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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Dois Tons

Ercília e Ercília.
Hoje, no laboratório de análises clínicas, conheci a Dª Ercília, que me disse, "olhe, o que não faz ter uma mãe!...". Eu respondi que "sim, especialmente quem tem a minha", que isto há ter mães e ter Mães. Eu, além de ter Mãe, tenho uma Gratidão do tamanho do Mundo.

Ora aqui vai um fadinho para a Dª Ercília (visto que à minha Mãe eu dedico cada um). A ver se a minha vizinha da frente conhece este poema de algum lado...

Ercília Costa canta Fado Dois Tons (sem informação no disco / Alberto Costa Lima)
Guitarra: Armandinho, Viola: Georgino de Sousa
Gravado em Madrid, 1930




Foi quando Deus fez os sóis
As ilusões, as tristezas
Que entristeceu e depois
Fez as canções portuguesas

Quando Deus criou as rosas
Num paraíso encantado
Caiu uma e desfolhou-se
E dela nasceu o fado

Junto aos marcos da fronteira
Há um letreiro gravado
Que nos diz "entre quem queira,
Mas só quem goste do fado"

Aos que vêm pelo mar
Diz-lhes a onda na barra
"Entre quem saiba chorar,
Ao ouvir uma guitarra"

terça-feira, 23 de março de 2010

Desgarrada

Recordem:


Joaquim Campos


Ercília Costa


António Menano


Joaquim Campos, Ercília Costa, António Menano cantam A Desgarrada (Popular - Fernando Teles)
Guitarra - Armandinho
Viola - Georgino de Sousa



Há no coração do homem
Tanta vontade de amar
Que as penas não o consomem
Por mais que o façam penar

É engano, há na mulher
Um amor mais puro e forte
Pois quando o coração quer
Vai o amor além da morte

Duma leve simpatia
Muitas vezes sem se querer
Vai crescendo tanto e tanto
Que d'amor nos faz morrer

Quando o homem ama e quer
Com toda a força da alma
Não há nenhuma mulher
Que em amor lhe leve a palma

Quando os nossos peitos tomem
Uma paixão verdadeira
Tanto a mulher como o homem
Amam da mesma maneira

Há sempre coisas mesquinhas
No perceber de quem ama
O ninho das andorinhas
É construído de lama


É uma desgarrada de ouro de uma época não menos áurea. Puro fado, isso sim! Intemporal, na música, nos intérpretes e nas palavras. Até porque, quando por amor se sofre, a lama é sempre a mesma.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ARQUIVOS DO FADO - ERCÍLIA COSTA




Por fim, sendo os últimos sempre os primeiros, no seguimento do que se tem exposto aqui e aqui, mais uma fadista, cujos registos eram inexistentes em lojas e grandes superfícies, pôde agora integrar esses catálogos e figurar entre os melhores (e piores) que actualmente se comercializam. Não que seja figura de destaque nos escaparates, ou que alguma vez o tenha sido (no contexto desta colecção), a par de Maria Alice... É apenas mais um daqueles paraísos perdidos, mesmo perdidos, no meio da mole indefinida de discos e de destaques que não merecem sequer honras de figuração.

Continuo a focar que muito me apraz ouvir estas gravações recuperadas dos 78rpm. Significa que, hoje em dia, procura valorizar-se aquelas que são agora autênticas peças de colecção, digitalizando-as e assim preservando-as do desgaste da audição. E servirá, também, para aplacar o desejo dos amantes do que outrora foi o fado mainstream e que agora é mais underground que os esgotos de Lisboa. Os amantes fadistas e não fadistas agradecerão, por certo, a oportunidade única de fruir novamente a voz de Ercília Costa, "que no Fado foi rainha", sem terem de ser coleccionadores destes fonogramas. Claro que nada substitui o som provindo da Vitrola, mas o registo destes 20 fados trazem uma aura tão doce e antiga que se deixa apreciar na permeabilidade dos sentidos. Penso que a era da alta fidelidade deixou brechas para se apreciar este género de gravações, além de terem ascendido à justa posição de registos de culto, aos quais os apreciadores de antiguidades não serão indiferentes. É o que a tecnologia permite: o registo da Antiguidade em CD, para mais, fazendo-a soar bem, possibilitando a transmissão aos vindouros que forem dotados de uma alma vintage.

