segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Maria da Conceição (1958): Fados




O álbum da criadora do fado "Mãe Preta" já chegou ao Soldado!
À semelhança do que foi indicado na notícia e comentários anteriores, reforço que foi de louvar a iniciativa desta reedição em formato digital dos 12 fados seleccionados do repertório da fadista Maria da Conceição.

Como tem sido hábito comentar sobre o "pacote", devo frisar que este lançamento da Estoril desilude um pouco pela ausência de livrinho, nem que seja com os poemas impressos, constituindo assim um dos pontos menos positivos desta edição. Compreende-se, porém, que seja inevitável construir edições simples, gastando o mínimo possível de recursos e vendendo a um preço que denuncia o escasso número de vendas. Vale pela música e pela divulgação.

O conjunto de temas é constituído por fados tradicionais, sobretudo fados-canção, alguns com belíssimos poemas da autoria do Príncipe dos Poetas. Fica o registo da excelência da guitarra portuguesa de Casimiro Ramos, da viola de Miguel Ramos e da melodiosa voz de Maria da Conceição. Fica na capa do CD a indicação de que, quem adquirir este álbum, irá encontrar a versão original de "Mãe Preta", não censurada, diga-se, versão essa que ganhou popularidade meteórica na voz de Amália Rodrigues, pelas palavras de David Mourão-Ferreira, a que se deu o título de "Barco Negro".

Alinhamento:

Menina Tagarela (Acácio Gomes/ Belo Marques)
Amor Filial (Acácio Gomes/ M. José Figueiredo)
Triste Viuvinha (R. Ferreira/ Artur Fonseca)
Janelas de Namorar (João Linhares Barbosa/ Alfredo Mendes)
Disse-me, Disse-me (Pedro Caetano/ Claudionar)
*Mentira (Dr. Guilherme Pereira/ A. Machado)
Mãe Preta (Piratini/ Caco Velho)
Canção de Sempre (Belo Marques)
Sempre Noivo (João Linhares Barbosa/ Jaime Santos)
Pequena que já Namoras (João Linhares Barbosa/ Jaime Santos)
Luz Dourada (João Linhares Barbosa)
Baião da Saudade (Fernando Jaques)



Mãe Preta

Para ouvir/ver o vídeo "Mãe Preta" criado pela Tia Macheta clique aqui.

Em fóruns de música onde cheguei a participar costumava discutir-se, sempre que saía um álbum, a necessidade generalizada em encontrar aquela música basilar que o marcava indelevelmente e de onde parece que tudo o resto se projectava. Pois, para este Soldado, aquela música que valeu a pena, que marcou as sucessivas audições, que justificou a aquisição, nem que viesse apenas embrulhada em película aderente, foi o fado "Mentira". É esse que aqui apresento:

Maria da Conceição - Mentira




Desenho da autoria de TiMariaBenta

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ARQUIVOS DO FADO - MARIA ALICE




Maria Alice, “As Primeiras Gravações 1929-1931”, constitui a segunda selecção de fados organizada no âmbito da colecção Arquivos do Fado, que se espera ser longa e próspera, como acredito que esteja a ser no espectro da fadistagem.
Maria Alice foi, em tempos, uma referência na projecção desse fado que registou nas gravações que agora nos são dadas a conhecer. Pela observação de diversas formas de arte ligadas à (por vezes terrível e injusta) condição de ser-se mulher, percebemos que estes fados servem (não só mas também) o propósito de desvelar as tensões desses percursos.
Fados absolutamente intensos, explorando retratos das mulheres que passaram pelas mais atormentadas torturas, por experiências amargurantes e humilhantes a nível psicológico, físico e emocional, deixando a grandeza do seu espírito surgir das cinzas por via dessa imolação. Na voz de Maria Alice tudo isso é Fado. Voz doce, melosa, que arrasta amargura pelas guitarras solenes. Voz que canta o desamor, a paixão não correspondida, a injustiça social, o sacrifício e a morte, um retrato dessa nossa Canção Nacional, essa “Voz de Portugal”, cantada com a dimensão merecida.
O texto introdutório, da autoria de Maria de São José Côrte-Real, define a importância deste trabalho de investigação e recuperação, assim como de conservação daquilo que afinal faz parte do nosso Património. Passo a citar: “A disponibilização do som como fonte primária documental assim beneficia não só o conhecimento em geral, como produz material didáctico de interesse educativo, fundamental para o desenvolvimento da investigação científica em domínios tais como a música tradicional, a literatura oral, a tecnologia de registo e restauro fonográficos, entre outros”. Expressando a minha total concordância, volto a frisar que esta colecção deverá ser entendida também como documento, para além dos firmados créditos como objecto de fruição.
Da selecção de vinte fados, só o último, “A Azenha”, foi gravado em 1931, tendo sido gravados, os restantes, no ano de 1929. Embora, na maior parte dos fados, seja desconhecido quem acompanha à guitarra e à viola, excepto em “Esse Olhar dá-me Tristeza”, Maria de São José Côrte-Real declara existirem indicações de que Carlos da Maia (guitarra) e Abel Negrão (viola) serão os executantes dos dezanove primeiros fados. Foge a esta regra o fado “Tango da Morte”, apresentado na revista “O Ricocó” e acompanhado pela Orquestra de Tango, com letra de Armando Freire, expressando intenso dramatismo.
A apresentação de cada fado segue a mesma estrutura que já havia apresentado no texto Arquivos do Fado – Amália Secreta, ou seja, título, local, data, música, letra, editora, matriz, acompanhamento.

