Todos nós temos Amália na voz". E Variações, nesta canção composta muitos anos antes da morte de Amália Rodrigues - ele, aliás, viria a morrer muito mais cedo que a sua musa -, resumiu na perfeição o amor, o respeito e a admiração que milhões de portugueses sentiram e sentem pelo ícone maior do fado de Lisboa.

Não são de mais, portanto, as inúmeras iniciativas que nesta e nas últimas semanas homenagearam a memória de Amália.

A edição em CD de temas inéditos dos primeiros tempos da cantora; extensas colecções de discos; concertos de tributo (de gente do fado e de fora dele); conferências; exposições; o filme "Amália" a passar na RTP... Tudo isso é mais que justo, e se calhar ainda é pouco. Mas não deixa de ser triste - como o fado - pensar que homenagear Amália é importante, mas que igualmente importante seria homenagear muitos outros. Há dois anos passaram 25 anos sobre a morte de Alfredo Marceneiro. O ano passado, 20 sobre o falecimento de Francisco José. Alguém os recordou? Neste mesmo ano de 2009 passam dez anos, tal como com Amália, sobre o desaparecimento de Lucília do Carmo. Onde estão as comemorações? Max morreu em Maio de 1980. Alguém sabe de alguma coisa que esteja a ser feita para a celebração dos 30 anos da sua morte, daqui por alguns meses?


Opinião que vem corroborar aquilo em que tenho martelado ultimamente. Felizmente, também nos jornais, surgem opiniões favoráveis à diversidade nas homenagens aos artistas da nossa cultura, neste caso do Fado, que bem merecem.

Todavia, existem por aí questões que se abrem sobre se seria válido, nos dias de hoje, homenagear um/uma fadista, ou seja, se teria adesão por parte do público para realizar a série de eventos como a que temos vindo a assistir. Apesar de me ter parecido absurdo, de início, a mera colocação desta questão, procurei distanciar-me e pensar no quão plausível poderá ser...! Apurou-se que a Amália ainda seria apreciada neste tempo, mas a Lucília do Carmo..? Ou então imaginem lá a Berta Cardoso, com um cartaz à Andy Warhol espalhado por Lisboa, anunciando uma série de eventos que reunissem vários media. Muita "sorte" teve a Hermínia Silva em ter sido recordada pelos programas da manhã, nos diferentes canais de TV, por ocasião do centenário do seu nascimento e de ter sido homenageada na RTP1. Nada que tivesse a ver com os eventos e estudos organizados em torno de Amália.

No entanto, não posso deixar de acusar quem organiza estes eventos e orienta, de certa forma, os interesses do público, para algo que, em vez de ser sempre um mesmo dado adquirido (como a Amália ainda é no mercado), pudesse proceder-se, também, a uma recuperação (de outros fadistas), colocada em evidência no nosso tempo e aproveitada pela sua novidade.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Fado Tradicional HOJE

Li um tópico sobre o fado tradicional, no Portal do Fado, e deu-me a súbita vontade de escrever um verbete sobre o assunto, que este blogue vive muito dessa deliciosa espontaneidade. Não é que já não tenha tratado a situação noutros "posts", mesmo em comentários, neste e noutros blogues, mas sinto necessidade de discorrer (a bem escorrer!) um pouco mais sobre o fado tradicional, o genuíno, aquele que, na minha opinião e gosto pessoal é O Tal.

