terça-feira, 15 de junho de 2010

PARABÉNS atrasados SOLDADO DO FADO!




Ninguém reparou....?

Quem é que repara no primeiro aniversário de um blogue, certo? Até a mim ia passando a efeméride!

Foi ontem, dia 14 de Junho, que o Soldado do Fado fez 1 aninho de militância. Não é muito mas para quem nem lhe dava 6 meses (eu mesma), está de Parabéns!

Deixo um agradecimento muito especial aos leitores que acompanham o blogue desde início, que têm sempre demonstrado amor e interesse por esta arte e pelo que eventualmente eu tenha para dizer. Bem hajam!

Obrigada vizinha da frente, por durante este ano ter enriquecido o meu conhecimento sobre a fadistagem. Claro que este blogue também se tornou um reflexo do que me deu.

E mais uma vez recordo a rapariga dos Olhos Garotos. Não fosse ela, não haveria Fado nem Soldado...

Um grande abraço a todos!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Dois Tons

Ercília e Ercília.
Hoje, no laboratório de análises clínicas, conheci a Dª Ercília, que me disse, "olhe, o que não faz ter uma mãe!...". Eu respondi que "sim, especialmente quem tem a minha", que isto há ter mães e ter Mães. Eu, além de ter Mãe, tenho uma Gratidão do tamanho do Mundo.

Ora aqui vai um fadinho para a Dª Ercília (visto que à minha Mãe eu dedico cada um). A ver se a minha vizinha da frente conhece este poema de algum lado...

Ercília Costa canta Fado Dois Tons (sem informação no disco / Alberto Costa Lima)
Guitarra: Armandinho, Viola: Georgino de Sousa
Gravado em Madrid, 1930




Foi quando Deus fez os sóis
As ilusões, as tristezas
Que entristeceu e depois
Fez as canções portuguesas

Quando Deus criou as rosas
Num paraíso encantado
Caiu uma e desfolhou-se
E dela nasceu o fado

Junto aos marcos da fronteira
Há um letreiro gravado
Que nos diz "entre quem queira,
Mas só quem goste do fado"

Aos que vêm pelo mar
Diz-lhes a onda na barra
"Entre quem saiba chorar,
Ao ouvir uma guitarra"

domingo, 23 de maio de 2010

Da Poesia no Fado

Ando por aqui a cogitar acerca da poesia ligada ao fado e também acerca da poesia que a ele se ligou. Foram várias leituras fortuitas que deram a pensar que poderá estar a surgir alguma actualização da poesia dita “popular”, ou seja, essas tais letras de fado que bafejaram com ares bem portugueses a boca dos nossos fadistas antigos.

Hão-de os doutos perdoar-me a análise simplista, porque actualmente não me toca a paciência, eu penso que muita desta querela sobre a fina poesia detém-se, em parte, com a referência ao real. A poesia de um Linhares Barbosa apresenta equivalentes ao real, ao quotidiano, àquilo que se vivencia. A poesia de Pedro Homem de Mello, ou de Alexandre O’Neill, oferece outro campo de possibilidades interpretativas, assim como os poemas de Camões.

Ter trazido para o fado poemas para os quais se escreveram canções (recorde-se a produção de Alain Oulman) não é nada transcendente, à primeira impressão. Porém, subtraiu aquele cunho castiço e popular aos poemas que andavam nas bocas do povo. O fado complicou-se sobremaneira quando começaram a existir muitas perdas dessa referência ao dia e passaram a existir referências ao conceito. As referências ao quotidiano não deixariam de pontuar algumas metamorfoses do sentido (nem que fosse de humor...). Quando o conceito aconteceu, o fado intelectualizou-se, tendo afastado uns e aproximando outros; e também mantendo alguns: aqueles que tiveram a clareza de espírito para conseguirem passear-se nesse limbo. Na música aconteceu o mesmo.