Maria Alice (1904-1997), nome artístico de Glória Mendes Leal de Carvalho nasceu na Figueira da Foz a 1-09-1904 e cantou, pela primeira vez, no retiro Ferro de Engomar, a convite da fadista Maria do Carmo, corria o ano de 1928. Revelou aos demais as qualidades doces e suaves da sua voz.
Com o apoio dos seus contemporâneos, onde se contavam a cantadeira Maria Emília Ferreira e aquele com quem viria a casar-se, o editor Valentim de Carvalho, Maria Alice gravou diversos discos e cantou nos mais variados contextos, nomeadamente no teatro de revista e em esperas de toiros. Seguiu-se, em 1934, uma oportunidade de viajar para o Brasil, onde permaneceu cinco meses e manifestou a consagração do seu talento além fronteiras.

O fado aqui apresentado, “Vida Triste”, é, na opinião deste Soldado, de uma beleza única e significante. Em jeito de homenagem à fadista e a esta colecção:





VIDA TRISTE
(Júlio de Sousa / J.F. Brito)

Vida triste de quem ama
E o coração não resiste
Ao grande amor que o inflama
Sinto o peito querer abrir-se
E o coração contrafeito
Como a tentar evadir-se

Sofrer, penar, levar ao calvário a cruz
Até que se apague a luz
Da derradeira ilusão
Se tudo acaba às mãos do tempo que corre
Porque será que não morre
Esta maldita paixão

Se é pecado olvidar
Eu pequei por ter amado
Alguém que não sabe amar
E um afago nem terei
Que possa servir de pago
A tanto amor que lhe dei


A nossa Fadista já havia homenageado Maria Alice com o belíssimo fado, “Fado Menor”, que podem ouvir aqui.

Fontes:
Sucena, E., Lisboa, o Fado e os Fadistas, Nova Vega e Autor, 2008
Biografia de Maria Alice
Notícia da colecção
Tradisom

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Reedição de 12 fados de Maria da Conceição em formato digital