Só queria dizer que aquilo que acontece com o Fado é o mesmo que acontece com outras formas de arte, em especial, de música. Existem as origens do estilo, seja ele qual for (e o do Fado, que belo e lendário é...), a sua consumação, e todas as variantes e recriações que possam fazer-se ao longo dos tempos. Se um estilo não for apelativo e apaixonante o suficiente para ser recriado pelos seus amantes (que muitas vezes são confundidos com os seus detractores; a bem ou a mal, quem ama também destrói), então provavelmente não assistiríamos a uma projecção e constante actualização no Tempo. É assim que surge uma Amália em peso, neste ano de 2009, com vários acontecimentos artísticos que se julgariam insólitos no Fado, como por exemplo a criação de uma Banda Desenhada! É assim que vai surgindo um renovado interesse na Obra deste Fado. Mas, coisa interessante de se notar, é que esses novos amantes da Canção Nacional (utilizo esta designação mais por amor do que por sentido nos dias que correm) não me parece que tenham muito interesse em ir jantar ao Faia, ou ao Mesa de Frades, ou ao Luso, assim de repente, para "curtir" essa nova onda, com muita Portugalidade e muita actualidade. Parece-me mais que apostarão num rali pelos concertos dos Hoje, dos Deolinda, dos Oquestrada, entre outros, a saber, Ana Moura, Mariza, e afins.

Portanto, actualizações de importâncias e preponderâncias na Arte existem sempre. Não se espere é que também não existam actualizações nas atitudes, nos gostos, nas vontades e naquilo que se faz com essa Arte. E quem fica para trás tem de aceitar a condição a que o seu gosto e vontade se propõe. Aqui este soldado, por ser soldado, fosse ele de qualquer outra patente dentro desta militância, sempre apreciou o lado purista de qualquer género. Porém há que entender que existam aqueles que prefiram estar na vanguarda.

Não confundir tudo isto, que ao desvirtuamento da boa arte da fadistagem diz respeito, com a falta de informação e divulgação de fados, fadistas, compositores, acompanhantes, com os factos históricos pouco precisos e obscuros, com as autorias trocadas... É que o Fado, assim como a cidade de Lisboa, é também um palimpsesto. No fundo, é isso que lhe dá encanto, ou seja, essa despreocupação de registo. Bem notou o Marceneiro (o Alfredo), que tinha sessões (as chamadas "jam sessions" de agora) de improvisação com o Armandinho, que muito se perdeu, para além do que se ganhou com essa parceria, pois não existiam as actuais possibilidades de gravação dessas experiências. Agora as pessoas gravam tudo, registam, posterizam, personalizam, mas também efemerizam e mostram o lado perene, sustido apenas pelas breves recordações de alguns. Muitas vezes intencionalmente. É assim que surgem objectos e gravações de culto (e lá estou eu a "bater" no mesmo), que se tornam autênticos objectos de coleccionador apenas conhecidos por quem nutre um interesse que persegue com minúcia. Mas não é por acaso que chamo a atenção para aquilo que é "culto" fabricado e "culto" como raridade strictu sensu.

Para finalizar, o fado tradicional ou histórico, hoje, não perdeu as suas qualidades. Perdeu o interesse do público. É na recepção que está o "problema" e não na mera existência de um fado lavado e desvirtuado. Como o 'bosco' (o autor do tópico a que fiz referência) fez notar, e muito bem, as pessoas sabem ver a diferença e tudo assenta na escolha do que engolem. Talvez, quando a moda do fado a que actualmente assistimos, virar o disco, mas não tocar o mesmo, possa começar a surgir interesse noutro espectro de fadistas, os históricos e essenciais.

Como ilustração nada melhor do que ouvir este fado que veio tão a propósito.

Hermínia Silva - Fado Pirim-Pirim (Aníbal Nazaré / Frederico Valério)