No entanto, assim como agora surge uma renovada importância dada ao Neo-Realismo (que até já tem museu próprio), ao que a pesada mão da História da Arte resolveu dar um desconto por esse malfadado movimento ter surgido instrumentalizado pelo comunismo e tão vinculado ao real (ao real, na representação); acredito que comece a surgir, também, futuramente, uma actualização das formas de poesia dita popular, e que as mentes se apercebam da validade artística e das soluções geniais adoptadas pelos poetas que escreveram para o fado. É que esses poemas podem também viver sem a música, assim como a poesia Camões, contudo, sem a mesma autonomia, que da música os acerca.

Não me acusa nenhum preconceito quando leio poemas carregados de histórias de faca e alguidar e de sentimentalismos amargurados, como sendo poesia série B. É evidente que existiram letras de fado de engenho duvidoso, que são apreciadas pela sua ingenuidade, e também surgiram poemas, que posteriormente integraram o fado, e que muitos ainda continuam a cantar. É que, no fado, além da validade artística, seja lá o que isso significa, “artisticidade”, ou mera qualidade (se é que “mera” e “qualidade” podem vir relacionadas), privilegia-se a autenticidade, que é invariavelmente sentida pelos demais. É difícil não reconhecer o carácter épico do poema “Lés a Lés” de Linhares Barbosa, que Berta Cardoso tão bem cantou, tendo-se estabelecido esse enriquecimento mútuo.

§



Este texto, agora com algumas modificações, foi escrito no ano passado, e recordo-me que foi inspirado aqui. Trata-se, porventura, de um dos melhores ensaios sobre as particulares características da obra poética de João Linhares Barbosa. Aliás, todo o blogue Guitarras de Lisboa é um ensaio laudatório do Fado, incontornável para melómanos inquietos.

No seguimento desta exposição sobre poemas para fado, letras de fado, poemas musicados e outras semânticas que tais, deixo-vos um daqueles fadinhos fofinhos que vão muito bem com esta tarde nebulosa de Domingo. Quem descobrir qual a criadora deste fado ganha o prémio Soldadinho de Chumbo.

Para já, fiquemos com Maria Amélia Proença. Nascida em Lisboa em 1938, começou a cantar desde os 8 anos, quiçá antes. Integrou o elenco das principais casas de fado, entre elas, o Café Luso e a Adega Machado. Dona de uma força interior expelida pelo seu cantar, é uma das poucas fadistas que se mantém no fado tradicional, território onde afirma sentir-se melhor. Cantou letras de Carlos Conde, outro grande da nossa poesia popular. Ainda se mantêm no activo, encontrando-se entre as fadistas vivas mais antigas. Haja saúde.


Maria Amélia Proença canta Brincos Para Brincar (João Linhares Barbosa / Francisco Carvalhinho)




Quando eu era pequenina
P’ra me enfeitar as orelhas
Minha mãe punha-me às vezes
Quatro cerejas vermelhas

E toda tola lembro-me ainda
Que ia p’rá escola vaidosa e linda
Brincos vermelhos a dar que dar
Pedia espelhos p’ra me mirar

Diziam todas que bem lhe fica
Lembra nos modos menina rica
Via-os revia-os como riqueza
Depois comia-os à sobremesa

Um dia as mais raparigas
Filhas como eu da pobreza
Puseram-me nas orelhas
Dois brinquinhos de princesa

E toda triques faces coradas
Ia aos despiques nas desfolhadas
Vinham meus brincos de algum vergel
Não punham vincos na minha pele

Depois mais tarde vi-te e amei
Deste-me brincos de ouro de lei
Bendito sejas mas na verdade
Vejo cerejas sinto saudade