Boas notícias, com excelente sentido de oportunidade.
Sempre ajudam a esclarecer.
O lançamento ficou a cargo da etiqueta Estoril que, juntamente com outros, dedica-se habilmente a fazer-nos recordar grandes vozes do passado. Veja-se o caso de Berta Cardoso.
Agora, também a maravilhosa voz de Maria da Conceição estará disponibilizada em formato digital, de grande utilidade para a divulgação mais "mainstream" do fado... porque toda a gente sabe que o vinil não é para todos, ora bem. "Mainstream´" é que a voz de Maria da Conceição não é... apenas o formato digital; no entanto, deseja-se fervorosamente que isto ajude a esclarecer algumas mentes, no que respeita à boa arte de designar autorias, recorrendo a factos, preferencialmente, e não à criatividade.
É ponto assente que não existem muitos ouvintes que tenham interesse nesta coisa das autorias. Se ouvem Amália Rodrigues, porque são os fados que estão mais à mão e, fazendo eles todo o sentido na sua voz, não têm tendência para procurar quais foram as primeiras vozes a difundi-los, nem que o tenham sido apenas ("apenas" e, também, "não só") em solo nacional. Nem vozes e nem autores!
No conjunto de 12 fados apresentados nesta reedição, segundo o jornal Sol, constam "Mãe Preta" e o conhecido "Casa Portuguesa", cantados pela voz que lhes deu corpo em primeiro lugar. Outras gravações de 1958 são recuperadas daquele que foi um repertório de "fado tradicional" e "fado com refrão".
O fado "Mãe Preta", da autoria de Caco Velho e Piratini, tornou-se conhecido por "Barco Negro", a mesma música mas com outro poema, da autoria de David Mourão-Ferreira, que se corporizou na profunda voz de Amália Rodrigues, atravessando o Mundo com ele, materializa-se agora na voz de Maria da Conceição (e sem censura...). O fado "Casa portuguesa", da autoria de Reinaldo Ferreira e Artur Fonseca, trouxe-o Maria da Conceição aquando do seu regresso de Angola e marca também presença neste conjunto de 12 fados.
Fados para recordar, cuja voz que os eleva (ou enleva) caiu no esquecimento geral, como o Fado, 'tá visto, que perdeu a abrangência que outrora teve, resumido como está, na memória colectiva, em menos de meia dúzia de nomes. É lá isto a Canção Nacional...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Espólio do fado comprado por 910 mil euros pelo Estado e Câmara de Lisboa



Jornal Público, 12.08.2009, 21h07


Pode ler-se a última notícia aqui, acerca da saga que rodeia a aquisição da colecção de cerca de 8000 discos do coleccionador Bruce Bastin. Aqui no Soldado do Fado, espera-se ardentemente divulgação, estudos, monografias, divulgação, publicação e mais estudos. Muito trabalho e muita vontade de criar Arquivos preciosos para o nosso património e para a História do país. O Museu do Fado, p.ex. ainda não apresentou uma colecção online e detalhada. Talvez este seja um bom pretexto para fazer bom trabalhinho no âmbito da conservação, certo? E para abrir horizontes...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Fado candidato à UNESCO em 2010

Jornal Sol, 2a-feira, 10 Agosto 2009




A candidatura do fado à convenção da UNESCO para a salvaguarda do Património Cultural Imaterial «deverá ser apresentada durante o primeiro semestre de 2010», disse hoje à Lusa a gestora do Museu do Fado, Sara Pereira.
«Desde 2005 que estamos a trabalhar na preparação da candidatura, aguardando agora a publicação pelo Governo da portaria que regulamenta a apresentação e formalização do processo. Saída esta portaria apresentaremos a candidatura à UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura)», explicou.
Em declarações à Lusa, a gestora do Museu do Fado afirmou que a partir de Outubro inicia-se um plano editorial que inclui a reedição «de algumas das fontes fundamentais para a história do fado».
Entre essas fontes documentais, Sara Pereira referiu a edição facsimilada de O fado, canção de vencidos de Luís Moita (1937) «e a resposta de Vítor Machado».
Tanto a edição da obra de Luís Moita, como a «resposta» de A. Vítor Machado, Ídolos do fado (1937), terão estudos prévios do musicólogo Rui Vieira Nery.
O fado e os censores de Avelino de Sousa, com estudo prévio do antropólogo Paulo Lima, é outro título facsimilado que sairá em Dezembro, adiantou Sara Pereira.
No plano editorial está ainda prevista a publicação do Catálogo da Discografia de Fado entre 1902 e 1926, um estudo da equipa de investigadores do Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa, coordenada por Salwa el-Shwan Castelo-Branco, com um estudo prévio de Pedro Félix.
Uma selecção das várias entrevistas feitas a «figuras marcantes» da história do fado será editada em Dezembro de 2010.
Estas entrevistas foram iniciadas em 2005 pela equipa coordenada por Salwa Castelo-Branco, e a publicação contará com «notas de apresentação do Conselho Consultivo do Fado».
Este conselho, adstrito ao Museu do Fado, é composto por Julieta Estrela de Castro e Luís de Castro, da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF), Luís Penedo, da Academia do Fado e da Guitarra Portuguesa, pelo guitarrista António Chaínho, os fadistas Carlos do Carmo e Vicente da Câmara, a instrumentista e compositora Luísa Amaro, o estudioso Daniel Gouveia, e o construtor de guitarras Gilberto Grácio.
«O fado no ensaio e na ficção. Antologia das abordagens ao fado por escritores e pensadores relevantes da Cultura portuguesa (1850-1950)», com estudo prévio de Rui Vieira Nery, é outro título previsto.
A linha editorial agendada inclui ainda a edição de fontes musicais facsimiladas de partituras impressas e de transcrições de partituras manuscritas de fado, fontes poéticas, iconográficas e sonoras.
Entre as fontes poéticas incluem-se três antologias, uma delas, inteiramente dedicada aos poemas interpretados por Amália Rodrigues.
Na área da iconografia, conta-se a edição de uma antologia de capas ilustradas de fados, uma selecção e estudo prévio de Sara Pereira.
Quanto a fontes sonoras está prevista a reedição de CD de gravações históricas de 1940 a 1960 «sob a chancela da candidatura».
Além de Sara Pereira, Rui Vieira Nery, Paulo Lima, Salwa Castelo-Branco e os conselheiros do museu, nestas reedições estão também envolvidos a equipa de investigação do Museu do Fado, o músico e historiador Manuel Morais, o estudioso José Manuel Osório, e a Fundação Amália Rodrigues.
Sara Pereira adiantou à Lusa que foram identificados «os espólios relevantes do fado» e estão a ser preparadas bases de dados de temática fadista que serão disponibilizadas na Internet.