domingo, 27 de setembro de 2009

Uma imagem de Berta Cardoso



Uma imagem icónica denuncia directamente uma representação estruturada pela majestade hierática. Será icónica para o que é domínio do simbólico, como hierática para símbolo de poder, de sagrado. Simbólica porque denuncia o contexto da personalidade nela inscrita e poderosa porque anuncia a sua influência por quem se deixa enlevar. Não só para quem deixa, como para quem não se liga; imagens assim não são catalisadoras de indiferença, muito pelo contrário. São cenários. Tanto para quem percebe do que ali se conta, naqueles traços, nas roupas, no penteado, esse retrato de época que choca pela presença, como para quem também conheceu a voz, a influência e a personalidade.
Imagens que são Fado, que são Símbolo, que são esse gozo espelhado no olhar, são imagens assim. Puras, estreitas, contidas, mas em estado de ebulição. Imagens de quem personifica e actua sobre a história: uma actriz fiel, uma mundana jocosa, uma fabricante de ilusões, uma dominadora do sensível e assoberbada pelo espírito (espirituosa!). Tantas foram, estas e outras, as qualificações latentes que vislumbrei neste irrecusável convite à interpretação.

Porque quando a fotografia deixa esse sentido do presente, atingindo um patamar do significante, aparente (ou Aparição), possui essa magia para deixar de ser retrato ou situação, para passar a
significar, a deslocar o estatuto. Se este fenómeno acontece com a larga maioria destes obturadores do quotidiano, esta foi a imagem que me trouxe outras viagens e outros sentidos. Para mim, uma imagem icónica do Fado, na figura de quem, sabemos nós, despertou paixões para durar uma vida inteira. Aparentemente retrato de silêncio, ensimesmado, quase autista, transformou-se nessa catarse do sentido e manutenção do sagrado que dura até aos dias de hoje, não para todos, infelizmente. Esta é culto e classe.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Maria da Conceição (1958): Fados




O álbum da criadora do fado "Mãe Preta" já chegou ao Soldado!
À semelhança do que foi indicado na notícia e comentários anteriores, reforço que foi de louvar a iniciativa desta reedição em formato digital dos 12 fados seleccionados do repertório da fadista Maria da Conceição.

Como tem sido hábito comentar sobre o "pacote", devo frisar que este lançamento da Estoril desilude um pouco pela ausência de livrinho, nem que seja com os poemas impressos, constituindo assim um dos pontos menos positivos desta edição. Compreende-se, porém, que seja inevitável construir edições simples, gastando o mínimo possível de recursos e vendendo a um preço que denuncia o escasso número de vendas. Vale pela música e pela divulgação.

O conjunto de temas é constituído por fados tradicionais, sobretudo fados-canção, alguns com belíssimos poemas da autoria do Príncipe dos Poetas. Fica o registo da excelência da guitarra portuguesa de Casimiro Ramos, da viola de Miguel Ramos e da melodiosa voz de Maria da Conceição. Fica na capa do CD a indicação de que, quem adquirir este álbum, irá encontrar a versão original de "Mãe Preta", não censurada, diga-se, versão essa que ganhou popularidade meteórica na voz de Amália Rodrigues, pelas palavras de David Mourão-Ferreira, a que se deu o título de "Barco Negro".

Alinhamento:

Menina Tagarela (Acácio Gomes/ Belo Marques)
Amor Filial (Acácio Gomes/ M. José Figueiredo)
Triste Viuvinha (R. Ferreira/ Artur Fonseca)
Janelas de Namorar (João Linhares Barbosa/ Alfredo Mendes)
Disse-me, Disse-me (Pedro Caetano/ Claudionar)
*Mentira (Dr. Guilherme Pereira/ A. Machado)
Mãe Preta (Piratini/ Caco Velho)
Canção de Sempre (Belo Marques)
Sempre Noivo (João Linhares Barbosa/ Jaime Santos)
Pequena que já Namoras (João Linhares Barbosa/ Jaime Santos)
Luz Dourada (João Linhares Barbosa)
Baião da Saudade (Fernando Jaques)



Mãe Preta

Para ouvir/ver o vídeo "Mãe Preta" criado pela Tia Macheta clique aqui.