Letra: http://restaurante-fadomaior.blogspot.com/
Biografia: http://macua.blogs.com/o_fado_e_portugal/2006/10/maria_amlia_pro.html

domingo, 16 de maio de 2010

Fados à Conversa: Carminho no CCB




Estava eu a "partir naquela estrada" ("private joke", para quem esteve no CCB, a ver e ouvir Carminho) e a pensar o que me esperaria nesta solarenga tarde de Domingo. Estará muita gente?, pensei... Estes eventos dedicados ao fado são um irrecusável chamariz. Assim como Carminho a certa altura frisou, o fado tem um mercado bastante forte. Forte, digo eu, especialmente durante esta fase, que não se sabe muito bem quando começou, nem quando acabará. Carminho teve excelente "timing" ao finalmente editar o seu primeiro álbum, "Fado". Não negarei que não tivesse impacto similar, caso o lançamento ocorresse noutra altura, mas a moda ajuda e a própria quantidade de tempo que a fadista entregou a si própria, até aceitar que seria a altura ideal para gravar, trouxe-a até nós com um estímulo especial de verdade.

Carminho, outrora desconhecida fora da esfera fadista, é agora um potencial fenómeno de massas: portuguesas e à moda antiga (basta ver a faixa etária da assistência e tirar as devidas conclusões). Inegável fenómeno que reúne consenso em todos os meios (até nos meios não fadistas), pela qualidade excepcional da sua voz, entrega e expressividade. Posso dizer que saí da sala Luís de Freitas Branco impressionada e satisfeita. Particularmente, por saber que a rapariga tem aproximadamente a minha idade, é da minha geração, e isso enche-me de orgulho. É que o Fado de todos os tempos, não só deste, tem os bons, os maus e os assim assim.

É bom saber que existem vozes como as de Carminho e de Ricardo Ribeiro, para frisar mais um, que enriquecem esta arte já tão saturada mas que oferece ainda um campo extraordinário para estes filões de luz. Imagino-me a ouvi-los com prazer daqui a 30 anos, assim como ouço com prazer fadistas de há 30 anos atrás, ou mais, muito mais. Não vou ficar petrificada nestes discos que me acompanham todos os dias, nem vou permanecer apenas apreciadora de fadistas mortas ou com mais de 70 anos. É bom saber que há algum espaço nestes ouvidos birrentos (ou exigentes, dependendo da perspectiva) para explorar estas novas vozes, ainda que com conta, peso, medida e alguma desconfiança natural. Ainda não me habituei aos contrabaixos no fado, por exemplo. Desculpem, mas recuso.

Felizmente não foi o caso dos belíssimos músicos que acompanharam Carminho. Luís Guerreiro (guitarra portuguesa), André Ramos (viola de fado), Daniel Pinto (guitarra baixo), são exemplos de virtuosismo. O seu apreço por Carminho sente-se na forma como comunicam com ela, nesse fado que é de todos e que forma um conjunto natural, apesar das inúmeras horas de trabalho que estarão por trás de tão aprazível performance. Parabéns ao Luís Guerreiro pela qualidade de solos com que nos brindou no Fado Pechincha. Também eu fiquei quase sem respiração com tamanha quantidade de escalas, ornamentações, trinados e tudo o mais que o meu conhecimento musical não permite classificar.

Além dos músicos acompanhantes e da própria Carminho, Helder Moutinho (director artístico) deu o mote para o desenrolar da interessante conversa sobre o curto percurso da jovem fadista. Helder não conseguiu disfarçar a admiração sentida ao ouvi-la cantar. Ouvir Carminho contar a sua história, desde as suas influências, passando pelo percurso pelas casas de fado, pela presença constante do fado durante toda a sua vida (desde o ventre da sua mãe, Tereza Siqueira), foi cativante tanto pelo discurso juvenil e informal como pelos laivos de fino sentido de humor. "A miúda é gira...", ouvi alguém dizer.