O impecável e sucinto texto de Maria de São José Côrte-Real, presente no livrinho que acompanha este lançamento, explora os caminhos do repertório de Ercília Costa, que vão desde a auto-referencialidade do fado (que aqui resolvi apresentar em "Fado do Passado") passando pelo fado sobre as ruas de Alfama; sobre a cidade de Lisboa destaca-se o "Fado Lisboa", outrora cantado na Revista "O Canto da Cigarra"; uma Desgarrada, onde António Menano se apresenta a cantar à maneira do fado de Coimbra, interpretado também por Joaquim Campos, a par de Ercília Costa, mostrando duas maneiras diferentes de cantar o fado, enaltecendo assim a diversidade e o dramatismo. Pelos fados sobre ceguinhos, sobre o amor filial e sobre desgostos e amarguras motivados pelo Amor, Ercília Costa debitou as suas palavras sentidas.

O fado que escolhi para partilhar convosco não aconteceu apenas porque é passadista ou porque é determinado pela referência a si mesmo ou porque versa sobre três fadistas basilares (Severa, Cesária, Maria Vitória), mas especialmente porque tem um intróito instrumental que constitui a primeira secção do fado. Maria de São José Côrte-Real bem nota essa distinta característica performativa, apanágio do fado dos anos 30, um "modelo musical", como ela designa, caído em desuso provavelmente por constrangimentos relacionados com os tempos de gravação. Se caíu em desuso na altura, bem se vê que actualmente as canções também apresentam uma versão vulgarmente apelidada de radio edit, para passarem nas rádios, caso os originais excedam os parâmetros temporários que uma canção supostamente deverá ter para transmissão.

Nesta época de grandes convulsões históricas enformadas pelo dealbar das ditaduras na Europa e em Portugal, Ercília Costa, juntamente com Armandinho e outros fadistas, viajava e vestia o seu fado, que se encontrava num momento flamejante, afirmando-se e definindo-se em perfeita sincronia com outras formas de arte, sejam o cinema, o teatro de revista, ou as artes plásticas.

Ercília Costa As Primeiras Gravações 1929-1930

1. Fado da Alfama (Raul Ferrão / V. Bastos)
2. Fado do Passado (M. de Lencastre / V. Bastos)
3. O Meu Filho (Popular / Henrique Rego)
4. Fado Tango (Joaquim Campos / Fernando Telles)
5. Negros Traços (João David / Fernando Telles)
6. Desilusão (Campos - Proença / Henrique Rego)
7. Fado Corrido (Popular / Mário Leitão de Sá)
8. Um Desgosto (Alfredo dos Santos / Mário Fernandes)
9. Fado Lisboa (Raul Ferrão / Álvaro Leal)
10. A Minha Vida (Popular / sem informação no disco)
11. Fado Aida (Alfredo Duarte / João da Mata)
12. Fado Dois Tons (sem informação no disco / Alberto Costa Lima)
13. Fado Ercília (Armandinho / Júlio Guimarães)
14. Fado sem Pernas (Guilherme Coração / Manuel Maria)
15. A Desgarrada (Popular / Fernando Telles)
16. Fado da Mouraria (Popular / T.L.R.)
17. Meu Tormento (sem informação no disco)
18. Saudades que Matam (sem informação no disco)
19. O Filho Ceguinho (Ercília Costa / Amadeu do Vale)
20. Duas Glórias (Popular / João da Mata)


Fado do Passado (M. de Lencastre / V. Bastos)
Lisboa, 1929



Cantado por meretrizes
Chorando sua quimera
O fado criou raízes
Na garganta da Severa

O fado em várias orgias
Descreveu a sorte vária
Entre pranto e alegrias
Cantado pela Cesária

É filho de Portugal
E tem gravado na história
A fadista divinal
Que foi Maria Vitória


Leia uma biografia de Ercília Costa.