Em fóruns de música onde cheguei a participar costumava discutir-se, sempre que saía um álbum, a necessidade generalizada em encontrar aquela música basilar que o marcava indelevelmente e de onde parece que tudo o resto se projectava. Pois, para este Soldado, aquela música que valeu a pena, que marcou as sucessivas audições, que justificou a aquisição, nem que viesse apenas embrulhada em película aderente, foi o fado "Mentira". É esse que aqui apresento:

Maria da Conceição - Mentira




Desenho da autoria de TiMariaBenta

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Reedição de 12 fados de Maria da Conceição em formato digital

Boas notícias, com excelente sentido de oportunidade.
Sempre ajudam a esclarecer.
O lançamento ficou a cargo da etiqueta Estoril que, juntamente com outros, dedica-se habilmente a fazer-nos recordar grandes vozes do passado. Veja-se o caso de Berta Cardoso.
Agora, também a maravilhosa voz de Maria da Conceição estará disponibilizada em formato digital, de grande utilidade para a divulgação mais "mainstream" do fado... porque toda a gente sabe que o vinil não é para todos, ora bem. "Mainstream´" é que a voz de Maria da Conceição não é... apenas o formato digital; no entanto, deseja-se fervorosamente que isto ajude a esclarecer algumas mentes, no que respeita à boa arte de designar autorias, recorrendo a factos, preferencialmente, e não à criatividade.
É ponto assente que não existem muitos ouvintes que tenham interesse nesta coisa das autorias. Se ouvem Amália Rodrigues, porque são os fados que estão mais à mão e, fazendo eles todo o sentido na sua voz, não têm tendência para procurar quais foram as primeiras vozes a difundi-los, nem que o tenham sido apenas ("apenas" e, também, "não só") em solo nacional. Nem vozes e nem autores!
No conjunto de 12 fados apresentados nesta reedição, segundo o jornal Sol, constam "Mãe Preta" e o conhecido "Casa Portuguesa", cantados pela voz que lhes deu corpo em primeiro lugar. Outras gravações de 1958 são recuperadas daquele que foi um repertório de "fado tradicional" e "fado com refrão".
O fado "Mãe Preta", da autoria de Caco Velho e Piratini, tornou-se conhecido por "Barco Negro", a mesma música mas com outro poema, da autoria de David Mourão-Ferreira, que se corporizou na profunda voz de Amália Rodrigues, atravessando o Mundo com ele, materializa-se agora na voz de Maria da Conceição (e sem censura...). O fado "Casa portuguesa", da autoria de Reinaldo Ferreira e Artur Fonseca, trouxe-o Maria da Conceição aquando do seu regresso de Angola e marca também presença neste conjunto de 12 fados.
Fados para recordar, cuja voz que os eleva (ou enleva) caiu no esquecimento geral, como o Fado, 'tá visto, que perdeu a abrangência que outrora teve, resumido como está, na memória colectiva, em menos de meia dúzia de nomes. É lá isto a Canção Nacional...

segunda-feira, 27 de julho de 2009

MARIA TERESA DE NORONHA

Aqui apresenta-se a voz de Maria Teresa do Carmo de Noronha Guimarães Serôdio (1918-1993), cantando três fados, escolhidos a meu gosto, de entre um repertório riquíssimo, onde se destaca o fado Rosa Enjeitada, Fado das Horas, Alexandrino, Fado Anadia, entre outros. A voz de Maria Teresa de Noronha pode considerar-se inevitavelmente cativante, despertando paixões e reunindo consenso por parte de uma crítica que reconheceu o seu talento.
Voz soprano, cuja característica maior será o excelente alcance que atinge quando canta as notas agudas, perdendo a força quando a voz escoa pelas tonalidades mais graves, edificando uma escala dotada de intrínseco dramatismo. Esse dramatismo soube ela construir pela escolha do seu repertório (musical e lírico, constituído maioritariamente por poemas sobre amor/tristeza/saudade); pela modelação da sua voz, na utilização exímia dos pianinhos, que definem uma das suas principais qualidades enquanto fadista, assim como das ornamentações musicais, enquadradas e condizentes com a sua particular arte de expressar o fado.
Maria Teresa de Noronha não foi mulher do povo ou cantadeira das vielas de Alfama. Tal entende-se pela nobreza da sua voz, que parece contar a sua própria história. Mulher de linhagem aristocrática, foi filha de D. António Maria de Sales do Carmo de Noronha e de D. Maria Carlota Appleton de Noronha Cordeiro Feio. Casou com o 3º conde de Sabrosa, de sua graça José António Barbosa de Guimarães Serôdio, também ele rendido ao fado como guitarrista amador de profunda sensibilidade artística, e privou com os demais fadistas nos conceituados retiros de Lisboa.


Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha e José António Barbosa de Guimarães Serôdio n'O Faia.


Pessoa de fino trato, Maria Teresa de Noronha foi, segundo testemunham, uma mulher de grande coração, porém não muito calorosa. Visualize-se o oposto de Hermínia Silva, no que a ser calorosa diz respeito! Tem piada como o fado congrega os mais variados tipos sociais.
Maria Teresa de Noronha foi, e continua a ser, uma referência fortíssima (senão paradigmática) do chamado Fado Aristocrático, mesmo quando aristocrática era apenas ela, bem como os outros fadistas de nobre linhagem que abraçaram a Canção Nacional. O fado que cantou foi, pois, do povo e bem castiço, tanto que não era necessário, ou lógico, banhar-se em sangue azul, em termos estilísticos e musicais, para acontecer a uma bela voz que tão bem o soube cantar!


- Desengano, a cantar o amor e desamor, cheia de graciosidade.



DESENGANO
(Mário Pissarra /José Marques)

E adorei-te, acreditei
No bem que eu ambicionei
Dum amor sinceridade
As tuas promessas puras
E o calor das duas juras
Tinham a luz da verdade

Mas um dia te esqueceste
De tudo o que me disseste
Em confissões tão ardentes
Iludiste duas vidas
Com mil palavras fingidas
Que não sentiste nem sentes

Ao contemplar o passado
Como um golpe já fechado
Que ainda sinto doer
Vejo em teus falsos carinhos
Que as rosas têm espinhos
E também fazem sofrer.


- Na sua peculiar interpretação do Fado Hilário, destacam-se as potencialidades operáticas da sua voz.



FADO HILÁRIO
(Augusto Hilário)

Para cantar procurei
As minhas mágoas sem fim
Eram tantas que acabei
Por chorar com dó de mim

Passarinho, mesmo preso
És mais livre do que eu
Tu vives num cativeiro
E eu na dor que Deus me deu

Já não posso mais sofrer
Com tão amarga saudade
Dai-me a esmola de o esquecer
Minha mãe, por caridade


- De temática saudosista, o seguinte fado demonstra a expressividade e sensibilidade no domínio da expressão e da palavra.



FADO DA IDANHA
(Ricardo Borges de Sousa)

Quem me dera que voltasse
O doce tempo de além
Sentada junto à lareira
A ouvir cantar minha mãe

Ó tempo, tempo ditoso
Da vida eterno sorriso
Que terras em paraíso
Um mundo tão enganoso
Quanto à minha mãe, choroso
Lhe pôs um beijo na face
Lhe pedia que cantasse
Uma trova de bonança
E esse tempo de criança
Quem me dera que voltasse

Tempos que não voltam mais
Da nossa infância ridente
Em que eu vivia contente
Correndo atrás dos pardais
Das paredes dos casais
Que a nossa aldeia contém
Branquinhas como a cecem
Mudas como a gratidão
E recordam com paixão
O doce tempo de além