Lusa/SOL

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Cá esperamos pela entusiasmante onda de publicações sobre fado e que, pelo menos, sejam fruto de investigações aturadas e fiáveis. "Menos é mais", neste caso e em todo o caso...
Que ganhe o Fado e assim ganharemos todos nós.

sábado, 8 de agosto de 2009

Amália no Mundo - O Mundo de Amália

Com objectivo de divulgar a exposição que ocorre por ocasião dos dez anos da morte de Amália Rodrigues, aqui coloco uma notícia, extraída da revista Time Out Lisboa, 5-11 Agosto 2009, Nº97.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Deus nos livre

"Deus nos livre do amor e da morte"... Foi um diz-que-disse. O meu ex-professor de Filosofia disse que a Natália Correia o disse (ou escreveu), salvo erro.
Não confiando na minha memória para a situação anterior, recordo-me muito bem destes versos, "Mas não há nada mais triste/Que andar-se uma vida à espera /Do dia que nunca chega". Há lá coisa mais triste?! Penso que estes versos escondem muita e profunda filosofia. Assim como esse dizer quase comum, "Deus nos livre do Amor e da Morte", esperar por um dia que nunca chega pode ser apanágio do Amor, porém a Morte sempre chega, já sabemos. Contudo, só alguns percebem que esperar um dia que nunca chega, no Amor, faz desejar esse dia para a Morte. Daí encontrarem-se tão ligados por esse fio de prata que une ambos como reverberações do mesmo. O amor perde-se para a morte e a morte pode acontecer por amor. Que fadinho! Deus me livre!
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Aqui deixo um fado a ilustrar essa tristeza da saudade, que traz o amor, talvez a morte, senão a amargura. "Ando morrendo na vida (...) depois da tua partida". Há sempre espaço para ouvirmos esse "Fadinho a soluçar/[que] Faz de nós afugentar/A ideia da própria morte". "Fim de citação!"

Canta Lucília do Carmo:



VERDADES QUE A NOITE ENCOBRE
(Matos Maia/ Armandinho)

Madrugada sem luar
Onde o meu pobre cantar
É uma estrela escondida
Noites perdidas de fado
Onde canto o meu passado
Onde me sinto perdida

Ando assim em penitência
Recordando a tua ausência
Sofrendo a cada momento
Ando morrendo na vida
Pois a tua imagem querida
É o meu maior tormento

Verdades que a noite encobre
Neste soluço tão pobre
Que finge toda uma vida
Riso, pranto, agonia
Pois é assim o meu dia
Depois da tua partida


Referências:
Despedida (Carlos Conde/Alfredo Duarte)
Maldito Fado (Pedro Bandeira / Raul Ferrão)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Da Paixão