Já perto do final deste encontro, Carminho desafia Helder Moutinho para cantar Marcha de Alfama. Ao meu lado, duas francesas não pescavam nada do que se estava a passar. Foram as palmas para a despedida e eu a perguntar, num francês macarrónico, se as ditas senhoras não teriam compreendido mesmo nada da conversa, ao que elas disseram: "Zero!" É que queriam que eu reproduzisse a história de Carminho, mas se fossem inglesas teriam tido melhor sorte e tudo o resto apenas dependeria da minha boa vontade.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Fados à Conversa no CCB



Encontrava-me a pesquisar sobre os Dias da Música no CCB, quando me deparei com estes Fados à Conversa.
Esta predisposição natural para o Fado faz com que o encontre em qualquer sítio, ou melhor, faz com que seja encontrada, porque neste âmbito, e ao que ao Fado diz respeito, não existe muita possibilidade de escolha.
Voilá, o ciclo Fados à Conversa inaugura com Carminho, no dia 16 Maio 2010, pelas 17:00. Óptima ocasião para conhecer como nasce uma fadista de tão singular quilate.
Trata-se do segundo ciclo de Concertos à Conversa que parte de um conjunto de convidados por sessão, desta feita, dedicada ao Fado. Durante os dias 16, 23 e 30 de Maio, terminando no dia 6 de Junho, podemos conhecer e ouvir Carminho, José Fontes Rocha, Joana Amendoeira, Ricardo Parreira, Fernando Alvim, Rodrigo, entre outros. A direcção artística fica a cargo de Hélder Moutinho.

Se a história do fado conta com pouco mais de um século, as histórias do fado contam-se às centenas. E algumas ficam para a história. Helder Moutinho conhece-as bem. Nasceu numa família de fadistas e, ao longo dos seus quarenta anos, entre palcos e casas de fado, conviveu de perto com várias gerações de vozes, poetas, músicos e compositores. E porque um dos maiores prazeres da música reside no dá-la a conhecer aos outros, Helder Moutinho propõe-nos ouvir, ao longo de quatro concertos e quatro conversas, alguns dos mais destacados representantes das várias gerações que conhece do fado.

Consulte a programação em:
Fados à Conversa

terça-feira, 23 de março de 2010

Desgarrada

Recordem:


Joaquim Campos


Ercília Costa


António Menano


Joaquim Campos, Ercília Costa, António Menano cantam A Desgarrada (Popular - Fernando Teles)
Guitarra - Armandinho
Viola - Georgino de Sousa



Há no coração do homem
Tanta vontade de amar
Que as penas não o consomem
Por mais que o façam penar

É engano, há na mulher
Um amor mais puro e forte
Pois quando o coração quer
Vai o amor além da morte

Duma leve simpatia
Muitas vezes sem se querer
Vai crescendo tanto e tanto
Que d'amor nos faz morrer

Quando o homem ama e quer
Com toda a força da alma
Não há nenhuma mulher
Que em amor lhe leve a palma

Quando os nossos peitos tomem
Uma paixão verdadeira
Tanto a mulher como o homem
Amam da mesma maneira

Há sempre coisas mesquinhas
No perceber de quem ama
O ninho das andorinhas
É construído de lama


É uma desgarrada de ouro de uma época não menos áurea. Puro fado, isso sim! Intemporal, na música, nos intérpretes e nas palavras. Até porque, quando por amor se sofre, a lama é sempre a mesma.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Rosa Caída

Ada de Castro canta Rosa Caída (Joaquim da Silva Borges / Joaquim Campos)



Por trás do espelho quem está...? Uma mulher que sofreu.

Já não és a minha vida
De ti não tenho ciúme
Olha que a rosa caída
Mesmo depois de colhida
Continua a ter perfume

Julgando que me torturas
Passas com outra ao teu lado
Eu não caminha às escuras
Tenha a luz das amarguras
A iluminar meu passado

Não queiras compreender
Aquilo que já sofri
Só tenho pena de ser
Aquela a quem o sofrer
A fez mais gostar de ti

Já fui a rosa esquecida
Que esperava a Primavera
Agora tenho outra vida
Já não sou rosa caída
Voltei a ser o que era

sábado, 13 de março de 2010

Parabéns Ada!