Fontes:
Sucena, E., Lisboa, o Fado e os Fadistas, Nova Vega e Autor, 2008
N'O Faia
Wiki PT
Wiki EN
Lisboa no Guiness
Fadistas Como Eu Sou

terça-feira, 16 de junho de 2009

Ao fado que não está farto de ser cantado

Aos mais distraídos, queria alertar para a existência de um pequeno ensaio, não muito pequeno para o que costuma figurar em blogues, por isso encham-se de tempo para saborear cada palavra glosada por uma amante e conhecedora de fado convicta (Okawa Ryuko), que resolveu explanar o seu elogio, contra todos os preconceitos que parecem minar o fado como forma de arte inteligente, surpreendente e com uma sensibilidade emocional própria. Não esperem uma história do fado. Esperem (e leiam) antes um conjunto de características básicas do fado ilustradas com uma maravilhosa selecção de poemas, fotografias, bem como referências a outras obras escritas e a todo um espectro de fadistas, músicos, poetas.

Num texto inteligentemente estruturado contamos com uma introdução aos seus objectivos, expressando uma opinião escrita com um sentido de humor que nos envolve de imediato. Será o fado apenas piegas? Triste, choradinho e desgraçado? E porque é que parece assim? Quem se levanta para criticar de imediato as letras da música pop? Faz lembrar aquele estigma do “cantado em inglês soa sempre melhor”. O texto refere também a maturidade do fado, o que faz com que algumas almas pensem que é música para idosos, sem pensarem porque será que a maioria das pessoas com mais idade a entendem e choram com ela (calma, também há lugar para dar de beber à alegria).

Como sonoridade que permanentemente procura a qualidade da sua música e letras, é capaz de garantir essa mesma qualidade mesmo quando surge com poemas menos bem conseguidos (“Ai Mouraria”), com estruturas musicais mais pobres (se é que isso é possível), com letras a que normalmente não se reconhece qualidade, para quem se ocupa a comparar Linhares Barbosa com Luís de Camões. O fado canta sobre o amor, sobre a saudade, sobre a noite, sobre a alegria, sobre a esperança, sobre a história mítica, sobre as caravelas, sobre si próprio (e a auto referencialidade do fado é um dos pontos mais fortes do ensaio, na minha opinião) e sobre a falsa necessidade de renová-lo, deixá-lo lavadinho, polidinho, preparado para o consumo contemporâneo.

O fado é elástico mantendo ao mesmo tempo a sua integridade. Somos tão donos do fado como da língua portuguesa, embora às vezes apeteça agarrar e dizer que é nosso, dizer "é assim". Discorre-se ainda sobre o símbolo da guitarra para o povo português, bem como sobre o peso dos instrumentos de cordas na nossa cultura (que tema infindável para pesquisar...). Tem igualmente destaque a proveniência do fado, da nobreza e do povo, projectado na história de amor entre a prostituta Severa e o Conde de Vimioso. Li uma entrevista com Carlos do Carmo que indica que essas relações que existiam entre nobreza e povo foram rejeitadas pela burguesia. Cito a autora: “Nunca houve um Fado aristocrático, mas houve sempre aristocratas fadistas. Porque não perverteram o espírito do Fado, faziam antes parte dele.”

Mostra-nos, por conseguinte, como o fado registou a existência dos tristes e desgraçados da vida, sejam eles bêbados, prostitutas, ladrões, mendigos, pândegos da mais variada espécie (o fado negro das vielas...). O fado canta a vida que a todos pertence e por todos passa, deixando cicatrizes na memória, no corpo, na alma, na voz.

A autora reflecte ainda sobre o sentido sagrado do fado. Será vida e fado a mesma coisa? Ou será a expressão do fado decorrente da vida, porém destacando-se dela, legitimando-se como forma de arte autónoma? Reflecte-se ainda sobre a geografia do fado, que se centra nos bairros típicos de Lisboa e sobre qual o reflexo que o espaço tem no imaginário desta arte, o que nos leva a projectar a sua filosofia, a maturação dos seus ideais da sorte, do destino, da morte, da temporalidade...
Agora é convosco.
Dragon's Quest.