A paixão é cá um Fado! Objecto dos mais variados arrebatamentos, é responsável por sintomas, físicos e psicológicos, como se de uma doença se tratasse, muitas e muitas vezes, transformando-se mesmo numa! É puro impulso perceptivo, que gera puro impulso cerebral, que gera puro impulso físico. É pura e instintiva, tão humana que pode conduzir ao seu perigoso oposto.
A paixão serve de palco aos mais contraditórios sentimentos. Felicidade e libertação com amargura e prisão. Pois é! A paixão não é só alegria e não termina apenas no amor e uma cabana. Paixão é destino, é fatum, é sofrer a bem sofrer! Mesmo quando é correspondida, é um aperto na garganta. Nada aconselhável mesmo. Acrescento, para quem estará a pensar "mas a paixão que sinto é linda e só tem coisas boas", que não é, vai perceber mais cedo ou mais tarde (se não for uma paixoneta, ou uma pancadinha) que tem de penar na mais profunda das solidões. Sim, porque a paixão não acontece só quando o apaixonado está ao lado, também acontece ao longe. É insuportável, traz saudade que arranha devagarinho e arranca pedacinhos de pele. Traz-nos o desespero e a inquietação. É absolutamente finalista! É um proto-apocalipse prestes a rebentar, quase no limite, quase sem haver ar para respirar mas havendo, aqui um bocadinho, ali outro. Cá vamos havendo, é assim na paixão. Egoísmo e solidão, sofrimento, luz e esperança. É assim esse Fado!
E quando a paixão não é correspondida?
É que, notemos, se quando é correspondida paira sempre o receio que não seja, imaginemos quando efectivamente não o é, quando essa obsessão conduz ao inquebrantável abandono? Algumas condições existenciais vêm-me à cabeça: desespero, angústia, solidão, humilhação, raiva, frustração, entre muitos outros, que ascendem nessa escadaria iniciática para o abismo. Há quem vá de escadote e depois, quando cai, olhe-se e pense-se "mete o escadote no c...!". Tal não é a paixão, a mais pura das ilusões.


Aqui vos deixo um fado que acho lindo, muito conhecido do repertório de Deolinda Maria, desta vez interpretado por Fernanda Maria. Há muita paixão que tem muito amor contido mas há muitos amores que vivem com muito pouca paixão. Complicado!


Fernanda Maria - GOSTO DE TI (Maria Lavínia, Alberto Simões Costa)




Irresistível este Desejo Louco, assim o é também na paixão, como brasão da entropia que conduz aos mais variados esgotamentos.
Ada de Castro canta com um acompanhamento de guitarras que é um estrondo, bem corrido e ritmado, que é para acabar em alegria.


Ada de Castro - DESEJO LOUCO
(J. M. Nóbrega, L. Fidalgo)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

MARIA TERESA DE NORONHA

Aqui apresenta-se a voz de Maria Teresa do Carmo de Noronha Guimarães Serôdio (1918-1993), cantando três fados, escolhidos a meu gosto, de entre um repertório riquíssimo, onde se destaca o fado Rosa Enjeitada, Fado das Horas, Alexandrino, Fado Anadia, entre outros. A voz de Maria Teresa de Noronha pode considerar-se inevitavelmente cativante, despertando paixões e reunindo consenso por parte de uma crítica que reconheceu o seu talento.
Voz soprano, cuja característica maior será o excelente alcance que atinge quando canta as notas agudas, perdendo a força quando a voz escoa pelas tonalidades mais graves, edificando uma escala dotada de intrínseco dramatismo. Esse dramatismo soube ela construir pela escolha do seu repertório (musical e lírico, constituído maioritariamente por poemas sobre amor/tristeza/saudade); pela modelação da sua voz, na utilização exímia dos pianinhos, que definem uma das suas principais qualidades enquanto fadista, assim como das ornamentações musicais, enquadradas e condizentes com a sua particular arte de expressar o fado.
Maria Teresa de Noronha não foi mulher do povo ou cantadeira das vielas de Alfama. Tal entende-se pela nobreza da sua voz, que parece contar a sua própria história. Mulher de linhagem aristocrática, foi filha de D. António Maria de Sales do Carmo de Noronha e de D. Maria Carlota Appleton de Noronha Cordeiro Feio. Casou com o 3º conde de Sabrosa, de sua graça José António Barbosa de Guimarães Serôdio, também ele rendido ao fado como guitarrista amador de profunda sensibilidade artística, e privou com os demais fadistas nos conceituados retiros de Lisboa.


Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha e José António Barbosa de Guimarães Serôdio n'O Faia.


Pessoa de fino trato, Maria Teresa de Noronha foi, segundo testemunham, uma mulher de grande coração, porém não muito calorosa. Visualize-se o oposto de Hermínia Silva, no que a ser calorosa diz respeito! Tem piada como o fado congrega os mais variados tipos sociais.
Maria Teresa de Noronha foi, e continua a ser, uma referência fortíssima (senão paradigmática) do chamado Fado Aristocrático, mesmo quando aristocrática era apenas ela, bem como os outros fadistas de nobre linhagem que abraçaram a Canção Nacional. O fado que cantou foi, pois, do povo e bem castiço, tanto que não era necessário, ou lógico, banhar-se em sangue azul, em termos estilísticos e musicais, para acontecer a uma bela voz que tão bem o soube cantar!


- Desengano, a cantar o amor e desamor, cheia de graciosidade.



DESENGANO
(Mário Pissarra /José Marques)

E adorei-te, acreditei
No bem que eu ambicionei
Dum amor sinceridade
As tuas promessas puras
E o calor das duas juras
Tinham a luz da verdade

Mas um dia te esqueceste
De tudo o que me disseste
Em confissões tão ardentes
Iludiste duas vidas
Com mil palavras fingidas
Que não sentiste nem sentes

Ao contemplar o passado
Como um golpe já fechado
Que ainda sinto doer
Vejo em teus falsos carinhos
Que as rosas têm espinhos
E também fazem sofrer.


- Na sua peculiar interpretação do Fado Hilário, destacam-se as potencialidades operáticas da sua voz.



FADO HILÁRIO
(Augusto Hilário)

Para cantar procurei
As minhas mágoas sem fim
Eram tantas que acabei
Por chorar com dó de mim

Passarinho, mesmo preso
És mais livre do que eu
Tu vives num cativeiro
E eu na dor que Deus me deu

Já não posso mais sofrer
Com tão amarga saudade
Dai-me a esmola de o esquecer
Minha mãe, por caridade


- De temática saudosista, o seguinte fado demonstra a expressividade e sensibilidade no domínio da expressão e da palavra.



FADO DA IDANHA
(Ricardo Borges de Sousa)

Quem me dera que voltasse
O doce tempo de além
Sentada junto à lareira
A ouvir cantar minha mãe

Ó tempo, tempo ditoso
Da vida eterno sorriso
Que terras em paraíso
Um mundo tão enganoso
Quanto à minha mãe, choroso
Lhe pôs um beijo na face
Lhe pedia que cantasse
Uma trova de bonança
E esse tempo de criança
Quem me dera que voltasse

Tempos que não voltam mais
Da nossa infância ridente
Em que eu vivia contente
Correndo atrás dos pardais
Das paredes dos casais
Que a nossa aldeia contém
Branquinhas como a cecem
Mudas como a gratidão
E recordam com paixão
O doce tempo de além


Fontes:
Sucena, E., Lisboa, o Fado e os Fadistas, Nova Vega e Autor, 2008
N'O Faia
Wiki PT
Wiki EN
Lisboa no Guiness
Fadistas Como Eu Sou

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fados cantados por Hermínia Silva no filme Aldeia da Roupa Branca (1938)

«Em 1938, Chianca de Garcia decide realizar um filme genuinamente português, sonho que acalentava desde 1933. Aliás foi por pouco que o filme "Aldeia da Roupa Branca" não foi o primeiro filme da Tobis Portuguesa. Na altura, os responsáveis da Tobis optaram pelo filme de Cottinelli Telmo "A Canção de Lisboa". Agora em 1938, Chianca de Garcia recebe luz verde para o seu filme, e assim nasce "Aldeia da Roupa Branca". O filme é ambientado numa aldeia próxima de Lisboa, onde as mulheres locais lavavam a roupa dos habitantes da capital. O filme centra a sua história na rivalidade de duas dessas empresas, a do Tio Jacinto, papel magistralmente interpretado pelo actor Manuel dos Santos Carvalho, e a da viúva Quitéria, outro papel memorável que marca a estreia no cinema de uma grande actriz de teatro, Elvira Velez. No papel principal surge mais uma vez Beatriz Costa, onde tem neste filme outro desempenho memorável no papel de Gracinda. Curioso será que após a estreia deste filme já no início de 1939 no cinema Tivoli, tanto Chianca de Garcia como Beatriz Costa partem rumo ao Brasil, para tentar aí uma carreia artística.»
Os Anos de Ouro do Cinema Português
Duração aproximada: 82 mn. P/B Ano de produção: 1938