Pelos 50 anos da sua carreira, que alguns resolveram lembrar-se.
O jornal Hardmusica publicou uma notícia, a qual volto a publicar neste blogue, para dela ter sempre registo.
Passando ao lado da comum retrospectiva da sua carreira, prefiro aqui deixar uma sincera homenagem com um fado.
O registo da voz de Ada de Castro sempre me agradou tendo sempre feito parte dos meus favoritos. Soube, através de uma fonte inesperada, que Ada de Castro, antes de se profissionalizar, cantava muitos fados da Hermínia Silva. Diziam até que as suas vozes eram parecidas. Na minha opinião, não diria tanto pela voz, mas pela forma de cantar, pelo repertório escolhido, pelo sentimento dedicado, pela garra e a raça fadista, castiça e bairrista. Sim, não me admira que isso seja idêntico e transmissível. Gostava de ver mais gente nessa sincronia. Também me disseram que era uma apaixonada pela voz de Maria Teresa de Noronha. Uma mulher de bom gosto, portanto.
Fadinhos como “Não me Atires Poeira aos Olhos” caem-me no colo em alturas que até parece que adivinham... É que é engraçado quando sentimos que alguém insiste em atirar-nos poeira aos olhos mas, por alguma intempérie momentânea, um ventinho sopra, e lá vai a areia direccionada para outro lado qualquer (ou para os olhos de outra pessoa, o que até tinha alguma piada). Para os meus olhos vão apenas as verdades que a noite encobre (onde é que já ouvi isto?:]), as realidades que se pressentem, as expressões que se vislumbram, os sentimentos cuja condição é realmente precária, como é toda uma vida no tempo presente, ainda mais do que antes.
Enfim, não deixa de ter a sua graça ver a ingenuidade com que me atiram poeira aos olhos. E eu a vê-la passar também não sou diferente...
Vai um fado e um tinto, para esquecer o dissabor.
Desejo bom resto de Sábado a todos, em especial à Dª Ada de Castro, que não merece estar envolvida nas confissões de uma fadistona chorosa.


Ada de Castro canta Não me Atires Poeira aos Olhos (António José, Nóbrega e Sousa)



Ada de Castro fala de si e do Fado
Hardmúsica, 13 MAR, 2010 por Zita Ferreira Braga

Ada de Castro mora em Lisboa, mais exactamente em Campo de Ourique mas não é aqui que tem as suas raizes. Nasceu no Castelo, perto de Alfama, berço de muito Fado e de muitos que o cantam.

"Sou uma mulher simples que ama o Fado e que tudo tem feito para o cantar bem. Sou das fadistas castiças que cantam com voz velada e um cheirinho de rua".
E Ada continua a descrição do que tem sido a sua vida de fadista:"Cantei a primeira vez como profissional no Faia, que era do pai do Carlos do Carmo, um homem muito simpático. Gostaram muito de mim e fui continuando a cantar. Só canto fados meus. Também apadrinhei muitas marchas sempre diferentes e foi sempre uma coisa de que gostei muito".

E Ada continua a falar embalada pelas recordações mas sem qualquer laivo de melancolia: " sabe para mim há uma figura máxima no Fado, a Maria Severa, e a partir daí vem Amália e depois vêm mais umas outras. Por exemplo fala-se pouco de Hermínia Silva uma pessoa que fez parte da minha vida porque a minha avó foi sua contemporânea e falava-se muito dela. Mas este país esquece os grandes artistas. Veja a Laura Alves. Ninguém fala dela e foi uma das melhores actrizes portuguesas".

Aqui o Hardmusica decidiu perguntar-lhe se se considera uma Diva uma vez que está incluida no rol das divas agora editado pela Fonoteca: " de modo nenhum. E penso que não há divas no Fado. Diva para mim é talvez a Maria Callas na ópera, a Piaff na canção. Diva é uma nome que não se aplica ao Fado e a haver seria a Severa."
Perguntámos a Ada de Castro como via ela o papel do Museu do Fado no panorama artístico actual mas a fadista não quiz adiantar muito sobre esta questão embora seja um local onde vai sempre que é solicitada.

"Ada de Castro, acha que lhe vão fazer uma festa como têm feito a outras colegas?"
Resposta imediata " Não". Com mais calma elucidou: "Mas se me quiserem fazer eu vou com toda a certeza. Mas ser eu a pagar para ter uma festa isso não!"
Mas esta fadista tem um talento em que a voz não entra: gosta de pintar. Autodidacta, recusa-se a ter lições porque "gosto de pintar o que quero, como quero e quando quero e se tivesse lições perdia a espontaneidade que ponho nas minhas pinturas"

Ada de Castro faz neste sábado, 13 de Março, 50 anos de actividade artística como fadista.
Cantou em várias casa de fado e actuou em inúmeras casas de espectáculo do país.
Visitou profissionalmente vários países, tendo actuado quer ao vivo quer nas televisões dos mesmos: Espanha, Dinamarca, Suécia, Bélgica, Holanda, Japão, China, França, Itália, Brasil, Argentina, Uruguai, EUA, Canadá e toda a antiga África Portuguesa, foram locais onde deixou a sua voz e o seu Fado.

No Mónaco actuou nos jardins do palácio Grimaldi para toda a família do príncipe Reinier incluindo a princesa Grace.
No Brasil actuou em todos os Estados da Federação a convite do Governo Brasileiro, isto em 1968.

Gravou para várias editoras, não só em Portugal mas também no Brasil e Holanda, detendo entre fados e marchas um total de 550 números gravados.

São inúmeros os prémios recebidos como em 1962, o óscar pela melhor fadista, prémio RTP, outro óscar em 1968 como melhor fadista do ano, em 1964 um elefante de ouro,em 1982 mais um óscar como melhor fadista do ano e por aí adiante.

Um pormenor que Ada conta com muita graça: "Veja só. Sou do Benfica e tenho uma placa de agradecimento do Sporting". E lá estava ela!



Links:
http://www.hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=4620

Biografia:
http://jsilva.bloguedemusica.com/r296/Ada-de-Castro/
http://www.portaldofado.net/content/view/1363/67/

Fados:
http://fadocravo.blogspot.com/2008/11/ada-de-castro-cigano-ou-troca-por-troca.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/76350.html

sábado, 6 de março de 2010

ARGENTINA SANTOS Não sei se canto se rezo




I do not know whether I’m singing or praying, é aquele mote entendido em qualquer língua, onde se isola uma ligeira nuance entre o cantar, rezar ou, até mesmo, pregar. Argentina Santos, do alto da sua dignidade de mulher e fadista, assim expressa, na doçura dos seus pianinhos, na riqueza melódica da sua voz, na verdade do seu cantar, a solidez do seu papel, onde se encontra, desde há algumas décadas, amplamente reconhecida. Sem qualquer pretensão a vedetismos, na sua entrega intimista, muitos testemunharam, naquela que é a sua Casa, a "Parreirinha de Alfama", a envolvência do seu cantar e a sedução dos seus dotes gastronómicos.

O Museu do Fado, pela segunda vez, homenageia a fadista, com uma exposição que exibe o seu espólio artístico, cuja reprodução podemos trazer connosco, por via do catálogo belissimamente ilustrado, com uma concepção gráfica notável. De destacar a possibilidade de podermos apreciar os projectos de António Viana para a concretização da exposição, que são, a meu ver, autênticas obras de arte, por si só. É ainda apresentada a discografia da fadista, incluindo as gravações de espectáculos, que ocorreram na casa de fados "Parreirinha de Alfama", congregando muitas figuras do nosso fado, que ali encantaram os seus admiradores e cultores.