O papel de Maria da Luz (Hermínia Silva) vive muito através do universo dos outros personagens. Era por ela que o Chico andava desvairado (vulgo apaixonado) e o único motivo pelo qual ainda não havia deixado Lisboa (aparte dos carros, outra das suas paixões). Gracinda via em Maria da Luz uma ameaça e uma das causas para as inquietações do seu coração, devido aos sentimentos que desenvolvia por Chico. Ficaria ele com ela ou com a fadista? Trocaria ele uma vida simples, e um amor puro, por uma estabilidade duvidosa, rodeada pelos ambientes luxuriosos das cidades e retiros? Aquele fado, personalizado pela Maria da Luz, era um Fado da tentação. O Fado de Gracinda era outro, quase oposto, da luta, pobreza, candura, trabalho, vida simples e vivida em comunidade.






FADO DO RETIRO
(José Galhardo/Raul Ferrão)

É tão fresca a melancia
Como a boca da mulher;
Nas tardes de romaria
Rapazes é que é beber,
Chega a gente ao fim do dia
Sem dar p’lo amanhecer

É para esquecer
É para esquecer
Que assim beber
Tu me vês a vida inteira
Com este copo na mão
Que tem de sofrer
Mais vale beber até poder ter
O sangue de uma videira
Cá dentro do coração.

Ó tristeza vai-te embora
Que a vida passa a correr
Se não te alegras agora
Quando é que o hás-de fazer?
Bota o vinho a toda a hora
Canta, canta até poder

Se calhar haver zaragata
Com um freguês que tem mau vinho
Pr’a não estragar a frescata
É dizer-lhe com jeitinho
- Bebe lá mais meia lata,
Vá lá mais um pastelinho!






FADO DA FADISTA

(D.R.)

Nasci num dia de chuva,
Eu chorava, o céu chorava.
Minha mãe cantava o fado
A ver se me consolava.
Depois palrei,
Depois falei,
Depois cantei,
Como quem sente um segredo
Represado na garganta
Vivi, sofri
E no que vi,
Compreendi
Que a fadista de nascença
Só é mulher quando canta.

Num dia de sol ardente
Passou pela minha rua,
Olhámos um para o outro,
E eu senti que ia ser sua.
Ainda hesitei,
Mas o que eu sei
É que cantei
Como quem canta, sentindo
Que a própria alma é que canta
E a fulgurar
A suplicar
O seu olhar,
Tinha a mesma labareda
Que me queimava a garganta.

Numa noite fria e escura
Não voltou à nossa casa.
Pus os olhos no meu filho
Sentindo os olhos em brasa.
E só então,
Meu coração,
Nessa traição
Entendeu a dor profunda
Que há na alma de quem canta.
Se me deixou,
Me abandonou,
Fez-me o que sou...
- Agonia da saudade
Que enrouquece uma garganta.


O âmbito do poema do "Fado do Retiro", assim como a cena em que ele decorre, fez-me concluir que se trata efectivamente da sua designação no filme. Todavia, também pode ser associado aos nomes "Fado da Melancia" ou "É tão Fresca a Melancia". Os resultados das minhas pesquisas sobre o nome deste fado foram um tanto ambíguos e por isso deixo ao critério de quem possui mais/melhores fontes sobre o assunto. O mesmo acontece com o Fado do Fadista, no que concerne à autoria.

Fontes:
Cartaz da Partitura Musical
Marceneiro, V.D., Recordar Hermínia Silva, Edição de Autor, 2004
Agradecimentos
Ofélia Pereira
Vítor Marceneiro
Paulo Borges Almeida
Pela paciência demonstrada, obrigada.