O fadista Carlos do Carmo foi impulsionador da carreira além-fronteiras de Argentina Santos, juntamente com a imprensa especializada, que sempre a acompanhou e legitimou no seu papel incontornável, mesmo fora de um círculo mais ou menos fechado de apreciadores. De Argentina Santos, hoje com 86 anos, reconhecemos, para além do seu imenso dote nas vocalizações da alma, aquilo que as palavras podem definir como a uma inabalável Verdade.

A mim ninguém me diz nada. Nem a maneira de cantar. Eu nunca canto igual, nem repertório nem nada. Eu estou muito acostumada a mandar em mim, gosto muito de mandar em mim, de maneira que aquilo que gosto é aquilo que canto, é aquilo que sinto.
Argentina Santos

E disse alguém que o fado era canção de vencidos...


Argentina Santos canta Reza (Clemente Pereira/Miguel Ramos)


Visite a exposição no Museu do Fado de 28 de Fevereiro a 30 de Abril de 2010.

Links:
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/200798.html
http://fadocravo.blogspot.com/search/label/Argentina%20Santos
http://www.museudofado.egeac.pt/
http://jsilva.bloguedemusica.com/r299/Argentina-Santos/

segunda-feira, 1 de março de 2010

CONTRASTES

Após um breve interregno, tão duradouro quanto a publicidade da TVI, cá me apresento novamente, provinda da caserna onde descansei e ouvi a Berta Cardoso a cantar só para mim; lembrei-me que dantes até escrevia sobre fado... Recordei-me que o fado tem destas coisas engraçadas de pertencer a todos os tempos e não pertencer a nenhum.

Há aqueles fados que são intemporais e aqueles que se vê que pertencem bem a estes tempos, seja pela produção sonora, pelas soluções instrumentais, pela actualidade das letras, ou pela irreverência na interpretação. Penso ser interessante contrastarmos (e constatarmos) essa substancial diferença entre o “original” e a “versão”, o novo e o velho, o actual (de agora) e o intemporal (de outrora e por aí fora...); o recente que amplifica o passado e o passado que justifica a novidade, legitimando-se assim...

São duas interpretações de que gosto, que me agradam pelas suas diferenças e por aquilo que carregam em comum. Quero agradecer à minha vizinha da frente [N. do A., da frente, sendo assim mais fácil gritar “bom dia” e ela ouvir-me e ver-me, assim como pedir-lhe aqueles distintos raminhos de violeta que ela semeia à janela da cozinha] por ter-me enviado esta versão da Hermínia Silva ao vivo a cantar o fado que conheço como “A Rua Mais Lisboeta”. Da Aldina Duarte, a gravação que possuo é a que consta no CD “Mulheres ao Espelho”. Ainda da nossa Hermínia Silva podem encontrar uma gravação de muito boa qualidade no CD “O melhor de Hermínia Silva” editado pela iPLAY, 2008.


Hermínia Silva canta A Rua Mais Lisboeta (José Lourenço Rodrigues / Vasco de Macedo)




Aldina Duarte canta A Rua Mais Lisboeta (José Lourenço Rodrigues / Vasco de Macedo)



Cá p'ra mim a minha rua
É um risonho canteiro
Tem gatos miando à lua
Nos telhados em Janeiro

Tudo ali é português
Ai, tudo lá vive contente
Vive o pobre e o burguês
É pequenina talvez
Mas cabe lá toda a gente

Melhor nunca vi
Que a rua onde eu nasci
A rua é pobrezinha
Mas tem uma graça infinda
É humilde qual aldeia
Embora digam que é feia
Cá p'ra mim é mais linda

Não há ódios nem maldades
E tudo ali é singeleza
Não pode haver na cidade
Rua assim mais portuguesa

Ai, nada tem que seja novo
Essa rua da gentalha
E assim canto e me comovo
Pois é a rua do povo
Que labuta e que trabalha